O trabalho educacional envolve necessariamente uma perspectiva ética, uma teleologia cujo alvo é a própria configuração social. Ele envolve, ou deveria envolver, a fantasia e o mecanismo da sublimação, no qual a pulsão, fonte do prazer, assume um novo objetivo não sexual e visa objetos socialmente valorizados (LAPLANCHE; PONTALIS, 1992).
Há um modo de trabalho que oferece um elevado grau de satisfação libidinal, cuja execução é agradável. [...] Mas grande parte das relações de trabalho em que a civilização repousa é de um gênero muito diferente. Freud observa que “o trabalho cotidiano de ganhar a vida permite uma satisfação particular quando foi escolhido por livre opção”. Contudo, se “livre opção” significa mais do que uma seleção limitada entre necessidades preestabelecidas, e se as inclinações e impulsos usados no trabalho são diferentes dos prefigurados por um princípio repressivo de realidade, então a satisfação no trabalho cotidiano constitui apenas um raro privilégio. O trabalho que criou e ampliou a base material da civilização foi principalmente labuta, trabalho alienado, penoso e desagradável – e ainda é. O desempenho de tal trabalho dificilmente gratifica as necessidades e inclinações individuais. Foi imposto ao homem pela necessidade e forças brutais; se o trabalho alienado tem algo a ver com Eros, deve ser de um modo bastante indireto e com um Eros consideravelmente sublimado e debilitado. (MARCUSE, [199-?], p. 88)
Como os professores escolheram seu trabalho? Estão satisfeitos com ele? Se os professores também vivem o processo de alienação do trabalho, da labuta, a sublimação debilitada afeta diretamente a relação entre fantasia e trabalho docente.
A literatura (CODO, VASQUES-MENEZES, 2006; NAUJORKS, 2002; OLIVEIRA, 2006; REIS et al., 2006) vem destacando um sentimento crônico de desânimo e apatia que se instalou entre os profissionais da educação, a síndrome
do burnout35:
É uma síndrome através da qual o trabalhador perde o sentido da sua relação com o trabalho, de forma que as coisas já não o importam mais e qualquer esforço lhe parece ser inútil [...]. A síndrome burnout é definida
35 Burnout significa literalmente perder o fogo, perder a energia. Segundo o dicionário: “o estado de
estar extremamente cansado ou doente, tanto física quanto mentalmente, por ter trabalhado muito; ponto no qual um foguete usou todo seu combustível e não tem mais energia”. (HORNBY, 2000, p. 169). Em inglês: “1. the state of being extremely tired or ill, either physically or mentally, because you have worked too hard; 2. the point at which a rocket has used all of its fuel and has no more power”.
[...] como uma reação à tensão emocional crônica gerada a partir do contato direto e excessivo com outros seres humanos, particularmente quando estes estão preocupados ou com problemas. Cuidar exige tensão emocional constante, atenção perene; grandes responsabilidades espreitam o profissional a cada gesto no trabalho. O trabalhador se envolve afetivamente com os seus clientes, se desgasta e, num extremo, desiste, não agüenta mais, entra em burnout. (CODO; VASQUES-MENEZES, 1999, p. 238)
O burnout, como uma expressão da labuta docente, não deve ser visto como uma explicação medicalizada e simplificada da complexidade do cotidiano escolar. É um conceito composto por três elementos que descrevem características individuais: 1) exaustão emocional; 2) despersonalização, ou melhor, desenvolvimento de atitudes negativas e de cinismo frente aos destinatários do trabalho, com conseqüente endurecimento afetivo; 3) falta de envolvimento pessoal no trabalho. Mesmo com a descrição de características individuais, o conceito de burnout indica uma alteração da dinâmica psíquica em decorrência das condições do ambiente de trabalho, não fornece uma caracterização da estrutura de personalidade, “os paralelos entre tipos de personalidade e burnout têm se apresentado sem muito sucesso” (CODO; VASQUES-MENEZES, 1999, p. 243). Alguns elementos ambientais relacionados ao burnout podem ser enumerados: violência, falta de segurança, administração insensível, burocracia, pais omissos, transferências (de local de trabalho) involuntárias, críticas da opinião pública, classes superlotadas, falta de autonomia, salários inadequados, falta de perspectiva de carreira, preparo inadequado. O próprio conceito surge em um contexto social de desvanecimento da solidariedade, solidão e narcisismo.
Na pesquisa sobre burnout docente, realizada por Codo e Vasques-Menezes (1999), aproximadamente metade dos professores apresentou indícios da síndrome: “se perguntarmos pela incidência, em nível preocupante, de pelo menos uma das três subescalas que compõem burnout, estaremos falando de 48,4% da categoria” (CODO; VASQUES-MENEZES, 1999, p. 250, grifo dos autores). Esses dados foram
publicados em 1999, o que nos afasta em pelo menos nove anos no tempo. Com a portaria publicada em 2001 e a veiculação publicitária da educação inclusiva, o número de alunos que exigem cuidados especiais aumentou, o que nos leva a supor um aumento também na incidência do burnout. Alguns estudos mais recentes (REIS et al., 2006; CARLOTTO, PALLAZZO, 2006) não tratam diretamente da relação entre
burnout e educação inclusiva, mas apontam respectivamente para um crescimento
do cansaço mental de educadores que se expressa nas pesquisas e para a proporção de crescimento direta entre o número de alunos e de horas trabalhadas com os índices de burnout36. Os trabalhos de Naujorks (2002, 2003) descrevem os principais indicadores de burnout dos professores frente à política de educação inclusiva, mas não fornecem dados estatísticos.
Conforme identificamos ao longo deste estudo, vários são os agentes estressores com os quais o professor tem que lidar em seu cotidiano profissional. Na maioria dos casos até consegue identificá-los, mas sente-se impotente frente aos mesmos. Encontramos um professor angustiado frente aos desafios que a escola lhe impõe.
A proposta da inclusão é um forte agente estressor, pois chegou nas escolas de forma “imposta”, tornando-se, em linguagem figurada uma “pedra no caminho do professor”. O conceito de inclusão, segundo os professores ouvidos adquire diversos significados, mas todos são unânimes em afirmar que o processo inicia a partir de mudanças de atitudes que englobam a sociedade e não apenas o ambiente escolar. Como não conseguem enxergar este “movimento” nem na sociedade nem nas escolas, sentem-se sozinhos, tendo que implementar um processo que diz respeito a todos, que envolve uma prática coletiva. (NAUJORKS, 2002).
Tais dados exigem que se leve em consideração que o educador pode estar passando por um momento de crise, que implica rompimento do equilíbrio do ego, tendo como desfecho a desorganização da personalidade e um sentimento de forte dor emocional (KAHTUNI, 1996). Sob a labuta docente, coloca-se a questão da dinâmica da fantasia e do desenvolvimento de atitudes negativas.
36 Ainda que os dados de ambas as pesquisas tenham sido coletados entre 2000 e 2001, os autores