Ara yüzeyde oluşan bağlar
4. TARTIŞMA VE SONUÇLAR
As políticas de ação afirmativa são, antes de tudo, políticas sociais compensatórias, ou seja, são intervenções do Estado a partir de demandas da sociedade civil para garantir o cumprimento de direitos sociais não assegurados ou parcialmente acessíveis à população. Estas se caracterizam por remediar os resultados de políticas preventivas ineficientes e a permanência de mecanismos sociais de exclusão. Outra característica é a sua vigência com uma duração definida, pois podem deixar de existir desde que desapareçam os
94 O uso recente da expressão ação afirmativa é resultado da influência estadunidense no debate das ações afirmativas direcionadas para a população negra. Apesar de o governo Franklin Roosevelt, no ano de 1941, e o governo Lyndon Johnson, em 1964, terem criado mecanismos legais para impedir a discriminação racial a negros na seleção e recrutamento para o serviço público, a expressão passou a ser um designativo de referência a ações voltadas para igualdade de oportunidades, com a pressão do movimento dos direitos civis dos negros (SANTOS, 2012).
mecanismos de exclusão social que lhes deram origem. De acordo com Gomes (2006, p. 40), elas podem ser definidas como:
Um conjunto de políticas públicas e privadas de caráter compulsório, facultativo ou voluntário, concebidas com vistas ao combate à discriminação racial, de gênero, por deficiência física e de origem nacional, bem como para corrigir ou mitigar os efeitos presentes da discriminação praticada no passado, tendo por objetivo a concretização do ideal de efetiva igualdade de acesso a bens fundamentais como a educação e o emprego.Trata-se de políticas e de mecanismos de inclusão concebidos por entidades públicas, privadas e por órgãos dotados de competência jurisdicional, com vistas à concretização de um objetivo constitucional universalmente reconhecido — o da efetiva igualdade de oportunidades a que todos os seres humanos têm direito.
Em síntese, as políticas de ação afirmativa são um importante mecanismo social ético e pedagógico de respeito à diversidade, seja ela racial, cultural, de classe, de gênero ou de orientação sexual etc. O reconhecimento do direito à diferença ressalta a necessidade imperiosa de atender à especificidade dos grupos ou indivíduos vulneráveis não contemplados pelas políticas denominadas universalistas, que perpetuam a desigualdade de direitos e oportunidades (SANTOS, 2013).
No Brasil, alguns autores consideram que a primeira experiência com ação afirmativa através de cotas em universidades se deu ainda na década de 1960. Trata-se da Lei nº 5645/1968, mais conhecida como “lei do boi”, que reservava 50% das vagas em cursos superiores de Agronomia e Veterinária para filhos de agricultores residentes em zona rural que, sem acesso às melhores escolas, não tinham condições de entrar na universidade. Anos mais tarde, avaliou-se que essa política beneficiou os filhos de fazendeiros sem problemas financeiros que residiam na capital e cursavam boas escolas, e por isso não precisavam ter o acesso a cursos superiores facilitado. Essa legislação foi revogada em 1985.
A literatura mais recente sobre políticas de ação afirmativas na educação superior se debruçou com mais frequência em análises sobre a política de cotas para negros na universidade. No entanto, vale ressaltar que não se deve usar ação afirmativa como sinônimo de política de cotas. Esta é um recorte, uma das formas de implementação, dentre tantas outras, como por exemplo o Prouni, que reserva vagas em instituições privadas para estudantes de “baixa renda”.
De acordo com Valetim (2006), foi no governo Lula da Silva que as primeiras políticas de ação afirmativas95 direcionadas para a população afrodescendente e indígenas
95 O movimento nacional para a implementação de ações afirmativas solidificou-se depois da participação do Brasil na 3ª Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, ocorrida em 2001, na África do Sul. Após assinar a Declaração de Durban, o Brasil se
foram implantadas. Como exemplo, temos a) a criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SEPPIR); b) no ensino superior, a promulgação da Lei nº 10.558, de 13 de novembro de 2002, que criou o Programa Diversidade na Universidade, no âmbito do Ministério da Educação, com a finalidade de implementar e avaliar estratégias para a promoção do acesso ao ensino superior de pessoas pertencentes a grupos socialmente desfavorecidos, especialmente dos afrodescendentes e dos indígenas brasileiros; e c) no âmbito das ações pedagógicas, as Leis nº 10.639/2003 e nº 11.465/2008, que estabelecem a obrigatoriedade do ensino da cultura afro-brasileira e da cultura indígena nos estabelecimentos de ensino público e privado. Merece destaque também a Lei nº 12.288/10, conhecida como Estatuto da Igualdade Racial, que buscou garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica. Consoante esse estatuto, ações afirmativas são “os programas e medidas especiais adotados pelo Estado e pela iniciativa privada para a correção das desigualdades raciais e para a promoção da igualdade de oportunidades” (BRASIL, 2010).
Segundo Feres Júnior (2006, p. 46), há três argumentos básicos de justificação de políticas públicas de ação afirmativa: reparação, justiça distributiva e diversidade. No Brasil, para este autor, os argumentos que mais têm destaque são os da reparação e o da diversidade.
A reparação está relacionada a um argumento de grande apelo moral que justifica medidas compensatórias para descendentes de africanos, como para indígenas e seus descendentes, que historicamente tem sofrido com a discriminação racial no país. São os grupos humanos nomeados explicitamente na Constituição Federal de 1988. O argumento da diversidade apresenta duas concepções, uma essencialista, que assume a existência da correlação entre cultura e raça e tem preferência pelo termo “etnia” e a programática, pensada por meio do conceito de modos de vida que nas sociedades complexas são muito distintos (ribeirinhos, caboclos, sem-terra, favelados). O argumento pragmático da diversidade parece correto para uma sociedade complexa como a brasileira quando aponta a busca de soluções que beneficiam as pessoas a partir de sua própria experiência de vida.
O movimento de reservas de vagas96 para grupos específicos no ensino superior, foi paulatinamente sendo adotado no âmbito de cada IES, sendo ora decisão do conselho da instituição, ora normatizado por alguma legislação estadual, até a aprovação de uma lei federal que obrigou as IFES a adotarem progressivamente a política até o percentual de 50%
comprometeu a implantar políticas específicas para grupos que têm sido historicamente discriminados. 96 Um marco fundamental para as políticas de cotas foi a aprovação da Lei 12.711/2012, que dispõe sobre um
programa crescente de cotas em todas as universidades e institutos federais até atingir, em 2016, o patamar de 50% das vagas de todos os cursos dedicadas a cotas e uniformiza os critérios para sua distribuição.
das vagas de cada curso. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)97 foi a primeira grande universidade pública a vivenciar a experiência de ter em seus quadros alunos beneficiados por duas ações afirmativas, uma de caráter social, destinada aos alunos provenientes das escolas públicas, e outra de caráter racial, voltada aos alunos afrodescendentes, ambas instituídas pelas leis estaduais (VALETIM, 2006).
No âmbito das universidades federais, a Universidade de Brasília (UNB), em 2004, foi a primeira a implantar o sistema de cotas. Reservou 20% das vagas de cada curso para os autodeclarados pretos ou pardos, independentemente do perfil socioeconômico, além de um pequeno número de vagas para indígenas de todos os estados brasileiros, variando de acordo com as necessidades das comunidades indígenas envolvidas no processo e com a disponibilidade de vagas na universidade.
De acordo com a lei de cotas aprovada em 2012, um percentual de 50% das vagas de cada curso e turno oferecidas nas instituições federais de ensino devem ser reservadas a estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas da rede pública de ensino. Logo, não é permitido a estudantes que tenham cursado partes do ensino médio em escolas particulares, candidatar-se como cotista, a não ser que tenham cursado com bolsa de estudos integral.
No preenchimento das vagas de estudante de escola pública, metade deverá ser reservada a estudantes oriundos de famílias com renda igual ou inferior a 1,5 salários mínimos) per capita. Das vagas reservadas, ainda é incluso proporcionalidade para grupos étnico-raciais autodeclarados negros, pardos índios e pessoas com deficiência98, no mínimo igual à proporção identificada pelo último Censo Demográfico divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na unidade da federação em que estão situados. Quanto à outra metade, ou seja, os outros 50% (cinquenta por cento) das vagas de cada curso e turno das universidades serão disputadas por qualquer estudante que tenha concluído o ensino médio (BRASIL, 2012).
Uma pesquisa realizada pela ANDIFES, no ano de 2011, sobre o perfil socioeconômico e cultural dos estudantes de graduação das universidades federais brasileiras, mostrou que 45% dos estudantes matriculados nessas instituições são oriundos exclusivamente da rede pública de ensino. Os maiores percentuais são verificados nas regiões
97 Referimo-nos à Lei estadual nº 3.524/2000, que determinou a introdução de cotas para estudantes de escolas públicas e para negros na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
98 Esse segmento foi incluído na reserva de vagas para processos seletivos das IFES através da Lei nº 13.409/2016.
Norte (71,5%) e Sul (50,6 %), enquanto a região Sudeste registra os menores (37,0%). Na região Nordeste, o percentual registrado naquele ano foi de 41,35% (ANDIFES, 2011).
Constata-se, portanto, que o perfil do estudante que opta por cursar o ensino superior em universidades federais vem apresentando significativas mudanças com a crescente aprovação dos estudantes egressos da rede pública, ainda que muitas distorções sejam observadas, como a relação da distribuição desses estudantes no interior das universidades, que muitas vezes optam por os cursos menos concorridos e pouco visados pelos estudantes de escola particular.
No caso da Universidade Federal do Ceará (UFC), a implantação do sistema de cotas se deu com a aprovação da Lei de Cotas. Na época, o reitor, em entrevista para o jornal do Sindicato dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará (ADUFC), disse que se tratava de uma “imposição” e uma afronta à autonomia da universidade, todavia “é Lei e vamos cumprir” (AGUIAR, 2012). Nessa instituição, o sistema de reserva de vagas começou com o percentual mínimo estabelecido em lei de 12,5%. De acordo com o reitor, a decisão por essa cota se pautou por uma questão de “prudência, responsabilidade e de compromisso social”, e reconheceu que em muitos cursos, inclusive os de licenciatura, não haveria impacto, já que nesses cursos 80% dos estudantes já são egressos de escolas públicas. Conforme Resolução nº 18 do Conselho Universitário (CONSUNI), de 30 de outubro de 2012, que instituiu as cotas na UFC, para a seleção de 2014 foi estabelecido o percentual de 50% da reserva das vagas para estudantes que tivessem cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas, além de, dentro dessa porcentagem, uma fração para quem tivesse renda familiar bruta igual ou inferior a um inteiro e cinco décimos salário mínimo per capita (BRASIL, 2012).
Nascimento (2016) realizou uma pesquisa sobre o perfil social de estudantes cotista e não cotistas dos cursos de Pedagogia, Psicologia, Arquitetura, Direito, Engenharia Civil e Medicina da UFC. Embora a amostra da pesquisa traga algumas limitações, tendo em vista o alcance a um pequeno número de estudantes e cursos, o que mais se destacou como diferença entre os grupos foi o critério de renda. A maioria dos cotistas era proveniente de famílias com ganhos de três a seis salários mínimos, enquanto que as famílias dos não cotistas tinham rendimentos acima de doze salários mínimos. No caso do curso de Medicina, esses rendimentos eram acima de quinze salários mínimos.
No caso do IFCE, a política de cotas foi imediatamente adotada em seu percentual máximo, passando a vigorar para a entrada de estudantes no segundo semestre de 2013. Em relação aos perfis de renda, encontramos nessa instituição níveis muito parecidos. De acordo
com a ferramenta de pesquisa IFCE em Números99, 78% dos estudantes são provenientes de famílias com renda bruta de até quatro salário mínimos. No que se refere ao percentual de negro, tem-se, a partir de autodeclaração 32% e 8% de indígenas.
A implantação da política de cotas através dos processos seletivos das IFES tem transformado essas instituições, paulatinamente, em um espaço inteiramente mais plural. A modificação no perfil socioeconômico e cultural dos estudantes nos cursos mais elitizados é, de certo modo, o efeito imediato da política de cotas. Fato inquestionável é que durante muito tempo os estudantes que ingressavam nas universidades federais pertenciam a famílias de classe média e alta que podiam pagar por uma educação superior. Enquanto isso, inúmeros estudantes que acabavam de concluir a educação básica em escolas públicas ficavam sem estudar porque não tinham condições de pagar por um ensino particular de qualidade e também não conseguiam ingressar na universidade pública.
Ao mesmo tempo em as políticas de cotas sociais e étnicos raciais permitiram o ingresso de grupos que sempre se encontraram em menor proporção no ensino superior, e por conseguinte, uma ampliação das oportunidades a esse nível de ensino, trouxe, também, inúmeros desafios paras as instituições e para seu corpo de servidores.