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A gente paga para funcionar o básico, a gente tem um conselho químico que aparece de dez a dez anos e a gente tem que pagar. A gente trabalha clandestino para ter uma fábrica de cachaça. Depois que estiver certificado, a coisa muda, aí o pessoal é muito educado. Lá no MAPA são pessoas preocupadas, estão preocupadas com a adequação ao consumo humano, estão preocupados com que se está consumindo, com a qualidade do produto (Família Dorna – Vair Dorna).

Pode-se observar o grande número de estabelecimentos de produtores de cachaça em Minas Gerais no Censo Agropecuário (1995-1996). Contudo, percebe-se que a valorização da cachaça no meio social deverá passar necessariamente por incentivos do Estado, que visem, entre outros aspectos, a melhoria da qualidade e a maior aceitação do produto no mercado, a geração de trabalho e a possibilidade de geração de renda para agricultores familiares.

Segundo Lima et al. (2006), o incentivo inicial do Estado na produção da cachaça se deu com o primeiro diagnóstico do setor alambiqueiro mineiro, no ano de 1982, pelo Instituto de Desenvolvimento Industrial de Minas Gerais (INDI). Verificou-se que exercia um papel importante na estruturação da economia agrícola estadual, que culminou na criação da Associação Mineira dos Produtores de Cachaça de Qualidade, em 1989; e do Programa Mineiro de Incentivo a Produção de Aguardente (Pró-Cachaça), em 1992. Essas iniciativas públicas e privadas possibilitaram um potencial de valorização da cachaça mineira, como descrito no Quadro 8.

QUADRO 8 – Número de produtores de cachaça por região do Estado de Minas Gerais

Mesorregião Estabelecimentos %

Norte 2.591 30,6

Jequitinhonha e Mucuri 1.874 22,1

Central 1.467 17,3

Rio Doce 1.192 14,1

Mata e Campos das Vertentes 987 11,7

Sul/Sudeste 197 2,3

Triângulo e Noroeste 158 1,9

Total 8.466 100,0

Fonte: IBGE - Censo Agropecuário 1995-96.

No início de 1990, segundo esse mesmo autor, a Secretaria do Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SEAPA/MG), por meio de normas, criou o programa de qualidade e produtividade na agricultura para valorizar a marca “MINAS”, valorizando vários produtos mineiros, dentre eles a Cachaça de Minas. Tinha por objetivo final “transformar as barreiras não-tarifárias, impostas principalmente por países europeus e pelos EUA, em um fator de competitividade para os produtos mineiros” (LIMA et al., 2006). Neste ato, surge o Pró-Cachaça para reestruturar a agricultura mineira e coordenar as ações públicas e privadas.

Dentre as ações dos órgãos competentes está a de Certificação da Cachaça de Minas. Foi assinado um convênio entre a SEAPA e a AMPAQ, com a finalidade de: preservar a tradição; considerar um produto tipicamente rural; usar a imagem do produto associada a do Estado; e padronizar a produção artesanal com produto de qualidade mínima.

Outro passo em direção à definição do padrão de identidade e qualidade da cachaça foi a publicação da Lei Estadual no 13.949. Há também o Decreto n.o 42.644 de 05/06/2002. Lima apud Oliveira e Magalhães (2002:129), dissertou que este decreto regulamenta a Lei e estabelece critérios de demarcação das regiões, demonstra o processo produtivo e os controles obrigatórios, nomeia o órgão responsável pela fiscalização do setor, reorganiza as competências normativas do Conselho Diretor do Pró-Cachaça e aprova o certificado de controle de origem da cachaça de Minas.

O referido autor cita ainda a importância do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (SEBRAE/MG), órgão privado que atua em parceria com a SEAPA e a Federação de Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais - Instituições Públicas, a finalidade desta parceria se deu no intuito de incentivar a produção da cachaça em Minas Gerais.

Silva (2010), ao tratar do incentivo na produção da cachaça no Território do Alto Rio Pardo, Minas Gerais, reporta a importância do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – PRONAF – como subsídio às famílias produtoras para os custos de serviços e insumos externos, como oferta de créditos.

Os principais fatores que definem os custos estão na contratação de serviços de mecanização de solos, no transporte da cana e também na mão de obra diarista em atividades de plantio, colheita e no beneficiamento, além da aquisição de insumos diversos. O uso relativamente baixo de insumos industriais (corretivos, adubos), a falta de costume em realizar serviços de análise de solos e de compra de mudas (exceto em alguns casos de formação da primeira lavoura), faz com que a mercantilização da atividade seja reduzida, sendo desenvolvida principalmente com recursos próprios (SILVA, 2010:11).

Observa-se o incentivo concedido à agricultura familiar como política pública, tendo como proposta a sua consolidação como categoria, no reconhecimento dos sujeitos sociais rurais e em relação ao Estado. “Para tanto,

objetiva ajustar as políticas públicas à realidade da agricultura familiar, viabilizar a infraestrutura rural, fortalecer o acesso de suas organizações ao mercado” (Romano e Delgado, 2002:2). Ou seja, o objetivo deste programa é o de promover o desenvolvimento sustentável do campo pelos agricultores familiares, tendo o apoio para o aumento produtivo, geração de emprego, melhoria de emprego e qualidade de vida das famílias. Segundo o técnico aposentado da EMATER de Rio Pomba (IE1):

O projeto de crédito é tranquilo para o produtor rural. Para fazer o crédito é com o Banco do Brasil. A gente trabalha em três (3) linhas: PRONAF, PRONAMP (Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural), e de mãos produtores que a linha do BNDES... aí o juro do PRONAF é de 1% a e 2% para investimento e de 1,5 a 4% para custeio; no PRONAMP, 6,25% tanto para investimento como custeio, ao ano, isso tudo ao ano... tem ainda outras linhas de 6,85% a 12,84% (IE1).

Os produtores costumam vir buscar projetos para financiamentos... mas voltado para cachaça é mais para veículos. Para transporte já tem projeto executado (IE1).

Até pouco tempo atrás era pouco divulgado o crédito rural. O pessoal achava que tinha que ser proprietários “grandes”. Só o ano passado a gente fez divulgação e aumentou uns 80% de procura pelo crédito rural, mas mais voltado para leite ainda (IE1). O plantio de cana-de-açúcar é mais para a alimentação dos animais. O que sobra aqui faz silagem de cana. Não é um trato bom, mas é uma reserva lá, como não em cultura da cachaça ainda não buscam financiamentos para essa linha (IE1).

Como reconhecimento comercial entre países, no mês de abril de dois mil e doze a cachaça foi reconhecida pelos Estados Unidos da América, como produto tipicamente brasileiro. Este reconhecimento favorece a exportação da bebida para esse país, já que o consumo vem aumentando a cada ano.

A projeção de crescimento do consumo de cachaça brasileira no mercado americano é grande, segundo a IBRAC. "Acreditamos que os EUA sejam, em dois ou três anos, o maior mercado para o nosso produto no mundo. Os EUA são importantes porque além de grande consumidores de destilados, são grandes formadores de opinião e nosso principal alvo. A força deste mercado pode nos ajudar com a OMC", afirmou o presidente da IBRAC. (Fonte: g1.globo.com, 2012).

4.7. Análise das representações sociais no contexto da produção da cachaça

Benzer Belgeler