3. MATERYAL ve METOT
3.2 Ceviz Soyma Makinesi Tasarımı
3.2.1 Tasarım
“O homem antigo maravilhava-se ante a linguagem”, diz-nos Stahmer (1968, p. 14). E faz-nos lembrar do trecho de Foucault que citamos na seção anterior, ao comentar que para esse homem da Antigüidade “as palavras tinham o poder de produzir os eventos, e não serviam, como no caso do homem moderno, meramente para descrevê-los ou para articular privadamente os pensamentos” (id.)1.
Mais adiante, Stahmer diz que o “homem primitivo era incapaz de considerar suas palavras como símbolos, como designações ou representações de uma realidade maior. A palavra, a elocução, a linguagem, eram para ele idênticos à realidade” (id., pp. 15-16). Aqui quem vem à memória é Derrida, que quase à mesma época, no capítulo final da Gramatologia, falava da origem da linguagem: “a linguagem [...] é originariamente metafórica [...], da paixão2 [..] cada palavra tendo o sentido de uma
proposição inteira.” (Derrida, 1999, pp. 330, 341. A Gramatologia é de 1967).
É nessa linha que se pode começar a compreender o que seja essa palavra que tem precedência sobre o pensamento, e o configura.
Nas suseranias do antigo Oriente Médio era a palavra do rei ou suserano que “significava” na medida em que “ordenava”—e “ordenar” vai aqui não apenas no sentido de “dispor”, mas especialmente no de “configurar a ordem da coisas”. Essa palavra,
controlava e permeava, mas mesmo assim transcendia, todas as línguas individuais, seja a do soldado, a do governante ou a do sacerdote. Era ela quem, finalmente, conferia unidade e significado aos papéis individuais [de soldado, governante,
1 Quanto ao “maravilhar-se ante a linguagem” ser característico da mentalidade mítica antiga, temos
um exemplo bem próximo de nós. O primeiro ato do Pai-primeiro no mito de origens dos Mbyá-Guarani do Guairá no Paraguai é a criação do “fundamento da futura linguagem humana”. Mais tarde, e após outros atos criativos, o Criador “refletiu profundamente sobre quem fazer partícipe do fundamento da linguagem humana”. Foi só então que “em virtude de sua sabedoria criadora, criou os Nhamandu de coração valoroso” (Cadogan, 1959, pp. 19-21). Como se vê, nesse caso é a própria Criação que se dá num linguistic turn.
2 Derrida usa Rousseau—cujo Essai sur l’origine des langues é o objeto do último capítulo da
Gramatologia—para esclarecer como “uma expressão pode ser figurada antes de ter um sentido próprio. [...] É preciso substituir a palavra que [hoje em dia] transpomos [na metáfora] pela idéia que a paixão nos apresenta.” (Rousseau apud. Derrida, 1999, p. 336).
sacerdote, etc], e ninguém podia falar, de [uma] forma [que fosse considerada] significante, sem que fosse por ela influenciado [i.e., influenciado pela palavra do soberano], e sem a ordem e a bênção do rei. (Stahmer, 1968, p. 17).
Essa palavra do suserano não apenas “ordenava”—no sentido acima—mas também, de certa forma, “criava”. Nisso, o nome tinha papel fundamental:
homens ou animais não eram totalmente reconhecidos como criaturas até que recebessem um nome [próprio que lhes designasse]. [...] Receber uma ordem de um representante da palavra autoritativa era um sinal de favor, já que isso significava ter seu nome reconhecido: e adquirir dessa forma uma existência significativa. [...] Para o egípcio, o acádio, o sumério ou o israelita, a [simples] idéia de não se ter um nome causava um frio na espinha. (Stahmer, 1968, p. 10).
Para os israelitas de então, a relação entre Deus e as criaturas que esse Deus criara à sua imagem e semelhança—aquelas a quem dotara da capacidade da fala—, era governada por uma Aliança que tinha essa mesma natureza, a natureza de um pacto de suserania (Kugel, 2007, pp. 243-247). “Sem a palavra de Deus—sem o poder sustentador do davar—a humanidade definharia e morreria, e a história humana perderia toda significação.” (Stahmer, 1968, p.10).
O termo hebraico davar deriva de uma forma cujo significado é “falar”(speak), mas que tem também—o que é muito significativo para tudo o que aqui nos ocupa—as acepções de “feito”(deed3) e “acontecimento” (event). Assim, diz-nos Stahmer, “davar
não pode ser simplesmente traduzido como “palavra”, a não ser que se tenha em conta que sempre que falada, davar significa um acontecimento (happening), uma situação que é falada para que venha a ocorrer (a situation that is spoken into existence).” (id., 18). E com isso, como veremos mais adiante, pode-se buscar compreender—com olhos de hoje—o que vem a ser “o sagrado” na língua.
Mas antes disso é preciso reconhecer que também a cultura grega valorizou e deu precedência à palavra. Para a mentalidade Homérica que antecedeu Platão, “termos como logos, dialogismos, dialogos, estavam bastante associados a ‘conversação’, ‘discurso’ e ‘diálogo’ e não [ao sentido de] ‘consideração lógica, puramente racional e abstrata’, [que] mais tarde adquiriram” (id, 36). Mais significativamente, “a origem e o significado do ensino do Logos pode ser entendido quando se retorna ao seu significado original de fala (speech/Rede), do qual originaram-se a filologia lingüística e a gramática.” (Pauly-Wissowa, apud Stahmer, 1968, p. 36).
No período desde Homero e na tradição homérica que persistia ainda em vida de Platão, a cultura grega se mantinha através do poder oral da poesia e da retórica.
3 Eis aí uma explicação para o famoso dilema tradutório no Fausto de Goethe, e uma justificativa
para a solução de tradução que Fausto dá: It is written: In the beginning was the Word / Here I am
stuck at once. Who will help me out? I am unable to grant the word such merit, / I must translate it differently / ... / And write: In the beginning was the Deed!” (v. Rosenwald, in Buber e Rosenzweig, 1994, p. xxxvii).
Diz-nos o Prof. Antonio Medina: “A Ilíada é um milagre nominalista: lá não se acredita que a palavra queira dizer algo mais do que já está dizendo.” (Medina Rodrigues, 2005). Essa “palavra comprimida”, no entanto, é a que consegue compor as mais imortais imagens poéticas. E Stahmer cita Cedric Whitman, que vem na mesma linha:
A mente de Homero é a mente arcaica [...] primordialmente sintética e não analítica, cujos conteúdos são mitos, símbolos e paradigmas. Não é entretanto uma mente primitiva, pois a forma arcaica e pré-conceitual de pensamento tem uma maturidade. [...] Tal mentalidade é uma fonte mais frutífera para a poesia, do que [o é] a mente treinada para a análise lógica e filosófica. [...] A função da poesia é a de comprimir o significado, ao contrário da prosa que nele [significado] se espraia, e a Ilíada parece um poema curto à luz de seu significado. (Whitman, apud Stahmer, 1968, p. 38).
Dá-se então a partir de Parmênides, e com Platão e o Iluminismo grego, a grande mudança. Segundo Stahmer, sempre que alguém inicia um questionamento dos modos tradicionais e multifacetados de discurso, põe-se em campo a “perene propensão da mente humana para divisar uma linguagem e um método únicos, abstratos e artificiais, que expliquem a unidade implícita da realidade.” (id., p. 41).
Com Parmênides surge uma “tradição aparentemente infatigável que acreditava tão firmemente na autonomia do pensamento, que os indivíduos se viram forçados a negar o caráter hierárquico e multiforme da fala (speech)” (id.), fala que está, afinal
de contas, necessariamente imersa na multiforme realidade sensível. Desse modo
a “sabedoria reduz-se ao pensamento de forma tal, que o mito e a lenda, e todo o imagístico vocal e visual a eles associado, tornam-se desprovidos de sentido” (id., pp. 41, 42).
Assim, num trecho que é significativo por constituir-se no primeiro registro que se tem de “logos” usado no sentido de “lógico” ou “dialético”—e não mais no sentido de “diálogo” que correspondia à tradição homérica—, Parmênides apresenta a sua opção pelo pensamento como essência última da realidade, e com isso, pode-se dizer, estabelece o idealismo:
Evitai que o vosso pensamento trilhe por esse caminho [extraviado] de indagação, e não permiti que a força do hábito vos force a lançar por essa senda o olhar errante, o ouvido atento ao som, ou à [própria] língua (tongue); mas julgai [tão somente] pelo argumento (logos), a tão disputada prova que apresentei. (id., p. 42).
A partir daí dá-se o que aqui estamos denominando de rational turn, e o pensamento passa a ter precedência sobre a fala (speech).
Estabelece-se então, contra a “compreensão saudável” segundo Rosenzweig (2000a , p. 111, 123) o que é, no dizer de Stahmer, o “desafortunado cânone da mente ocidental” (Stahmer, p. 42). E com isso a visão de Heráclito, um contemporâneo de Parmênides e seu opositor, fica praticamente restrita aos registros da história da
filosofia. Essa visão pluralista de Heráclito, que foi suplantada por Parmênides (e Platão), descartava a necessidade de um monístico princípio unificador (como o da razão), e reconhecia que a mudança, o fluxo, o confronto, o paradoxo e a contradição eram inerentes à própria realidade do universo.
Para Platão—estamos então já no séc. III a. C.—, Homero e a tradição homérica devem, igualmente, ser ultrapassados, pois “o poeta [por ser um] imitador, cria uma constituição má dentro da alma” (República 605) e o único antídoto para isso é a busca do conhecimento das coisas tal como elas são de fato. “O que é real é objetivo, e existe independentemente da linguagem, exceto pela [linguagem] da Matemática e da Lógica, às quais se permite dispor—segundo Hamann—de um ‘castelo mágico’, que é todo só seu [da Lógica e da Matemática, únicas linguagens aceitas para a leitura da realidade].” (Stahmer, 46).
E assim como faz um ataque à poesia da tradição homérica, Platão ataca também a retórica dos sofistas, um Sprachdenken que considerava que os eventos em que se travavam os confrontos retóricos eram o caminho para a construção do convencimento. Para os sofistas esse convencimento era a “verdade”. Uma verdade, portanto, obtida de forma absolutamente “social”, dialógica, contingente e temporal, bem ao contrário das eternas e absolutas verdades platônicas.
Dessa forma, com Platão, firmou-se o rational turn dado por Parmênides, e que a rigor vige até hoje. Apenas eventualmente ao longo de tantos séculos4, e um
pouco mais consistentemente—talvez—a partir do início do século passado5, se esboçou
um linguistic return.