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3. DETAYLI TASARIM

3.1 Tasarımın Boyutsal Parametreleri

Trago como aporte comparativo para esta tese o Rio de Janeiro, sob a perspectiva de que é possível estabelecer o diálogo entre contextos culturais e musicais singulares, cujas formas de produzir, difundir e experimentar o rock metal ora convergem, ora se opõem com relação aos agenciamentos simbólicos, políticos, afetivos e transcultural mobilizados. Desta forma, as semelhanças e diferenças nos modos de ser, fazer e sentir o metal nos conduzem à reflexão sobre as maneiras de existir de cada um desses contextos; como os indivíduos que neles estão inseridos atribuem sentidos e criam significados para as suas experiências pessoais e musicais; o que os bens dizem a respeito das coisas e das pessoas que as constroem; os posicionamentos desses agentes em relação àqueles que não são afinados com o metal.

Todos esses processos, conforme sugere Ingold (2000), aludem ao crescimento e desenvolvimento do ambiente, terminologia que diz respeito às percepções dos indivíduos do mundo ao seu redor, no caso desta pesquisa, os afinados com o rock metal das cidades de Fortaleza e Rio de Janeiro. Isso porque, da mesma forma que esses sujeitos moldam as formas de habitar em ambas as cidades e esse tipo de música, também são moldados, tornando dinâmicas culturais relativas, incompletas e históricas.

Ao mencionar a cidade do Rio de Janeiro do ponto de vista cultural e musical, certamente a memória traz à tona as imagens do Cristo Redentor, do Pão de Açúcar, do samba e do carnaval. A cidade envolta pelo intelectualismo, o monetarismo, a riqueza ao lado da pobreza, a violência, o relativo anonimato dos indivíduos e a complexidade da vida social, desperta um olhar curioso naqueles que se dispõem a transitar pelas suas ruas, bairros, praças e pontos turísticos. Do tipo que não fixa, mas observa os fixos em fluxos.

Inclui-se, aqui, a região da Lapa que, segundo Requião (2010, p. 208), caracteriza-se pelo “[...] turismo histórico/cultural e o lazer cultural”, personificado sob a forma de “[...] rodas de samba, os artistas de rua, os eventos de artes plásticas, música e teatro e as feiras de artesanato, de antiguidades e regionais”

(REQUIÃO, 2010, p. 208). Portanto, quem se desloca de uma zona para a outra, percebe as diferentes alegorias que esta cidade encena. O carnaval70 é um dos

momentos em que esses diferentes aspectos se tornam mais visíveis, seja pelo luxuoso desfile das escolas de samba na Av. Marquês de Sapucaí ou dos blocos de rua que ocupam, entre outros espaços, a Av. Rio Branco, no centro, colorindo a cidade durante os meses de janeiro e fevereiro.

Em 2013, a relação entre samba e rock se traduziu na avenida por meio do enredo Eu Vou de Mocidade com Samba e Rock In Rio – Por um Mundo Melhor, cujo carnavalesco responsável foi Alexandre Louzada. Os protagonistas

deste desfile foram os integrantes do Grêmio Recreativo Mocidade Independente de Padre Miguel, criado em 10 de novembro de 1955, em um desfile marcado pelas fantasias luxuosas que contavam a trajetória do festival Rock In Rio no Brasil (1985, 1991, 2001, 2011, 2013), em Lisboa (2004, 2006, 2008, 2010 e 2012) e Madrid (2008 e 2010).

Ao longo da travessia na avenida, a Mocidade, como é chamada na cidade e pelos veículos de comunicação, tinha à frente da marcação de bateria a coordenação de mestre André, introduzida pela guitarra de Evandro Mesquita (vocalista da banda de rock oitentista Blitz) e tendo como um dos participantes o baterista Marcelo Ledd, da banda de trash metal Hicsos. O desfile contou com o coro dos espectadores nas arquibancadas, que, unidos aos cantores do samba- enredo, festejavam ao som do “Pandeiro e guitarra, swing perfeito/ Não tem preconceito a nossa união/ Meu baticumbum é diferente/ Não... não existe mais quente”.

Estas informações foram obtidas por meio da transmissão do desfile pela TV e Rádio Globo. Vale ressaltar que um dos carros alegóricos trazia em suas laterais duas réplicas do mascote da banda inglesa Iron Maiden, Eddie, criado pelo artista Derek Riggs. Trata-se de uma caveira encarnada de tamanho enorme, capaz de simular gestos por meio de controle remoto. A referida menção ao símbolo da banda é uma alusão à participação da mesma no festival e da importância que esta

assumiu no universo do metal desde os anos de 197771.

De acordo com a concepção do enredo72, Louzada trouxe para a

Sapucaí a ideia de que “[...] o samba e o rock” são uma “overdose, de união, paz e felicidade” (informação verbal)73, tanto no aceno de cornutos (dedo mindinho e

indicador levantados) mesclados ao bailado do casal de mestre-sala e porta- bandeira quanto nas fantasias de caveiras que cediam espaço para a passagem da ala das baianas de “samba no pé”, guardiãs do conhecimento que aproxima o presente do passado desta cidade, articulando as dimensões do local e do universal através de diferentes linguagens artísticas, especialmente a música.

Sob essa perspectiva, quando entrevistei Marcelo Ledd, 41 anos, baterista da banda Hicsos, produtor musical e participante do desfile, ele me relatou que:

Muita gente que me conhece mais de perto sabe que sou apaixonado pelo carnaval. Minha ligação com o ziriguidum vem do fato de eu ser do subúrbio do Rio, como qualquer carioca tive contato com isso desde criança. Como eu nasci e cresci em Realengo (que fica ao lado de Padre Miguel), óbvio que passei a torcer pela Mocidade. Até entrar para a bateria (que era um sonho meu desde criança, por causa da lenda chamada Mestre André), já fazem [sic] 10 anos que sou ritmista da escola e sempre tem gente que me vê por lá e não consegue entender um cara cabeludo e que curte metal, ali, tocando samba com maior tesão. Assim com todo aquele radicalismo no meio metal que sempre rola o mesmo papo de traidor e blá, blá, blá... Eu nem ligo e assumo isso sem nenhum problema, sou carioca, porra!! (informação verbal)74.

Desta forma, aproximações do rock metal com outros estilos musicais, seja sob a perspectiva dos usos das tecnologias, como os músicos ligados ao forró tinham em Fortaleza ou, no caso acima, por meio das experiências pessoais centradas no território em que se habita e nas experiências que este proporciona e até mesmo na apresentação da escola de samba no Rio de Janeiro, fazem do rock como gênero musical e do metal como um dos seus estilos algo estritamente

71Para mais detalhes, ver: VILELA, Renata. Iron Maiden: a biografia ilustrada. São Paulo: Universo dos Livros, 2012.

72Disponível em: <www.mocidadeindependente.com.br/carnaval-2013>. Acesso em: 05/04/2013.

73Verificar em: <http://liesa.globo.com/2013/por/03-carnaval13/enredos/mocidade/mocidade.htm>. Acessado em 05/04/2013.

nômade. Em que sentido? No sentido sugerido por Deleuze e Guatarri (1997), de que este tipo de música trilha os caminhos já conhecidos, mas sem se deixar sedentarizar ou se fechar em si mesma. Ainda que possuam nos referenciais técnicos e sonoros as suas singularidades, estas funcionam como uma espécie de pontos que figuram os trajetos da música do rock. Mesmo em contato com outros estilos musicais, subordinam-se os pontos a estes caminhos pelos quais o metal transita.

Assim, o rock se insere na paisagem sonora e estética como algo

desterritorializado por excelência, isto porque na medida em que mantém contato

com outras linguagens artísticas, parece não ter referenciais fixos. Ainda segundo os aludidos autores, é exatamente nesses deslocamentos e aproximações que ele “[...] constitui sua relação com a terra [os pontos falados anteriormente], por isso ele se

reterritorializa na própria desterritorialização” (1997), possibilitando a criação de

outros inventos artísticos, bem como sendo por eles constantemente recriado75.

Entretanto, há discordâncias em relação ao assunto. O integrante da banda Farscape e Whipstriker, Victor, 28 anos, geógrafo e produtor de eventos, não vê estas aproximações de gêneros musicais do Rio com o metal. Segundo ele, o

metal “[...] é completamente mundializado” (informação verbal)76; o que faltam são

espaços para eventos, como por exemplo, na Lapa, que deem visibilidade ao rock

metal, assim como os têm o samba e a bossa nova.

Todavia, em meio a esses nomadismos musicais que provocam opiniões divergentes, somam-se as contextualidades que, no caso desta pesquisa, perpassam a “cidade maravilhosa”, possibilitando enredos carnavalescos como o descrito acima. Ao final dos anos 1950, enquanto o rock diversificava-se e industrializava-se, no Rio de Janeiro a música recorrente na cidade era o samba. Este fora trazido por escravos africanos para a primeira capital do Brasil, Salvador e, em seguida, no século XIX, para o Rio de Janeiro. Em 1917, a canção Pelo Telefone, de Ernesto dos Santos e Almeida (conhecido como “Donga”), foi considerada,

75Também a respeito dessas aproximações do metal com outras linguagens artísticas, em 2003 escrevi um trabalho (não publicado) intitulado Roots, Bloody Roots: a Hermenêutica da Iconografia

Indígena Presente na Capa do Disco Roots, de 1996, lançado pela banda brasileira Sepultura.

segundo a Biblioteca Nacional, o primeiro samba. Na verdade, a música é uma produção coletiva daqueles que se reuniam na casa de Hilária Batista de Almeida, a tia Ciata, moradora da Praça Onze, cozinheira e uma das mães de santo baiana, responsável pela difusão do samba no Rio de Janeiro (VIANNA, 2012, p.52)77.

Somente em 1930, na Era Vargas, é que o samba foi nomeado pelo Estado como referência da identidade nacional e da cultura brasileira que até hoje revelou nomes como os de Heitor dos Prazeres, João da Baiana, Pixinguinha, Sinhô, Noel Rosa, Cartola, João Nogueira, Moreira da Silva, Bezerra da Silva, Mestre Jamelão, Neguinho da Beija-Flor etc78. Vianna (2012) afirma que o referido gênero

musical tornou-se símbolo da identidade e da cultura brasileira, como resultado dos contatos entre sambistas, intelectuais e autoridades brasileiras ou estrangeiras. Mais do que isso, o samba como símbolo de uma “brasilidade autêntica” representava, nas palavras do referido autor, um “[...] coroamento de uma tradição secular” (p. 127), criada nos interstícios das relações sociais entre estes diferentes grupos. Este processo, segundo o autor:

[...] era também a vitória de um projeto de nacionalização e modernização da sociedade brasileira. O Brasil saiu do Estado Novo com o elogio (pelo menos em ideologia) da mestiçagem nacional, a Companhia Siderúrgica Nacional, o Conselho Nacional do Petróleo, partidos políticos nacionais, um ritmo nacional. Na música popular, o Brasil tem sido, desde então, o Reino do Samba (VIANNA, 2012, p.127).

Mas a partir da canção Coisas Nossas, de Noel Rosa, cuja estrofe do refrão — “O samba, a prontidão/e outras bossas/são nossas coisas...” — inspirou uma nova forma de cantar samba que surgiu na cidade do Rio de Janeiro, especialmente nos bairros de Copacabana e Ipanema, Zona Sul, denominada bossa nova. O conteúdo das canções remetia às paisagens, aos modos de vida, ao cotidiano do Rio de Janeiro e projetava o país para o mercado musical norte- americano. Tornou-se um dos gêneros musicais mais influentes na Música Popular

77Hermano Vianna, na obra O Mistério do Samba (2012), afirma que o registro da canção como composição de Donga representou “[...] um golpe que rendeu muitas desconfianças e até inimizades entre os sambistas pioneiros” (VIANA, 2012, p.112).

Brasileira (MPB), sendo os principais nomes que integraram este movimento cultural os seguintes: João Gilberto, Vinícius de Moraes, Antônio Carlos Jobim, Ary Barroso e Luiz Bonfá79. As canções Chega de Saudade (João Gilberto), Garota de Ipanema

(Tom e Vinícius) e Aquarela do Brasil (Ary Barroso) são as mais conhecidas deste momento musical.

Nos anos de 1970, foi a vez dos primeiros bailes funk serem realizados no Rio de Janeiro. Ainda que na canção entoada por MC Bob Rum, denominada

Rap do Silva80, declare-se que “O funk não é modismo/É uma necessidade/É pra calar os gemidos que existem nessa cidade”, as informações que se têm são de que

este gênero musical teve suas primeiras festas realizadas inicialmente na Zona Sul, mais precisamente no Canecão (em Botafogo), para, em seguida, aprofundar-se na Zona Norte e na Baixada. De acordo com Vianna (1988), “[...] a festa era organizada pelo discotecário Ademir Lemos, que até então só trabalhava em boates, e pelo animador e locutor de rádio Big Boy, duas figuras consideradas lendárias pelos funkeiros” (p.24).

Porém, nos anos de 1980 o rock já dava indícios de que no Brasil este gênero musical se configuraria inicialmente, sendo cantado em português e cujo conteúdo das letras não se esquivava da crítica ao país e às suas desigualdades sociais. Não se pode falar em rock metal no Rio de Janeiro sem se referir à banda

Dorsal Atlântica e, principalmente, ao seu fundador. O grupo musical surgiu em

1981, tocou com bandas reconhecidas internacionalmente, como Venom e

Motörhead, gravou 07 álbuns (sendo o de 1996 na Inglaterra), bem como tocou no

festival Monsters of Rock, realizado em São Paulo, em 1998. Encerraram as atividades musicais no ano 2000.

Para esta tese, busquei conversar com o líder e mentor da banda, Carlos Lopes da Silva Antônio, o Carlos “Vândalo”, como era conhecido entre os identificados com esse tipo de música. Carlos aceitou responder as perguntas enviadas por e-mail, relatando as suas experimentações com a música de uma

79Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/BossaNova>. Acesso em: 09/04/2011; CASTRO, Ruy. A

onda que se ergueu no mar; novos mergulhos na Bossa Nova. São Paulo: Companhia das Letras,

2001.

forma geral e os desdobramentos que estas possibilitaram em suas vivências cotidianas. Ele se resguardou sempre em relação às conversas sobre rock metal e sobre a banda, recomendando-me apenas a leitura do livro autobiográfico e musical

Guerrilha! A História da Dorsal Atlântica (LOPES, 2009).

Carlos Lopes define-se como jornalista, músico e escritor; é editor da revista eletrônica O Martelo desde 2006 e autor dos blogs Sincronicidade Mágica e História Cantada, projeto musical e educativo. Formado em Comunicação Social na Faculdade da Cidade do Rio de Janeiro, Lopes colaborou com diversos jornais e revistas independentes. Em 2009, seu livro O Segredo J foi promovido na Feira Internacional do Livro em Foz do Iguaçu e o autor palestrou em um evento organizado pela Secretaria de Cultura de São Paulo. Em janeiro de 2011, O Martelo foi mencionada com destaque no livro Almanaque das Redes Sociais Futura, do canal Futura.

Na entrevista, ele conta que se iniciou musicalmente

[...] primeiro com meus pais nos anos [19]60. Sempre lembro do meu pai (início dos anos [19]70) abrindo a porta de casa para receber as visitas para um almoço de domingo com Martinho da Vila tocando na vitrola “Água no feijão, que chegou mais um, chegou mais um...”. Os Beatles entraram em minha vida quando minha madrinha e ex-beatlemaníaca (seu nome de guerra era Regininha MacCartney) deu para mim e meu irmão seus LPs mono dos Beatles na metade dos anos [19]70, talvez entre [19]74/75, não lembro mesmo (informação verbal)81.

Do ponto de vista estético, Carlos deixou o cabelo crescer entre os anos 1970 e 1980. Segundo ele, as experiências pessoais e musicais no rock significavam

[...] ferramenta para me fazer entrar em algum sistema de relacionamento na sociedade. Eu não me sentia parte de grupo algum, então me senti mais importante e digno sendo eu, um artista criativo e libertário. Ninguém poderia ser igual a mim, e eu gostava disso (informação verbal)82.

Desde as primeiras execuções musicais realizadas no colégio, em

81Entrevista concedida por Carlos Lopes em 23/11/2011 via e-mail. 82Idem.

1981, Carlos Lopes relata que “[...] jamais abaixei a cabeça às pressões para que eu não fosse eu, que eu não me orgulhasse de ser eu” (informação verbal)83. Ele

recorda que os primeiros shows de rock que frequentou foram os realizados no Teatro Teresa Raquel, na Rua Siqueira Campos, em Copacabana, no ano de 1978.

Quando comecei a me interessar por rock [...] foi através da imprensa impressa (revistas como Rock a História e a Glória, toda preto e branca), ouvia o programa Caverna Club na rádio AM com apresentação de Big Boy e, no final dos anos [19]70, vi shows como de Robertinho do Recife, Pepeu Gomes, e os que mais gostava eram shows em teatro como o Made in Brazil, Bixo da Seda e meu favorito, Joelho de Porco, isso antes da fundação da Rádio Fluminense (informação verbal)84.

Contudo, entre os anos 1980 e 1990, diz ele, espaços como o Circo Voador (primeiramente montado em Ipanema e depois na Lapa) cederam o palco para apresentações musicais de grupos de rock. Neste período, Carlos já se apresentava com a Dorsal Atlântica. A repercussão da conceituação musical possibilitou que a banda, entre os anos 1986 e 1989, tocasse em vários estados brasileiros e fosse reconhecida no exterior. Vale ressaltar que a revista paulista Rock

Brigade e a Rádio Fluminense FM colaboraram com a divulgação do grupo, bem

como eram meios pelos quais Carlos Lopes atualizava-se com relação ao universo do rock.

O rock significava o Império dos Sentidos (filme japonês liberado pela censura na redemocratização) e a música da liberdade (digo no coletivo porque havia esse sentimento, sim, mas eu não posso usar o meu exemplo como se fosse um desejo coletivo, todas as horas). Hoje, quando escuto

rock, entendo essas questões [...], o que me fez entender as várias facetas

do gênero humano e de sua expressão artística, de suas idiossincrasias (informação verbal)85.

Entre os questionamentos que ouvi dos frequentadores e conhecedores do rock metal no Brasil, tanto em Fortaleza ou no Rio de Janeiro, é

83Idem. 84Idem.

que ao ouvir declarações como a citada acima e, atualmente, saberem das restrições que Carlos Lopes estabelece ao falar sobre o assunto, certamente não compreendem o que de fato ocorreu. Segundo ele, além de desistir de ser jornalista musical por não ver “[...] mais necessidade de escrever sobre música” (informação verbal)86, ele concebe a indústria fonográfica como aquela que se mantém com “[...]

as mesmas verdades e mentiras” (informação verbal)87, embora em mutação. E

mais:

Após várias coincidências, conheci o parapsicólogo Waldo Vieira, em Foz de Iguaçu, no ano de 2009, que me aconselhou a escrever um livro. A questão não era o livro em si, mas que fosse algo diferente, como um depoimento, cujo conteúdo refletisse a mudança que ocorria comigo. O que eu havia dito ou feito há um ou vinte anos, não me dizia mais nada e o livro precisava refletir isso. Intuí que deveria escrever sobre todas as coincidências fascinantes que me conduziram a Foz, e as que me ampararam em bons e maus momentos, símbolos dessa nova vida. Desde o início ficou claro que a palavra coincidência não servia mais para contar essa história. Encontrei a resposta na palavra “sincronicidade” (informação verbal)88.

Entretanto, na primeira quinzena de maio de 2012, Carlos Lopes anunciou, via internet, que a banda Dorsal Atlântica gravaria um novo disco tendo como músicos a primeira formação da mesma89. Desta vez, o financiamento do

disco foi feito pelo site CATARSE.ME,onde o público interessado pode contribuir de acordo com os valores estipulados pela banda. Sendo assim, o prazo para o recebimento dos valores era até 10 de junho do corrente ano e, “[...] caso o valor total não seja arrecadado, o apoiador receberá o dinheiro de volta e não haverá o CD”, segundo informação postada no site. Entre as gratificações, caso o projeto fosse concretizado (como de fato foi), os contribuintes teriam o nome impresso no encarte do CD (conforme o valor doado) e a reedição da biografia do livro

Guerrilha!90.

86Idem. 87Idem. 88Idem.

89Formação inicial da banda Dorsal Atlântica: Carlos Lopes (voz/guitarra), Cláudio Lopes (baixo) e Hardcore (bateria). Disponível em: <http://whiplash.net/materias/news_840/153543-dorsalatlantic a.html>.

Certamente, esta narrativa nos possibilita compreender as intermináveis mudanças que vivenciamos na vida, a ponto de percebermos que escolhas anteriores podem ser substituídas ou, talvez, apontarem para um universo onde encontrar-se com o diferente altera todas as categorias culturais que até então conduziam os modos de ser, pensar e agir. Bourdieu (1986) afirma que não se pode pensar as trajetórias dos indivíduos como algo linear. Necessário é que se pense as narrativas sobre si mesmo a partir dos lapsos, dos obstáculos, dos reveses e das descontinuidades, percebendo os mecanismos sociais que possibilitam que elas sejam contadas de forma contínua, consistente, privilegiando aspectos significativos que ofereçam a quem ouve ou lê uma perspectiva global das experiências de quem a relata.

Mas a quais mecanismos sociais se refere o autor? Segundo ele, a

ideia totalizante e consistente expressa nas narrativas de vida advém do “[...] princípio ativo, irredutível às percepções passivas, da unificação das práticas e das

Benzer Belgeler