Uma das tarefas básicas no estudo do adventismo é entender o ponto de ramificação - distinção/separação - entre o que podemos chamar de
Movimento Adventista e a organização da Igreja Adventista do Sétimo Dia. O
Movimento Adventista teve início em 1831, com as pregações de Guilherme
Miller sobre o advento de Cristo, que supostamente aconteceria em 1844, e findou-se com o fenômeno do Grande Desapontamento.
Já a Igreja Adventista do Sétimo Dia, esta teve início exatamente no momento do desapontamento. No instante em que o adventismo passava por uma crise em detrimento da não-volta de Jesus. E a formação da IASD ficaria sujeita, portanto, ao esforço de um grupo de estudantes da Bíblia. Um grupo liderado pela jovem de 18 anos chamada Ellen G. White.
O grupo era formado pelos adventistas: Hiram Edson, José Bates, Tiago White, Stephen Pierce e Ellen Harmon (Ellen G. White). Ele se tornou a pedra fundamental da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Essas pessoas, não conformadas com o que havia acontecido sobre o Grande Desapontamento, passaram a revisar as ideias de Guilherme Miller. O objetivo era estabelecer novas metas, encontrar respostas e explicações plausíveis, que trouxessem de volta a segurança da crença no advento. A “Sra. White”, assim chamada pelos adventistas, ao lembrar-se do início da IASD, descreve em seu livro “A Igreja Remanescente”, as ações do grupo no pós-desapontamento:
Meu esposo (Tiago White), juntamente com os Pastores José Bates, Stephen Pierce, Hiram Edson, e outros que eram fervorosos, nobres e fiéis, estavam entre os que, depois da passagem do tempo em 1844, buscaram a verdade como a um tesouro escondido. Reuníamo-nos sentindo angústia d’alma, a fim de orar para que fôssemos um na fé e doutrina; pois sabíamos que Cristo não está dividido. Cada vez tomávamos um ponto para assunto de nossa investigação. Abriam-se as escrituras com sentimento de temor. Jejuávamos frequentemente, a fim de pôr-nos em melhor disposição para compreender a verdade. Se depois de fervorosa oração, não compreendíamos algum ponto, nós o discutíamos, e cada qual exprimia livremente sua opinião. De novo então nos curvávamos em oração, e ardentes súplicas ascendiam ao Céu para que Deus nos ajudasse a ver duma mesma maneira, para que fôssemos um, como Cristo e o Pai são um. Muitas lágrimas eram derramadas.41
Notemos que, a preocupação de haver consenso nas sentenças interpretativas era algo bastante evidente. Isso demonstra a necessidade de
41 WHITE, Ellen G. A Igreja Remanescente. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 8ª Ed., 2005, p. 20.
plausibilidade e economia de saber teológico. Naquele momento, o que mais importava, de fato, ao grupo, era encontrar parâmetros teológicos legítimos e acreditáveis. Quanto ao conceito de “legitimação”, vale lembrar o trabalho do sociólogo Peter L. Berger, que discute no livro “O Dossel Sagrado”, a ideia de
Legitimação no universo religioso. Berger trata da importância de saberes e
definições plausíveis à realidade, efetivas na configuração de uma ordem social objetiva e também subjetiva dos indivíduos. Aliás, sobre o conceito de
Legitimação, Berger faz a seguinte afirmação:
Por legitimação se entende o “saber” socialmente objetivado que serve para explicar e justificar a ordem social. Em outras palavras, as legitimações são respostas a quaisquer perguntas sobre o “porque” dos dispositivos institucionais.42
Pode-se suspeitar que a pergunta feita pelo grupo de adventistas naquele momento tenha sido a seguinte: “Afinal, por que Jesus não voltou no dia 22 de outubro de 1844?”. Questão delicada. Necessitava de uma reposta legítima. Só assim o grupo explicaria, objetivamente, aquela realidade frágil do desapontamento e também, subjetivamente, a realidade interior dos fiéis. Só assim poderiam encontrar conforto naquele momento. Pois:
A legitimação tem um aspecto objetivo e um aspecto subjetivo. As legitimações existem como definições disponíveis da realidade, objetivamente válidas. Constituem parte do “saber” objetivado da sociedade (neste caso, o grupo de adventistas)43. Para se tornarem efetivas no respaldo da ordem social terão, entretanto, de ser interiorizadas e servir para definir igualmente a realidade subjetiva.44
Talvez isso possa nos ajudar a entender a busca do grupo por uma
unicidade nas sentenças interpretativas, busca essa, aliás, descrita por Ellen.
G. White no recorte anteriormente citado. Uma definição teológica igualmente
42 BERGER, Peter L. O Dossel Sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulus, 1985, p.42.
43 Grifo nosso.
44 BERGER, Peter L. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulus, 1985, p.45.
legítima, sem pontos de discordância, seria, portanto, fundamental naquele período de confusão, de caos existencial.
Segundo os adventistas do sétimo dia, além do esforço na busca pelo consenso nas interpretações teológicas, ainda sobrevieram ao grupo de pioneiros, importantes revelações por parte de Deus. Ellen White descreve que, em momentos de dificuldade na busca de interpretação das Escrituras, o Espírito de Deus descia sobre sua pessoa, proporcionando esclarecimento. Aliás, dessa experiência, ela mesma comenta:
Assim, passávamos muitas horas. Algumas vezes passávamos a noite toda em solene investigação das Escrituras, para que pudéssemos compreender a verdade para nosso tempo. Em algumas ocasiões o Espírito de Deus descia sobre mim, e porções difíceis eram esclarecidas pelo modo indicado por Deus, e havia então perfeita harmonia. Éramos todos de um mesmo pensamento e espírito.45
Nas revelações, dadas pelo “espírito de Deus”, o grupo percebeu que Miller e os pastores líderes do movimento adventista haviam cometido um equívoco quanto à profecia de Daniel, sobre as 2.300 tardes e manhãs. Assim, Jesus não voltaria naquele dia 22 de outubro de 1844. O que ocorreu, diz a IASD, foi algo diferente do que as pessoas imaginaram.
O grupo chegou à conclusão de que realmente, Jesus Cristo não regressaria no dia do Desapontamento porque, na verdade, teria Ele, Jesus, praticado outra atividade. Segundo a interpretação bíblica dos adventistas, no dia 22 de outubro de 1844, Jesus passou de um compartimento, o lugar
santo, do Santuário Celestial, no Céu, para outro compartimento, o lugar santíssimo. A ação, portanto, aconteceu no Céu, e não na Terra. O trecho
retirado do livro “1844: Uma Explicação Simples das Principais Profecias de Daniel.”, de Clifford Goldstein, nos dará uma clara perspectiva em relação à interpretação adventista a respeito do Santuário Celestial.
45 WHITE, Ellen G. A Igreja Remanescente. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 8ª Ed., 2005, p. 21.
A purificação do santuário terrestre era o dia do juízo anual. Durante milhares de anos, desde os tempos do tabernáculo no deserto até hoje, os judeus têm celebrado a purificação do santuário (Yom Kippur) – o Dia da Expiação – como o grande dia do juízo. Juízo, arrependimento, confissão de pecados, são a essência do Yom Kippur, o Dia da Expiação. [...] O serviço realizado na Terra, entretanto, simbolizava o verdadeiro serviço do Céu. O santuário terrestre era uma cópia e uma “sombra das coisas celestes”. Hebreus 8:5. O animal morto (o bode e o cordeiro expiatórios, que eram imolados nos rituais)46 simbolizava Jesus, “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. João 1:29. Para onde Ele leva nossos pecados? Sabemos que Jesus carregou nossos pecados “em Seu corpo”. I Pedro 2:24. Depois Ele foi até o Céu, onde ministra como nosso Sumo Sacerdote. E, assim como a intercessão do sacerdote em favor de Israel (nome dado às doze tribos e ao Povo de Deus, segundo o Antigo Testamento)47 envolvia a retirada dos pecados deles, levando- os ao santuário, a intercessão de Jesus em nosso favor, no Céu, está fazendo a mesma coisa. “Possuímos tal sumo sacerdote, que Se assentou à destra do trono da Majestade nos Céus, como ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, não o homem.” Hebreus 8:1 e 2. [...] Assim como o típico Dia da Expiação era um momento de examinar o coração, de arrepender-se e preparar-se, tanto mais é o verdadeiro Dia da Expiação, no qual estamos vivendo desde 1844. Assim como no dia do julgamento terreno, Deus está buscando purificar-nos de todo o pecado. O julgamento é importante para nossa vida, porque Deus quer nos preparar para permanecermos firmes durante o mesmo. [...] Duas coisas ocorrerão simultaneamente, quer estejamos ou não envolvidos como povo nas mesmas. No Céu, Deus terá completado o julgamento, purificado o santuário, apagado os pecados de Seu povo – tudo isso perante o Universo inteiro, que exclamará: “Justos e verdadeiros são os Teus juízos, ó Senhor.” Ao mesmo tempo, na Terra, Deus será glorificado pelo desenvolvimento do caráter e pela obediência de Seu povo que, a despeito da apostasia e anarquia mundiais, guarda Seus mandamentos. Haverá um santuário purificado no Céu, e um povo purificado na Terra, e o pecado finalmente recairá sobre aquele que deu início a todo o mal (Satanás).48 Através daquilo que Deus realiza no Céu e na Terra, Seus caminhos – abertos aos “principados e potestades nos lugares celestiais” – serão reconhecidos como justos, perfeitos e verdadeiros.49
46 Grifo nosso.
47 Grifo nosso. 48 Grifo nosso.
49 GOLDSTEIN, Clifford. 1844: Uma Explicação Simples das Principais Profecias de Daniel. Tradução de Regina Mota. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2001, pp. 105 -111.
Se Jesus Cristo fez alguma coisa no dia 22 de outubro de 1844, isso aconteceu no plano celestial, no Santuário Celestial. E segundo a IASD, Ele, Cristo, está assentado neste momento, à direita de Deus, O Pai, no Céu. Está no lugar Santíssimo do Santuário, com a função de Sumo Sacerdote, intercedendo pelas pessoas na expiação dos pecados. Porque, assim como fazia o Sumo Sacerdote hebreu do Santuário na Terra, descrito no Antigo Testamento, assim fez, e está fazendo, Jesus no Santuário Celestial.
Além disso, o grupo de Ellen G. White percebeu também, que a primeira das três mensagens angélicas50 estava, portanto, ainda em vigor. Era necessário continuar crendo no advento do Cristo. Afinal, o momento no qual Jesus surge como Grande Juiz, não havia chegado. Era preciso dar continuidade às pregações do Evangelho, porque o tempo do Juízo Final estava ainda por acontecer. Assim, o propósito da nascente Igreja Adventista do Sétimo Dia, liderada por White, havia então se assegurado.
Mas os adventistas do sétimo dia, diferente dos pastores Milleritas que determinaram data específica para que a volta de Jesus acontecesse, não fazem previsões. Conforme a nova interpretação das escrituras, ninguém poderá saber quando o advento de fato ocorrerá. Pois não existe dia, ano nem hora determinados por Deus. A Bíblia não fala nada a respeito dessas definições. O que realmente se sabe, o que de fato consta na Bíblia, é que o
Juízo Final pode chegar repentinamente, e que nem mesmo Jesus, O “Filho”,
tem conhecimento a respeito de Seu retorno. Somente Deus, O “Pai”, sabe quando isso acontecerá. As escrituras dizem o seguinte:
Daquele dia e hora, porém, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, senão só o Pai. Pois como foi dito nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do homem. Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, até que
50 Relembremos que diz - “Vi outro anjo voando pelo meio do céu, tendo um evangelho eterno para pregar aos que se assentam sobre a terra, e a cada nação, e tribo, e língua, e povo, dizendo, em grande voz: Temei a Deus e dai-lhe glória, pois é chegada a hora do seu juízo; e adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas.” In: A Bíblia
Sagrada. Tradução João Ferreira de Almeida. 2ª Ed. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do
veio o dilúvio, e os levou a todos; assim será também a vinda do Filho do homem. Então, estando dois homens no campo, será levado um e deixado outro; estando duas mulheres a trabalhar no moinho, será levada uma e deixada a outra. Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor; sabei, porém, isto: se o dono da casa soubesse a que vigília da noite havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa. Por isso ficai também vós apercebidos; porque numa hora em que não penseis, virá o Filho do homem. (Mateus 24:36-39)51
Mas a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe; nem os anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai. (Marcos 13:32)52
Irmãos, relativamente aos tempos e às épocas, não há necessidade de que eu vos escreva; pois vós mesmos estais inteirados com precisão de que o Dia do Senhor vem como ladrão de noite. Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores de parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão. (1 Tessalonicenses 5:1-3)53
Portanto, por esse motivo, os adventistas do sétimo dia aguardam e anunciam a volta de Jesus Cristo como uma promessa divina que ainda
será cumprida. E esperam por um evento surpresa. Uma benesse vinda da
parte de Deus para os seres humanos. Há entre os adventistas do sétimo dia uma constante esperança por algo apoteótico. Algo sobre o qual não se sabe com muita clareza como e quando exatamente ocorrerá, mas que certamente
acontecerá. Algo que olhos jamais viram e ouvidos ouviram.