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Antes mesmo de sua inauguração (1897) a cidade planejada já contava com duas aglomerações de cafuas - às quais naquela época também foi atribuído o nome favela - Córrego do Leitão (na região do Barro Preto) e a Favella ou Alto da Estação (na região do bairro Santa Tereza), ambas na zona urbana (GUIMARÃES, 1991).

Aos trabalhadores que vieram construir a cidade ou atraídos pelas oportunidades de trabalho, não havia sido destinado lugar para morar. A Comissão Construtora assim como a prefeitura municipal, criada no ano de inauguração da cidade, permitiram a ocupação de áreas para a moradia dos trabalhadores desde que construíssem com materiais provisórios. Se num primeiro momento o poder público permitia a aglomeração de cafuas por não ter outra forma de solução e por dependência daqueles trabalhadores para conclusão das obras da cidade, não demorou a tratar a questão como “caso de polícia”97.

96 Entrevista com o Presidente da URBEL em 27 de janeiro de 2012. 97

Zé Ramalho, cantor e compositor paraibano, compôs uma música sobre a condição do trabalhador da construção civil na cidade que, apesar da data ser posterior ao momento tratado, ilustra o que se passou em Belo Horizonte: “Tá vendo aquele edifício moço/ Ajudei a levantar/ Foi um tempo de aflição [...] Hoje depois dele pronto / Olho prá cima e fico tonto / Mas me vem um cidadão /E me diz desconfiado /Tu tá aí admirado?/ Ou tá querendo roubar? [...]/ Pra aumentar meu tédio eu nem posso olhar pro prédio que eu ajudei a fazer/Tá vendo aquele colégio moço/ Eu também trabalhei lá/ Lá eu quase me arrebento/ Fiz a massa, pus cimento/ Ajudei a rebocar/ Minha filha inocente/ Vem prá mim toda contente/ Pai vou me matricular/ Mas me diz um cidadão/ Criança de pé no chão/ Aqui não pode estudar/ Essa doeu mais forte/ porque é que deixei o norte/ eu me pus a me dizer/ Lá a seca castigava mas o pouco que eu plantava/ Tinha direito a comer/ Tá vendo aquela igreja moço/ Onde o padre diz amém/ Pus o sino e o badalo/ Enchi minha mão de calo/ Lá eu trabalhei também/ Lá foi que valeu a pena/ Tem quermesse, tem novena/ E o padre me deixa entrar”.

Ao longo da primeira década do século XX, foram constantes as remoções de aglomerações de cafuas. A construção de cafuas era “preferida” no centro da cidade, zona urbana, próximo ao trabalho, pois não havia regularidade no sistema de transporte – o bonde – que por contenção de energia elétrica era constantemente paralisado. A ocupação da cidade, que logo nos seus primeiros anos já contava com o processo de especulação imobiliária proporcionada pela forma como a prefeitura distribuiu os lotes, se deu da periferia para o centro, isto é “havia uma zona urbana parcialmente dotada de infra-estrutura e esvaziada enquanto a população das zonas suburbana e rural crescia sem nenhuma infra-estrutura (água, luz, transporte) e cobrava da prefeitura estes serviços”. (GUIMARÃES, 1991).

Nas primeiras décadas de existência da cidade o discurso higienista e a defesa do modelo planejado direcionaram a prefeitura nas ações de expulsão dos trabalhadores pobres residentes em cafuas em áreas invadidas e mesmo em áreas onde obtiveram concessão para construção de residências no núcleo central da cidade, à medida que estas eram valorizadas pelo investimento público.

“A ausência de um lugar definido para alojar o trabalhador encarregado de construir a cidade, aliado a um crescimento populacional acima do esperado e a especulação de terrenos foram os fatores responsáveis pela dinâmica que se estabelece entre Prefeitura e trabalhadores em torno da questão da moradia”.(GUIMARÃES, 1991:163).

A partir de 1930, há a transição da sociedade agrária para a sociedade urbano- industrial (OLIVEIRA, 1981). Para tanto foi necessária a formação de um contingente de mão-de-obra de reserva, vinda do campo. Nesse sentido, houve estímulo para a migração “aumentando o custo do dinheiro emprestado para agricultura, bastando para isso diminuir o custo do dinheiro emprestado para a indústria” (OLIVEIRA, 1981). Verifica-se também, conforme Oliveira, o princípio da “dualidade aparente entre indústria e agricultura, entre setores modernos e atrasados da economia”.

Com ascensão de Getúlio Vargas ao poder, as oligarquias rurais perdem sua hegemonia e emergem as classes sociais urbanas - burguesia industrial e operariado. Alteram-se as “regras do jogo político, aberto à participação das classes médias urbanas e dos trabalhadores” (GUIMARÃES, 1991:167) até que em 1937, com “o golpe de Getúlio e a instauração do Estado Novo, o regime é fechado à participação política e aumenta a interferência do Estado em vários setores da sociedade, inclusive na economia” (GUIMARÃES, 1991:199).

A economia é marcada pelo início da “revolução industrial brasileira que vai se consolidar nos anos 40 após a segunda guerra mundial” (GUIMARÃES, 1991:167) e o “poder público passa a ser instrumento de incentivo à indústria, de acordo com o

binômio nacionalismo e industrialização, e verifica-se a consagração do corporativismo”. (GUIMARÃES, 1991:199). A empresa industrial é adotada como chave do sistema, cujo “automóvel é o arquétipo” (OLIVEIRA, 1981), reorientando a forma da cidade.

Em Belo Horizonte a industrialização impulsionou “uma série de medidas procurando adequá-la às necessidades de uma cidade industrial moderna”. Dentre essas medidas destacam-se a concepção da Pampulha, “expressão do modernismo em Belo Horizonte”, e, pela “primeira vez em Belo Horizonte”, a construção de casas pelo poder público para a classe trabalhadora (o conjunto IAPI, em 1941), “introduzindo-se a concepção de conjunto de apartamentos para as classes populares” (GUIMARÃES, 1991:201-214).

A construção do IAPI é mais um exemplo de expulsão dos pobres do centro da cidade em direção à periferia. O terreno no qual foi implantado o conjunto acabava de ganhar valorização imobiliária decorrente da abertura da Avenida Antônio Carlos, principal eixo viário de acesso para a Pampulha. Três mil pessoas que moravam em cafuas na favela Pedreira Prado Lopes foram removidas e remanejadas para área da antiga fazenda “Mato da Lenha”, atual bairro Salgado Filho, distante do local original e do centro da cidade. A transferência seria temporária até que as obras fossem concluídas, mas esses “trabalhadores-favelados” não chegaram a “por os pés no IAPI”. Os apartamentos foram destinados em 20% para funcionários da prefeitura e 80% para funcionários da indústria que possuíam renda suficiente para pagá-los. (GUIMARÃES, 1991:215-217).

Após 1945 já não existiam favelas na zona urbana devido ao intenso movimento de expulsão dos moradores, mas estas se expandiam em direção à zona suburbana e cidades vizinhas como Contagem e Betim, a oeste de Belo Horizonte, no chamado eixo-industrial.

“O crescimento acelerado da população a partir dos anos 40 é acompanhado do aumento do número de favelas, que passam a ocupar áreas cada vez mais distantes, próximas aos municípios vizinhos [...] O fenômeno coincide com um momento de reabertura política [fim do Estado Novo] e de aumento da participação, com um intenso surgimento de movimentos associativos de defesa de interesses da população favelada – a União de Defesa Coletiva (UDC) e a Federação dos Trabalhadores Favelados de Belo Horizonte (FTC)98. O período entre 1945 e 1964 é caracterizado por uma posição ambígua do poder público em relação às favelas, sendo também grande a movimentação das associações de moradores. De uma parte teve

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Chama atenção o fato de o movimento popular estar organizado a partir de dois eixos, o do trabalho e o da moradia. Atualmente o movimento popular de moradia é desvinculado do trabalho. Duas interpretações podem ser pensadas: A primeira seria a forte mobilização em torno do trabalho proporcionado neste momento pelo sindicalismo; a segunda seria a busca pela afirmação de que os favelados eram trabalhadores, e não “vagabundos”.

continuidade a política de remoção, até mesmo com corte no abastecimento de água e luz nas favelas para minar a resistência dos moradores99. De outra, foi grande o apoio dado pela Prefeitura, através de verbas e assistência técnica, ao fortalecimento das associações de favelas. Ao mesmo tempo, recrudesceu o movimento de invasão de áreas, agora realizado sob o comando da Igreja Católica e dos partidos políticos de esquerda, e que encontrou pouca resistência das autoridades” (GUIMARÃES, 1992:13-14).

Com o golpe militar de 1964, os movimentos populares são reprimidos, seus líderes presos e ressurge a onda de remoções e de tratamento da favela como “caso de polícia”. A existência dos movimentos populares de trabalhadores favelados, com apoio da igreja católica e de partidos políticos de esquerda, demonstrava uma incipiente mudança ocorrida no período anterior a 1964, qual seja, a emergência da voz “daqueles destituídos da fala e anulação da política” (OLIVEIRA, 1999 apud OSTOS, 2004:39). No entanto,

“Com o golpe de 64 e o desaparecimento dos movimentos de bairro as classes populares [tornaram-se] por, no mínimo dez anos, agentes sem voz dentro da estrutura política brasileira e também excluídas do aparelho de Estado” (OSTOS, 2004:38).

Considero que essa “voz” ainda não foi completamente recuperada. Às transformações econômicas que atingiram o país, dentre elas o “desemprego estrutural derivado da reestruturação produtiva”, somam-se profundas transformações políticas que implicaram na desmobilização da sociedade como um todo. Apesar do avanço que as políticas participativas representam no plano do discurso, na prática não possuem a qualidade de uma participação que realmente provoque alterações no sistema excludente que rege o espaço urbano.

Uma situação flagrante refere-se às associações comunitárias cooptadas por grupos político-partidários onde são reproduzidas na escala do morador e seu representante as mesmas práticas clientelistas e coronelistas que marcam a política brasileira (GUIMARÃES, 1992), vistas por Burgos (2005) como estratégias de “controle negociado”. Na favela predomina o silêncio do “controle negociado” imposto não só pelo Estado como pelos grupos de facções criminosas, especialmente os ligados ao tráfico de drogas (BURGOS, 2005)100.

99 O morador de 75 anos da Vila Pindura Saia também falou dos boicotes sofridos, como cortes de água e

luz.

100 Na sociedade em geral, embora os canais de vocalização social sejam maiores (internet, por

exemplo), as mobilizações não têm resultado em alterações “estruturais” dos problemas enfrentados no campo político, econômico e social. Muitos dos movimentos sociais perderam força, como, por exemplo, a desmobilização dos sindicatos (que encontra explicações nas transformações ocorridas nas relações de trabalho), a desmobilização do Movimento Estudantil das Universidades (reduzido à interferência e

Em Belo Horizonte, o Departamento Municipal de Habitação e Bairros Populares criado em 1955 com a “incumbência de recuperação moral e econômica dos habitantes das favelas, por via da eliminação destas e sua substituição por bairros populares e moradias de baixo custo” (GOMES & LIMA, 1999:133 apud OSTOS, 2004:39) mais removeu favelas das áreas valorizadas do que construiu novas habitações. Esse Departamento foi substituído em setembro de 1971 pela criação da Companhia de Habitação de Interesse Social - CHISBEL. Criada nos moldes da CHISAM no Rio de Janeiro possuiu a função de planejar e executar a erradicação de favelas no município. Sua ação, portanto, pautou-se mais na execução dos desfavelamentos e nem tanto no planejamento, demonstrando a submissão da CHISBEL a outros setores de planejamento e decisão da Prefeitura101.

O trabalho “social” que acompanhava os desfavelamentos da CHISBEL consistia, inclusive, na tentativa de convencimento dos moradores da favela sobre o lado positivo da “mudança de status de morador da favela” para “morador da casa própria”, incentivando a compra de lotes (onde eles deveriam construir novamente). Com indenizações insuficientes para aquisição de lotes próximos aos locais de origem, mais uma vez as classes populares são expulsas do centro em direção à periferia da cidade e da região metropolitana.

As remoções significaram e significam a violência simbólica (quando não física) praticada contra as classes populares, destinando-lhes a posição da “desonra social” (RIBEIRO, 2008). Além disso, como disse Morador do Cruzeiro, 67anos, sobre o desfavelamento da Pindura Saia em 1971, “as pessoas ficaram desmanteladas”; “não sabiam o que fazer; o Congado acabou, ficou muito pouquinha gente”. Embora na atuação da CHISBEL houvesse um discurso de “benefício social” – a partir da “mudança de status de favelado” para proprietário de lote na periferia distante e desprovida de serviços públicos - o impacto dos desfavelamentos sempre foi negativo102:

corrupção deslegitimaram o movimento, casando-se perfeitamente com interesses de grupos contrários); e a desmobilização da esquerda brasileira (através de alianças partidárias antes impensáveis).

101 Luciana Ostos (2004) verifica semelhante submissão do órgão da prefeitura criado em 1986 para

implementação de políticas públicas em favelas de Belo Horizonte, a URBEL, cuja atuação tem se pautado na “operacionalização das decisões que removem vilas e favelas” definidas por outras esferas da administração municipal, faltando-lhe autonomia para o planejamento e “para pensar fora [ou além] dos limites do pensado” (OSTOS, 2004. p.172)

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Atualmente, sob um véu de democracia, o discurso se repete e a prática também. O discurso de “melhoria da qualidade de vida de milhares de belorizontinos [favelados]” vela a prática do que Lopes (2010) denominou “desfavelamento de novo tipo”. As remoções continuam acontecendo, os favelados continuam sem voz e sem direitos, mas o discurso “participativo” da política consegue encobrir os fatos diante do senso comum.

“Pesquisas mostraram o impacto da remoção na desestruturação das condições de vida da população afetada, com queda da renda familiar por aumento do gasto com transportes e com habitação, e com elevação dos níveis de desemprego dada a distância entre os locais de moradia e de trabalho (CARDOSO, 2007 apud VALLADARES, 1980). Além disso, destaca- se a desestruturação dos laços de sociabilidade e vizinhança que permitiam melhores condições de reprodução social das famílias faveladas” (CARDOSO, 2007).

A CHISBEL como executora da política de erradicação de favelas em Belo Horizonte coincidiu, na década de 70 e início de 80, com o “Milagre Brasileiro”, caracterizado pelo crescimento da economia e agravamento das desigualdades sociais urbanas.

Do ponto de vista do “Milagre Brasileiro” o crescimento urbano não foi nada “caótico”, posto que serviu à lógica da necessidade de acumulação. Francisco de Oliveira (1981) em sua “crítica à razão dualista” refuta a existência de setores “atrasado” e “moderno” da economia, afirmando que o subdesenvolvimento dos países periféricos é necessário à acumulação capitalista dos países centrais.

Na cidade, “sede da economia industrial e de serviços, por definição” (OLIVEIRA, 1981), o espaço físico manifesta a relação social econômica estabelecida onde a necessidade central de acumulação fomenta o – e se nutre do - subdesenvolvimento periférico.

“Então qual o sentido desta inclusão se a favela nunca esteve fora da produção capitalista do espaço, que não existiria sem ela? Trata-se da favela não como um modo de vida singular, tampouco enclave ou degenerescência do organismo urbano, à parte dele, e sim de uma relação entre idêntico e não-idêntico, onde ambos não existem por si mesmos, mas através da mútua relação, em que um participa do outro, um não é mais verdadeiro que outro” (TIBURI, 1995:82 apud SILVA, 2011).

A exploração da força de trabalho constituiu peça fundamental ao processo de industrialização iniciado sem uma acumulação prévia (OLIVEIRA, 1981). Decorrência disto foi o rebaixamento do salário ao mínimo gasto com alimentação (e o rebaixamento do preço da alimentação através da desvalorização do trabalho no campo); e a autoconstrução da casa pelo trabalhador, significando “supertrabalho” não remunerado (já que realizado em dias de folga), transferindo à classe trabalhadora o custo da casa - componente essencial para reprodução da força de trabalho (OLIVEIRA, 1981).

“Assim, uma operação que é, na aparência, uma sobrevivência de práticas de ‘economia natural’ dentro das cidades, casa-se admiravelmente bem com um processo de expansão capitalista, que tem suas bases e seu dinamismo na intensa exploração da força de trabalho” (OLIVEIRA, 1981, p. 35-36).

A “explosão demográfica” na década de 70 associada à exploração da força de trabalho relacionam-se diretamente com a ampliação do número de favelas, o que provocou reorientação na atuação da CHISBEL, “desfavelar somente para urbanizar”, conforme explicita Ostos (2004: 45) segundo Relatório de Atividades da CHISBEL de 1982. Ostos chama atenção para a utilização do termo “urbanizar” neste contexto, significando “a liberação da área para execução da obra programada” e em nada contribuindo para o espaço da favela em termos de infraestrutura, pelo contrário, “urbanizar” era o mesmo que “varrer, limpar” a favela.

A atuação da CHISBEL no processo de desfavelamento, contraditoriamente ao que se propunha – erradicação de favelas – provocou o surgimento de mais favelas na periferia da cidade, consolidando a segregação socioespacial metropolitana. A parceria estabelecida entre CHISBEL, COHAB e BNH foi insuficiente para realizar os desfavelamentos e para conter o surgimento de novas favelas. A COHAB não produziu quantidade suficiente de moradias e o BNH acabou por não atingir a menor faixa de renda, não restando outra opção para essas populações que não as favelas e os loteamentos periféricos. A Lei Federal de parcelamento do solo 6.766/ 1979 ao estabelecer padrões mínimos para dimensão de lotes e padrões mínimos para a urbanização dos novos loteamentos fez com que grande parte da produção destes loteamentos periféricos fosse também clandestina.

É importante observar o papel de Belo Horizonte e de sua política urbana segregacionista nos problemas provocados nas cidades vizinhas. As cidades principalmente a oeste e norte103 de Belo Horizonte possuem pesados ônus derivados

do que ocorria da capital, em decorrência do aumento da população e das demandas urbanas, como infraestrutura, equipamentos de saúde e educação.

Os relatórios de atividades da CHISBEL104 registram o desfavelamento da

Pindura Saia ainda no ano de 1971, indicando que foi uma das primeiras remoções realizadas. O vetor sul da cidade se consolidou como vetor de expansão do mercado imobiliário voltado para alta renda. A Avenida Afonso Pena, concebida como avenida mais importante no Plano original da cidade pelo Engenheiro Aarão Reis, foi prolongada com a mesma configuração distinta da área nobre da zona urbana105. O

103 A Oeste, principalmente Contagem e Betim, no eixo industrial. A norte, principalmente Santa Luzia,

Vespasiano, devido à implantação de grandes conjuntos habitacionais pela COHAB, e Ribeirão das Neves, em parte devido à implantação dos presídios, o que desvalorizou os imóveis da cidade, tornando- a principal área de atração da população homogeneamente pobre, “território da reprodução da pobreza” (ANDRADE; MENDONÇA, 2010:169).

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BELO HORIZONTE, 1975.

105 Luiz Gustavo Pataro, aluno do 4º período do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade

prolongamento da Avenida Afonso Pena valorizou os terrenos à sua volta e proporcionou a circulação de automóveis produzidos pela então bem sucedida indústria automobilística nacional, no período conhecido como “milagre econômico brasileiro”

Mas o “milagre” não foi para todos e começou a dar sinais da sua artificialidade. No final da década de 70 e início de 80, momento da “abertura política brasileira”, ocorreram mudanças no panorama econômico e político.

O contexto econômico que enfraqueceu o regime militar esteve diretamente relacionado à economia mundial, em especial dos países centrais. Enquanto a base industrial brasileira era totalmente apoiada no modelo da indústria fordista, no caso, “fordismo periférico” (LIPIETZ, 1988), os países centrais diante da “crise do capitalismo” desenvolviam o “pós-fordismo” (HARVEY, 1989), caracterizado por estruturas produtivas mais flexíveis. Nas palavras de Marlene Guimarães:

“No Brasil, a crise econômica vai se acentuar no início da década de 80, quando a economia se torna cada vez mais internacionalizada e a sua dinâmica interna cada vez mais limitada pela exclusão e concentração de renda perdendo o fôlego de crescimento, mergulhando numa profunda recessão [...] Nesse período, embora o padrão de acumulação e o modelo econômico conservador adotado permanecesse o mesmo, já era possível presenciar algumas mutações organizacionais e tecnológicas no interior do processo produtivo e de serviços”. (GUIMARÃES, 2002)

O “fim da repressão” política possibilitou a ascensão dos movimentos sociais, tais como o movimento pelas Diretas Já! e movimentos populares apoiados pela Igreja Católica que reivindicavam melhores condições de moradia, configurando a aparição dos “novos personagens” na cena política brasileira. Este conjunto de transformações políticas e econômicas propiciou, em Belo Horizonte, a implantação do PRODECOM - Programa de Desenvolvimento de Comunidades - coordenado pela Secretaria de Estado de Planejamento e Coordenação Geral do Governo do Estado de Minas Gerais (OSTOS, 2004:57). De acordo com Berenice Guimarães (1992), o PRODECOM:

“[...]representou um marco na política de favelas, quando pela primeira vez se desenvolveu um programa de urbanização da área com a participação da população local não só na fase de planejamento para escolha do que iria ser feito mas, também, diretamente, pela escolha do trabalho de mutirão, na realização das obras. Em três anos de atividade o PRODECOM atuou em 11

Lynch, assim analisa a imagem da Avenida Afonso Pena: A imagem da cidade realmente provoca percepções fortes nos moradores. E essa imagem é formada pelas características físicas, pela forma. Por exemplo, em Belo Horizonte, a Avenida Afonso Penna, que é uma importante via para a cidade. Os moradores possuem uma imagem formada dela, já que é diferenciada das demais vias, por ser uma via mais larga e possuir arborização. Existem também diversos símbolos arquitetônicos que se encontram

Benzer Belgeler