Ao caracterizar o empreendimento econômico solidário num contexto marcado pela multiplicidade de iniciativas, isto, contudo, demandou observar um conjunto de pressupostos, fatores e categorias, cujo objetivo seria de traçar um perfil dos empreendimentos econômicos ditos solidários. O primeiro passo foi estabelecer um conceito para o que deveria ser considerado EES. O que ficou compreendido como “a unidade mais simples e concreta da Economia Solidária, [...] organizações coletivas de trabalhadores (as) que exercem a autogestão na realização de atividades econômicas de forma continuada ou permanente” (CULTI et al., 2010, p.10).
Em seguida, caracterizaram-se os pressupostos elencados como balizadores do comportamento dos EES, segundo as diretrizes teórico/conceituais assumidas pelo sistema de informações da economia solidária, levantados pela Secretaria Nacional de Economia olidária em 200711.
a) Autogestão.
Quanto à autogestão, seu significado ficou atrelado à luta dos trabalhadores e ao movimento operário. Esta se constitui num projeto de organização democrática que, por sua vez, operacionaliza-se sob dois eixos: o político, centrado na democracia participativa e na tomada de decisão coletiva; o econômico, centrado na equidade e mutualidade de distribuição de renda e de capital (SINGER, 2000; ALBUQUERQUE, 2003).
A autogestão, sob o enfoque político pautado na democracia participativa, busca uma superação da chamada divisão do trabalho e da eliminação da oposição entre o trabalho
intelectual e trabalho manual, particularmente em relação aos espaços de discussão e tomadas de decisão, tais como as assembleias e reuniões de decisões nos órgãos colegiados, como na prática cotidiana do EES, pela via da transparência de todo o processo de gestão e operação, pela disponibilização de informações relevantes e pelo acesso irrestrito da contabilidade e dos sistemas de controle, para que todos possam participar das decisões (SINGER, 2000; HOLZMANN, 2000, NAKANO, 2000).
Enquanto que, sob o enfoque econômico, é pautada na equidade e mutualidade de distribuição de renda e capital, e tem por compromisso a garantia da propriedade coletiva dos bens de produção, a responsabilidade coletiva pela geração de renda e pela distribuição dos resultados e das perdas, e a remuneração pelo trabalho empreendido pelos seus associados, visando à garantia do bem-estar individual e coletivo (SINGER, 2000; MARTINS, 1996; NASCIMENTO, 2003).
De acordo com Cançado (2007), trata-se de um sistema caracterizado pela participação voluntária de seus membros, a quem cabe de forma igualitária e participativa a tomada de decisão referente tanto aos objetivos a serem alcançados, como aos meios e estratégias para tal. Significa um sistema de organização do trabalho em que não ocorre a submissão hierárquica entre comandantes e comandados.
No sistema de informações na economia solidária, SIES (2007), o modelo de autogestão foi identificado nos empreendimentos econômicos solidários a partir dos seguintes indicadores: participação voluntária dos membros; práticas participativas dos processos de trabalho; direção e coordenação das ações nas diversas instâncias de interesses; e na tomada de decisões estratégicas e cotidianas dos empreendimentos.
b) Cooperação.
O pressuposto da cooperação, segundo Jesus e Tiriba (2009, p. 80), diz respeito ao “ato de cooperar ou operar simultaneamente, colaborar, trabalhar em conjunto. Está associado às ideias de ajuda mútua, de se contribuir para o bem-estar de alguém ou de uma coletividade”, ou seja, aborda uma ação coletiva de indivíduos com a intenção, espontânea ou planejada, de compartilhar o trabalho e/ou uma atividade de produção para a vida social, ou, ainda, pode ser
entendido como um processo coletivo em que pessoas, grupos e/ou instituições operem de forma combinada com a finalidade de alcançar objetivos comuns (JESUS; TIRIBA, 2009).
Ao contrário da competição, em que uns tentam superar os outros na realização do trabalho a fim de se beneficiar em detrimento do outro, a cooperação pressupõe a sinergia do esforço coletivo para o alcance de benefícios comuns. Contudo, os motivos que levam à cooperação tanto podem ser atribuídos a interesses individuais, como podem ser atribuídos a interesses coletivos. Na primeira ideia, os motivos geradores do ato de cooperação podem ter origem nos objetivos pessoais que, por sua vez, para serem alcançados, dependem deste ato ou, também, o ato de cooperação pode estar atrelado às emoções e a valores de solidariedade e democracia econômica, e pela consciência de se estar participando de um projeto coletivo de promoção de bem-estar social do grupo a que pertence (JESUS; TIRIBA, 2009).
Na economia solidária, o trabalho cooperativo agrega um forte componente de afetividade, de cuidado mútuo e de interação humana, num esforço orientado para recuperação, em termos coletivos, de conforto e qualidade de vida (CATTANI, 2003). Neste sentido, os vínculos de colaboração se constroem no cotidiano das relações de trabalho das pessoas, por intermédio de interações construídas por laços de confiança que surgem entre os membros de um grupo, acerca daquilo que é benéfico para cada um, para cada grupo, promovendo gradativamente uma sensibilidade humana mais solidária e mais cooperativa. Em outras palavras, o comportamento cooperativo emerge de relações de apoio mútuo em prol da sobrevivência de cada membro do grupo, pelo esforço coletivo do grupo (CULTI, 2010).
No SIES (2007), a cooperação foi identificada nos empreendimentos econômicos solidários a partir dos seguintes indicadores: existência de interesses e objetivos comuns, propriedade coletiva de bens, união de esforços e capacidades, partilha equitativa de resultados e responsabilidade coletiva e solidária diante das adversidades.
c) Solidariedade.
Em relação ao princípio da Solidariedade, faz-se necessário sublinhar que numa concepção moderna de solidariedade, esta pode ser interpretada sob duas vertentes diametralmente opostas. Pode ser tomada pela ótica filantrópica que remete à visão ética e
cristã, a respeito de ações solidárias, conferindo a estas um caráter altruísta no qual as pessoas, como cidadãos, cumprem com seus deveres de “ajuda ao próximo” de forma voluntária e desprovida de qualquer intenção de reciprocidade. De outro modo, a solidariedade pode ser entendida como “princípio de democratização societária, resultante de ações coletivas baseadas na ajuda mútua e igualdade de direitos entre as pessoas que nela se engajam”(LAVILLE, 2009, p.310). Nesta perspectiva, a solidariedade busca uma aproximação com a democracia política, a partir de uma também democracia econômica e social.
De todo modo, conforme Gaiger (2008), a solidariedade se apresenta como fruto de uma construção social alinhada a experiências históricas que, por sua vez, imputam o sistema de significados e de representação para o sentido do termo solidariedade.
Do ponto de vista do contexto da economia solidária, o significado de solidariedade encontra-se atrelado à ideia de envolvimento e de comprometimento ao mesmo tempo político, econômico e social de seus membros. E, neste sentido, a solidariedade diz respeito à crença na ajuda mútua, na reciprocidade, na igualdade de direitos e no respeito às liberdades individuais e na responsabilidade pelo alcance de objetivos individuais e coletivos (BENINI, 2003).
Desta forma, a solidariedade no âmbito da economia solidária representa um princípio fundamental por representar a sensibilidade e o comprometimento com a dignidade humana, com a melhoria da qualidade de vida de seus participantes, com o meio ambiente e com a comunidade objetivando o bem-estar social. (CULTI et al., 2010).
O SIES (2007) identificou, nos empreendimentos econômicos solidários, o princípio da solidariedade, a partir dos seguintes indicadores: a melhoria das condições de vida dos participantes, a preocupação contínua com a distribuição justa dos resultados, comprometimento com a comunidade e com o meio ambiente de forma sustentável, o comprometimento com os movimentos emancipatórios e com o bem-estar de trabalhadores e consumidores.
d) Viabilidade Econômica.
Os empreendimentos econômicos solidários representam um importante fator de impulsão para o desenvolvimento local e regional do país, uma vez que se articulam
alinhados com o conceito de sustentabilidade e, por isso, esforçam-se para integração dos recursos territoriais, promovem a cultura das comunidades locais e dinamizam a economia local com a geração de renda e a melhoria da qualidade de vida. (Culti et al., 2010).
Contudo, a viabilidade econômica dos empreendimentos econômicos solidários ocorre mediante o financiamento próprio pela via do trabalho coletivo autogestionário, pela cooperação e solidariedade entre seus membros, pela intercooperação entre outros empreendimentos solidários ou não. De modo geral, são EES que mantêm fortes traços da cultural local e talvez por isso atuem comercialmente de maneira mais restrita com relação ao âmbito local. (CULTI et al., 2010).
Quanto ao aspecto relativo à viabilidade econômica, o SIES (2007) identificou o esforço de captação de recursos, de tecnologia e de conhecimento para viabilização de suas iniciativas coletivas de produção, comercialização, crédito e consumo.
Estes pressupostos caracterizam e expressam a essência e a missão dos empreendimentos econômicos solidários (EES) no contexto da economia solidária no Brasil. E, a partir deste passo, foi possível classificar e mapear a natureza desses EES.