Fonte: Mapa elaborado pela autora a partir de levantamento de campo e com base nas imagens geradas pelo software AppleMaps.
Os fluxos diários dos moradores pelas ruas do bairro são motivados principalmente pelas relações comerciais e de serviços mantidas pelas demandas da vida cotidiana. Neste contexto, quando questionados sobre os espaços que frequentam todos os dias destacaram equipamentos como padaria, farmácia, supermercado ou mercados de pequeno porte. Alguns moradores frequentam diariamente templos religiosos presentes no entorno.
Farmácia, supermercado... E a Igreja do Carmo! (Entrevistada J1, moradora do Edifício Jalcy Avenida, 44 anos)
O bairro é marcado pela irregularidade de usos do espaço público, condicionados pelo horário de funcionamento do núcleo central. A partir disso, alguns espaços passam a não ser frequentados pelos moradores do edifício. A maioria foi enfática ao declarar que não frequentam os bares situados no entorno. No entanto, estes estabelecimentos são os únicos que estendem o horário de funcionamento até às 20:00 horas, em avenidas como a Duque de Caxias e a Dom Manuel.
Eu não frequento bares. A noite e de dia. Um lugar que não frequento no bairro. E raridade eu vou nas pracinhas. (Entrevistada J6, moradora do Edifício Jalcy Avenida, 64 anos)
Em relação ao uso das praças e parques, os discursos dos moradores reforçam que estes lugares constituem espaços de passagem, tanto para moradores como para pessoas que trabalham ou visitam o bairro, com exceção de eventos públicos especiais. Os moradores destacaram que não frequentam as praças do bairro como espaços de permanência por questões de segurança. No entanto, relataram que seu lugar preferido no Centro é a Praça do Ferreira, que frequentam semanalmente, seja como lugar de permanência ou como parte de percursos feitos pelo bairro.
Eu, quando consigo sair do meu trabalho, dá vontade, eu passo, eu passeio. Porque eu acho lindo e maravilhoso. (Entrevistada J9, moradora do Edifício Jalcy Avenida, 59 anos)
A vivência dos espaços públicos é afetada pela insegurança no bairro. Os moradores enfatizam que é perigoso caminhar pelo Centro tanto durante a noite, após o encerramento das atividades do comércio, como pela manhã antes do início do expediente, diante do reduzido número de pessoas circulando pelas ruas do bairro.
Tanto o deslocamento como o lazer, anda junto com o horário do comércio. Enquanto tem comércio aberto, tem fluxo de pessoas. (Entrevistado J4, morador do Edifício Jalcy Avenida, 27 anos)
Nós ficamos confinados a partir das dezessete e trinta. Todos nós do prédio. (...) Aqui nós conhecemos os pontos perigosos e a hora. (Entrevistada J6, moradora do Edifício Jalcy Avenida, 64 anos)
Em levantamentos de campo, realizados ao longo do desenvolvimento deste estudo, foi possível observar que os templos religiosos são equipamentos que atraem novos fluxos para o bairro aos sábados e domingos. Os moradores do edifício relataram que preferem se organizar em grupos para se deslocar para os cultos que frequentam semanalmente por questão de segurança. Os templos religiosos citados durante a entrevista foram a Igreja de São Bernardo (Imagem 6.1) e a Assembleia de Deus.
Imagem 6.1 – Igreja de São Bernardo, localizada no encontro entre a Rua Senador Pompeu e Rua Pedro Pereira.
Fonte: Registro fotográfico feito pela autora em julho de 2015.
Os moradores foram questionados sobre as melhorias necessárias ao bairro e destacaram como questões prioritárias a segurança, a limpeza do espaço público e a padronização das calçadas.
Um cadeirante não pode andar nas calçadas no Centro, porque ou anda no meio da rua junto com carros, dividindo o trânsito com os carros, os cadeirantes, porque nas calçadas não têm condições. (Entrevistado J3, morador do Edifício Jalcy Avenida, 66 anos)
Os moradores mencionaram o problema do lixo urbano produzido diariamente, ressaltando que afetam a conservação do espaço público e a drenagem das vias do bairro. Segundo os moradores, as ruas Solon Pinheiro, General Sampaio e Senador Pompeu são afetadas em períodos de chuva, onde os alagamentos impedem o fluxo de pessoas. Sobre a questão do lixo no bairro, uma das moradora destaca:
O pessoal que vem de longe não tem aquele cuidado. (Entrevistada J1, moradora do Edifício Jalcy Avenida, 44 anos)
Os moradores mencionam a questão da irregularidade dos usos dos espaços públicos ao longo dos horários do dia, vinculado ao funcionamento do núcleo comercial do bairro. No entanto, não parecem perceber uma conexão entre este contexto e a configuração das ocupações residenciais. A questão da segurança é abordada sob o ponto de vista do policiamento do bairro e não a partir das relações entre os edifícios, os usos do entorno e o espaço público.
6.1.2 Os moradores do Edifício Palácio Coronado
O discurso dos moradores do edifício Palácio Coronado revela que as relações espaciais com o entorno imediato e seus equipamentos são cotidianas e definidoras dos principais fluxos, que são realizados principalmente através de caminhadas.
As coisas aqui próximo é tudo a pé. As coisas aqui ao redor é tudo a pé. (Entrevistada C2, moradora do Edifício Palácio Coronado, 49 anos)
Os principais pontos frequentados pelos moradores, mencionados nas entrevistas, não fazem parte do entorno próximo ao edifício, conforme pode ser observado no Mapa 6.2. A utilização dos parques e praças próximas ao edifício é inexistente ou eventual, assim como o espaço público de outras áreas do bairro. O motivo abordado pelos moradores é a questão da insegurança. Ao mencionar o Parque Pajeú, uma moradora destaca:
Ali, do CDL. Hoje a gente tem medo, porque tem muito mendigo. Aí, se limpasse mais, se fosse mais protegido, né? Era melhor da gente frequentar, porque é muito bonito ali. (Entrevistada C2, moradora do Edifício Palácio Coronado, 49 anos)
Quando questionadas sobre seu lugar favorito no Centro, as moradoras indicaram como principais referenciais a Praça do Ferreira e o Parque Cidade da Criança.
A Praça do Ferreira. O Parque da Criança, é muito bonito mas não dá gosto a gente ir. (Entrevistada C2, moradora do Edifício Palácio Coronado, 49 anos)
A questão da segurança no entorno do edifício parece não ser tão preocupante para os moradores mais antigos, que declararam que o problema se estende a toda a cidade. No entanto, a moradora mais jovem entrevistada, residente no edifício há um ano, demonstrou ser mais preocupada com a questão da segurança no entorno, em especial em pontos de ônibus.
Sinceramente, eu não acho aqui tão perigoso não. É perigoso, é! Mas por ser no Centro, aqui ainda é muito calmo, esse nosso pedaço. (Entrevistada C2, moradora do Edifício Palácio Coronado, 49 anos)