A preocupação em estabelecer relações dos conhecimentos teóricos da Sociologia com o cotidiano do aluno aparece tanto nos depoimentos como nas observações realizadas nas salas de aula dos professores investigados. Assim sendo, deve ser aqui considerada, tendo em vista que se trata de uma forma de trazer para a sala de aula os problemas sociais atuais e debater com os alunos a realidade na qual estão inseridos, estimulando a aprendizagem e a socialização dos conhecimentos de forma mais prazerosa e potencializadora, com momentos de integração. No dizer de Bridi, Araújo e Motim (2009, p. 122), “o ensino da sociologia, apresentado como um conjunto de fenômenos e acontecimentos desarticulados entre si ou baseados apenas nas teorias sociológicas, ou mesmo como um aprendizado da realidade sem o aparato teórico que o ilumine, pode significar um ensino morto, sem significação para os sujeitos envolvidos”.
Notamos nas aulas observadas que os professores procuraram trabalhar os conceitos teóricos da Sociologia, estabelecendo relação entre teoria e prática. Vejamos o registro de um trecho da observação da aula do professor Valter, que tratou do conceito de contatos sociais de Max Weber, estabelecendo uma relação do homem do campo com o da cidade. Ele colocou no quadro o conceito de contatos sociais e começou a exposição da aula a partir de
duas questões também copiadas no quadro: o que são contatos primários? E o que são contatos secundários?
Professor – [...] agora vamos estudar o conceito de contatos sociais de Max
Weber. Contatos primários são os primeiros contatos, acontecem primeiro na família, são os contatos mais pessoais. Os contatos secundários são mais impessoais, por exemplo, um cliente de banco com o caixa do banco.
Para entender melhor os contatos sociais, vamos agora ler um texto. O Lavrador e o Empresário [uma aluna faz a leitura intercalada com o professor].
No campo, os contatos sociais primários são mais presentes nas relações sociais e na cidade sobressai o contato secundário, que é mais impessoal. No campo, são mais preservados os valores familiares, o contato com a natureza ainda prevalece, os vizinhos conversam à noite nas calçadas, na cidade não acontece mais isso, são hábitos e valores que se perderam até por conta da própria violência.
Professor – vocês estão entendendo? [ninguém se manifesta. O professor diz:
“vamos participar”. Poucos participam].
Professor – qual é o primeiro contato social que nós temos?
Aluno 1 – a família.
Professor – como eu disse, os contatos sociais primários estão mais presentes
entre os homens do campo, na cidade se sobressai o contato secundário, estão entendendo? Gente, vamos participar da discussão [...] [poucos participam]. (Professor Valter, registro de áudio observação n. 06, realizada na Escola Normal Oficial de Picos em 15/09/09).
Assim, ficou evidenciado que o professor Valter, por meio do conceito de contatos sociais de Max Weber e de um texto sobre o homem do campo e da cidade, estabeleceu relações entre a teoria e a prática, trabalhando com o conhecimento científico e com situações do cotidiano. Todavia, certos cuidados devem ser tomados para não disseminar uma criticidade abstrata, oriunda do senso comum, sem profundidade teórica. Sem esses cuidados, estudamos somente a história da Sociologia e alguns conceitos e temas isolados, faltando uma postura sociológica e atendendo apenas as necessidades imediatas dos currículos. Segundo Sarandy (2004, p. 129), “[...] um aluno que sabe da existência da desigualdade social – já evidente em si mesma – e que aprendeu as teorias explicativas das Ciências Sociais não é necessariamente um aluno que aprendeu a pensar sociologicamente”.
Um dos maiores desafios do professor de Sociologia diz respeito ao modo como ele constrói o conhecimento e transmite ao aluno. Para Bridi, Araujo e Motim (2009), em primeiro lugar, está a forma de unir o acontecimento, o elemento e a informação ao contexto histórico e aos diversos contextos interligados; o segundo desafio refere-se a como tratar as
muitas incertezas de que a realidade se reveste, o que implica admiti-las como um dado da ciência, na medida em que todo o conhecimento não é definitivo; o terceiro está relacionado ao desafio lógico: como tratar os paradoxos e aceitar as contradições ou antagonismos lógicos sem cair no vazio teórico e prático.
O professor Petrônio procura estar atento a esses cuidados, afirmando:
Procuro trazer os conteúdos teóricos para os alunos sob a concepção de sociedade, de mundo, de grupo, as relações entre as instituições, entre os regimes, entre os sistemas, eu procuro trabalhar isso trazendo para a realidade do aluno os problemas que acontecem no cotidiano, tento fazer uma inter-relação entre as teorias sociológicas que estudam com a vida que eles vivem. O professor tem que ter certa criatividade, procurar fazer atividade extraclasse, realizar palestras com alguns convidados, dramatização também, fazendo com que as aulas sejam mais abertas. (Professor Petrônio, entrevista n. 03, em 09/03/09).
Associar a relação do cotidiano com os conteúdos teóricos é uma forma de Petrônio conduzir o ensino de Sociologia. Esta é uma relação fundamental no processo de ensino- aprendizagem da Sociologia no Ensino Médio, é uma forma de unir o acontecimento e a informação ao contexto histórico e aos diversos contextos interligados.Bridi, Araujo e Motim (2009) advertem que para desenvolver o conhecimento cabe ao professor aproximar o parcial do global, o uno do múltiplo, a lógica daquilo que a ultrapassa.
Nesse sentido, Oliveira (2007, p. 95) acrescenta: “No ensino de Sociologia no Ensino Médio a relação teoria/prática só se efetiva a partir da escola, adequando estratégias pedagógicas que buscam maior articulação dos conhecimentos, oriundos das questões do cotidiano, com os conhecimentos teóricos da disciplina”.
Essa relação se percebe também nas falas de Rosa, Daniel, Marcos e Valter, quando dizem:
Sempre procuro me atualizar, levar textos que considero importantes, relevantes para os alunos, porque eles dão opinião, mesmo que não seja assim com muita firmeza, com muita clareza teórica, mas emitem suas opiniões se têm oportunidade de discutir, é assim que se constrói o conhecimento. (Professora Rosa, entrevista n. 2, em 09/03/09).
É interessante que o professor tenha a preocupação com a pesquisa, procuro passar trabalhos para os alunos pesquisarem assuntos da realidade, porque sem a pesquisa eles jamais vão tomar conhecimento do que está acontecendo nos dias atuais, sobretudo quando envolve a sociedade. (Professor Daniel, entrevista n. 6, em 27/03/09).
Eu acho que o professor precisa ter conhecimento científico do conteúdo e trazer para a realidade do aluno. (Professor Marcos, entrevista n. 5, em 14/03/09).
Eu procuro relacionar os conteúdos teóricos com o cotidiano do aluno. (Professor Valter, entrevista n. 4, em 10/03/09).
Notadamente todos procuraram estabelecer uma relação entre os conteúdos teóricos da Sociologia com o cotidiano. Petrônio tenta fazer uma inter-relação entre as teorias sociológicas que estudam a vida que o aluno vive; Rosa estuda textos com os alunos, entendendo que eles não têm muita firmeza teórica, mas que emitem opiniões; Daniel procura passar trabalhos para eles pesquisarem assuntos da realidade, fazendo com que tenham conhecimentos da atualidade; Marcos e Valter procuram trazer para a sala de aula os conteúdos teóricos da Sociologia que fazem parte do cotidiano do aluno. Todos empregaram estratégias metodológicas na realização do seu saber-fazer, as quais possibilitaram estabelecer relações teóricas e práticas na construção do conhecimento.
Assim, no desempenho do seu saber-fazer, os professores foram absorvendo as relações por meio do que Schutz (1979) chama de “cenário do mundo de vida”, em que cada indivíduo constrói seu mundo e ao mesmo tempo acredita na possibilidade de compartilhar experiências de sentidos comuns. Essa crença na experiência do nós apresenta-se, sempre, como uma possibilidade objetiva para os participantes da experiência, embora cada vivência seja única, subjetiva e, por isso mesmo, intraduzível no âmbito de sua totalidade.
Apesar de somente o professor Daniel fazer menção nos depoimentos acima à atividade de pesquisa que se restringe a consultas a fontes bibliográficas, verificamos por meios das observações que essa atividade foi realizada por todos os professores como forma de aprofundar os conteúdos estudados em sala de aula. Nesse particular, Sarandy (2004, p. 130) explica que não “podemos esperar muita experiência de campo no Ensino Médio, especialmente em se tratando da rede pública de ensino, nem é nosso objetivo formar sociólogos ao fim dessa etapa do ensino escolar”. Entretanto, a realização de algumas possibilidades de experiências de pesquisa, mesmo se tratando de nível médio de ensino, favorece a construção, pelos alunos, de uma visão mais aprofundada dos fenômenos sociais, proporcionando-lhes, assim, uma melhor condição de reflexão e análise da realidade social em que estão inseridos. Vale salientar que o momento histórico que estamos vivendo exige
que a escola ajude o aluno a desenvolver um pensamento crítico e criativo. Nesse contexto, o trabalho de pesquisa ganha significado.
De uma forma ou de outra, eles, os entrevistados, trabalharam o cotidiano associado aos conceitos das teorias sociológicas. Nesse sentido, Oliveira (2007, p. 87) assegura que
[...] a relação teoria e prática com reflexão de situações do cotidiano, muito pode contribuir para o enfrentamento e a superação dos graves problemas sociais da atualidade, claro que não podemos, nesse caso, ter um olhar messiânico, pois é necessário uma série de outras medidas que mobilize a sociedade. Contudo, a Sociologia pode ser um primeiro passo.
A realização do saber-fazer pautado nas relações do cotidiano com as teorias sociológicas na compreensão e não na memorização dos conceitos termina propiciando, ao jovem educando, uma visão crítica da vida social, um contato mais próximo e palpável com a realidade e com as relações que foram levantadas pelos teóricos e que até hoje estão presentes na sociedade. Segundo Heller (1985, p. 94-96),
quanto mais se estereotipam as funções de “papel”, tanto menos pode
“crescer” o homem até a altura de sua missão histórica, tanto mais infantil permanece. [...] Um papel não pode e nem deve ser tomado como um conjunto de padrões cristalizados de comportamento ao qual o indivíduo deve se conformar por meio da execução das tarefas pertinentes. Caso isso ocorra, teremos, como resultado o atrofiamento da consciência do indivíduo e sua alienação pela mecanização dos seus comportamentos.
Os professores pesquisados, ao desempenharem o seu saber-fazer pedagógico, interagindo com a realidade do aluno, ampliaram a consciência sobre a sua ação, o seu agir e o ser professor. “Entender a dimensão imaginária de como se constitui ser professor é buscar as significações atribuídas a práticas, fatos, saberes, desejos, crenças, valores, com os quais o docente constrói o seu fazer pedagógico”. (FUNGHETTO; NETTO, 2010, p. 1).
Os saberes construídos ao longo da profissão vão sendo redimensionados, dialogando com dimensões teóricas, práticas e coletivas que permeiam a atividade socioprofissional. A tomada de consciência dos diferentes elementos que fundamentam a profissão e a integração na situação de trabalho levam à construção de uma identidade profissional.
Assim, quando Petrônio, Marcos, Daniel, Valter e Rosa conseguiram, por meio das estratégias metodológicas, dialogar e suscitar nos alunos a motivação para o debate, fazendo
junto com eles uma reflexão sociológica sobre os conteúdos estudados, mostrando as contradições e as relações sociais que envolvem a sua existência individual e coletiva e como a Sociologia pode ser importante em suas vidas, desempenharam com êxito o seu saber-fazer docente como professores de Sociologia do Ensino Médio. Para Sarandy (2004, p. 129), “ainda que dotemos o ensino dessa ciência de um projeto político, ele passará necessariamente pela apropriação, por parte do educando, de uma nova perspectiva sobre o mundo social, que será garantia na mesma medida em que nos aproximamos do objetivo da disciplina”.
Enfim, podemos afirmar que os professores de Sociologia do Ensino Médio sujeitos deste estudo trabalharam os conteúdos teóricos da Sociologia estabelecendo relações entre teoria e prática a partir de temas como drogas, família, cidadania, idade penal, juventude, idoso, gangues, entre outros, como mostraram os quarto e quinto capítulos, e utilizando-se de estratégias metodológicas, como: aula expositiva dialogada, debate, dramatização, júri simulado e exibição de filmes. Dessa maneira, foram construindo as relações de ensino- aprendizagem no cotidiano da escola e as inter-relações entre o saber-fazer pedagógico e a construção identitária do ser professor de Sociologia no Ensino Médio de escolas públicas estaduais da cidade de Picos/PI.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesta tese, investigamos as inter-relações entre o saber-fazer e a construção da identidade profissional de professores de Sociologia do Ensino Médio das escolas públicas estaduais da cidade de Picos/PI. Não foi nossa intenção avaliar o seu saber-fazer. Queríamos, sim, dar voz, expor seus depoimentos e analisá-los à luz das teorias. Nessa caminhada, tivemos de considerar outros percalços, expostos nos capítulos da tese, alguns dos quais serão aqui retomados.
Em todo o estudo, buscamos a coerência entre os objetivos, a metodologia utilizada e os instrumentos de coleta de dados, que nos possibilitaram informações riquíssimas agrupadas em dois eixos categóricos de análise: a formação para a docência – a busca de sentidos na experiência ser – e o exercício da docência no cotidiano do professor de Sociologia do Ensino Médio. Tais eixos fomentaram a sistematização das informações em instâncias de análises que compuseram os dois últimos capítulos da tese, o quarto e o quinto.
A função da Sociologia no Ensino Médio, conforme exposto neste estudo, é a de uma ciência que pode trazer grandes contribuições aos estudantes desse nível de ensino, auxiliando na formação da consciência crítica, que os fariam pensar como sujeitos e protagonistas históricos e enquanto atores sociais capazes de intervir na realidade em que estão inseridos. Contudo, a disciplina de Sociologia tem uma história permeada por avanços e retrocessos. Hoje podemos comemorar, pois finalmente, a partir da Lei n. 11.684/08, ela passou a ser obrigatória nos currículos de todas as escolas do Ensino Médio no Brasil. Esta foi uma grande conquista, a vitória de uma luta acompanhada de muitos desafios. Porém, as questões e as dificuldades a serem enfrentadas são muitas, a começar por não existir um consenso sobre os conteúdos programáticos, a escassez de recursos didáticos e a falta de professor com formação na área de Ciências Sociais para trabalhar com a disciplina de Sociologia no Ensino Médio. Esses problemas foram identificados por nós nas entrevistas, individuais e coletiva, nas observações e na literatura estudada.
Na opinião dos professores que entrevistamos, a carência de material didático, como o livro didático de Sociologia e os recursos materiais e tecnológicos, contribui para a falta de estímulo dos alunos pelas aulas. Eles acreditam também que o desinteresse dos alunos pela disciplina ocorre devido à ausência de conteúdos de Sociologia de forma explícita nos exames vestibulares das universidades do Piauí. Para eles, o fato de a disciplina estar no elenco das