Na primeira fase do Proálcool – 1975 a 1979 - o esforço foi dirigido à produção de álcool anidro para a mistura com gasolina. Embora o decreto de criação do Programa não tenha definido nenhum percentual de mistura, o CTA realizou testes com a mistura de 20% de álcool que poderia ser acrescido à gasolina sem qualquer modificação nos motores usados na época.183
No entanto, vários problemas resultaram desta mistura como: dificuldades na partida a frio, aumento de consumo e perda de desempenho, além da corrosão nos componentes dos primeiros veículos movidos somente a álcool em 1980. 184
As discussões em torno do etanol combustível nesta primeira fase giraram em torno do rendimento global e térmico do motor a álcool, uma vez que as características do etanol são a alta octanagem185 e o alto calor latente
de vaporização.
Em 1976, o CTA com seu motor Ford fase de transformação para funcionar exclusivamente a álcool. A questão colocada então pelo Prof. Stumpf, coordenador do projeto e favorável ao uso do álcool como combustível, era a sua viabilização de uso com um mínimo de consumo:
181 Anciães, Avaliação do Álcool, 264.
182 A partir de 1950 a tendência da indústria de bens de capital do setor sucroalcooleiro foi a de
busca por tecnologia estrangeira, através de licenciamento. Por volta de 1970, esta tendência foi revertida quando o governo federal optou pela não renovação automática dos contratos de importação e tecnologia.
183 E. U. Stumpf, “Painel Equipamentos e Motores na Promoção e Uso do Etanol,” 388.
184 C. Carsughi, Revista 4 Rodas: “Teste: um Fusca com Álcool na Gasolina”, ano XVI, n° 185,
122-126 e “A Belina com 20% de Álcool”, ano XVI, n° 186, 44-47, citado em Sérgio Figueiredo. “O Carro a Álcool: uma Experiência de Política Pública para a Inovação no Brasil”, 63.
185 Octanagem é o índice de resistência à detonação de combustíveis usados em motores no
“a operação básica da transformação, consiste evidentemente na carburação, na taxa de compressão, na curva de avanço da centelha e o aquecimento da mistura. Estas 4 variáveis, têm que ser casadas ponto por ponto, rotação por rotação. Depois de achado o nível do consumo, porque este é o único objetivo, o objetivo não é a maior potência e, sim, o mínimo consumo.
[...] Este conjunto leva cerca de 4 meses de trabalho. Esse conjunto de trabalho nós temos feito em cerca de 6 a 8 motores, e o Brasil tem cerca de 120 motores diferentes. Então temos ainda bastante a fazer. A receita, o que tem que ser feito, existe. Pode ser feito na própria indústria, e pode ser feito em laboratório. Certamente que a indústria terá o mesmo trabalho. Não faz diferença. Estes motores que eu citei, estão incluídos também em motores diesel, que também podem funcionar a álcool”.186
Além do motor Ford construído pelo CTA , em 1975, o Dodge, um Fusca e um Gurgel Xavante rodaram 8000 km por nove estados, no Circuito de Integração Nacional, para demonstrar a viabilidade técnica do carro à álcool. Para tanto, contribuíram o Instituto Nacional de Tecnologia – INT no Rio de Janeiro, que desenvolveu materiais que suportavam a corrosividade do álcool, e engenheiros do CTA que adaptaram o motor à gasolina às propriedades físico-químicas do combustível.
Nos anos 1980 o CTA depositou patentes, com Urbano Ernesto Stumpf como inventor: a de um carburador específico, projetado para operar com álcool combustível; a de turbo-alimentação de motor à centelha para uso de álcool; a de um sistema que confere ao motor a característica de multicombustível; a de um dispositivo para carburação combinada de combustíveis, preferencialmente a gasolina e o álcool, de modo a propiciar um
rendimento global superior ao obtido individualmente ou com a mistura daqueles combustíveis.187
Na 2ª fase do Proálcool, o de veículos movidos exclusivamente a álcool, os primeiros automóveis com estas características foram produzidos pelas principais montadoras – Volkswagen, Ford, General Motors e Fiat, ainda em 1978 e boa parte do que foi produzido em 1979 foi vendido para empresas públicas e agências governamentais para servir de teste.188
Para controlar o desempenho dos motores, a STI criou um sistema de suporte a oficinas e retíficas, coordenado pelo CTA, para determinar as modificações necessárias no motor para os vários modelos de automóveis; fornecer tecnologia às retíficas que faziam o trabalho de conversão de motores e habilitá-las a serem credenciadas pela STI; aprovar protótipos de conversão que tivessem incorporado as alterações requeridas; e prestar às oficinas autorizadas assistência técnica permanente.189
É importante observar que nesta 2ª. fase do PNA todos os motores a álcool fabricados foram desenvolvidos nas montadoras brasileiras, inclusive com alta taxa de compressão para permitir um aumento na eficiência do motor, além do desenvolvimento de materiais metálicos, elastômeros resistentes ao
187 O. Silva & D. Fischetti, Etanol, 53-54: As patentes que os autores forneceram em seu livro
são: PI8106855, PI8307191, PI7905726 e PI8305171, respectivamente.
Segundo nossa pesquisa realizada no website do INPI, a posição definida para as patentes solicitadas foram:
PI8106855, depositante: Centro Técnico Aeroespacial CTA; inventor: Stumpf U.; despacho: pedido arquivado em 06/0/1987;
PI8307191, depositante: Urbano Ernesto Stumpf; inventor: Stumpf Urbano Ernesto; despacho: art 18 parág. 2° do CPI; “O pedido de privilégio será considerado definitivamente retirado se não for requerido o exame no prazo previsto”, Lei n° 5772 de 21/12/1971;
PI7905726, titular: Stumpf U.; inventor: Stumpf U.; despacho em 25/10/1983: carta patente expedida; despacho em 14/06/1988: notificação de extinção da patente e seus certificados, se for o caso, pela homologação da renúncia apresentada pelo seu titular – Stumpf U. Homologada a renúncia, a patente será considerada extinta na data da apresentação da renúncia, e,
PI8305171, depositante: Pentra Pesquisa em En. e Transp.; Inventor: Stumpf Urbano Ernesto; despacho em 12/04/1988: exigência de publicação do pedido de exame não cumprida; despacho em 03/05/1988: petição não conhecida.
188 Santos, Política e Políticas de uma Energia Alternativa, 127. 189 Ibid., 128.
etanol e dispositivos para facilitar a partida a frio e eliminar os incômodos problemas advindos da utilização do etanol.190
Em 2003, houve o lançamento dos carros flex-fuel no Brasil, tecnologia baseada em um sensor do teor de oxigênio nos gases de escapamento, cujo motor é controlado por computador de bordo, que tem sensores que reconhecem os teores da mistura e se ajustam automaticamente, o que permite a utilização eficiente de gasolina e álcool.191
Um dos pontos fundamentais para o mercado consumidor, proporcionado pelos modelos flex-fuel, é apontado por Moraes: a possibilidade do consumidor escolher o combustível que quer utilizar, uma vez que ele poderá basear sua opção em “questões de eficiência (potência, consumo) e de preços relativos entre álcool hidratado e gasolina”.192
Outra discussão que permeou o período estava relacionada aos efeitos do etanol nos materiais, i.e., álcoois têm efeitos adversos em alguns materiais tradicionais do sistema de combustíveis, tanto nos próprios carros quanto na rede de distribuição do combustível da refinaria para os postos de abastecimento.
Com relação ao transporte do etanol carburante, nos anos 1980, foi realizado o transporte através de dutos, em São Paulo e posteriormente no Rio de Janeiro, e que, de acordo com M. G. F. M. Gomes, Diretor de Terminais e Oleodutos da Petrobrás Transporte S/A - Transpetro, permitiu a consolidação da experiência uma vez que foram tratados “problemas relacionados à corrosão, à presença de água livre nos dutos, à incompatibilidade com relação a pinturas convencionais, sistemas de combate a incêndio, controle de interfaces, sistemas de medição, materiais de vedação/selagem, etc”.193
190 E. M. Murgel, Veículos Automotores, 46-47: “em 1980, o Corcel foi o primeiro veículo de
linha fabricada com taxa de compressão de 12:1, contrariamente aos tabus da engenharia automotiva internacional que limitavam esta taxa em 10:1.”
191 Leite, Energia do Brasil, 359.
192 M. A. F. D. Moraes, “Considerações sobre a Indústria do Etanol no Brasil,” 143.
193 M. G. F. M. Gomes em “Experiência Petrobras no Transporte de Etanol Carburante,”
comenta sobre o transporte do álcool: “Todo este conhecimento e cuidado com o transporte de etanol estão consolidados nos procedimentos e normas do sistema Petrobras. Entre os anos de 1986 e 2007, foram publicados mais de 210 trabalhos técnicos sobre o tema e emitidos mais de 40 procedimentos operacionais, sobre como movimentar e armazenar etanol carburante”.
2.3. Discussões sobre Impactos da Produção do Etanol de Cana-de-