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A comunidade de Angelim I ainda passa pelo processo de elaboração do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação do Território (RTDI), etapa inicial prevista pela Instrução Normativa n.º 16, de 24 de março de 2004 (INCRA), após reconhecimento da comunidade pela Fundação Cultural Palmares (FCP/Minc76). As tentativas de execução do estudo já são três, que tiveram seu início com a FCP, em 2003. A cada momento, o estudo passa por entraves burocráticos, quase sempre vinculado à precariedade do trabalho e morosidade do INCRA. Um dos técnicos que

102 começou a trabalhar pela empresa de consultoria e gestão que venceu a licitação do último edital emitido pelo INCRA, apresenta as condições iniciais de trabalho, mas coloca que houve pouquíssimo tempo para o trabalho em toda a bacia do Angelim e não foi possível realizá-lo como exige a legislação.

Sandro Juliati: (...) E eu falei com ele: olha, se for dividir 30 dias de campo, fica 7 dias e meio em cada comunidade, eu não consigo, não dá pra visitar todas as famílias. (...) nessas circunstâncias, esse relatório vai ser mais um survey do que propriamente um relatório que tenha alguma densidade etnográfica, como exige a instrução normativa do Incra, né. E a resposta do Incra à empresa: olha, se vocês sentirem necessidade de alongar o campo, isso é responsabilidade da empresa e não do Incra, o edital já foi lançado, o dinheiro já tá aí, então a empresa falou que conseguia adequar as coisas (entrevista concedida a autora em julho/2013).

O dado trabalho foi feito com uma equipe de quatro pessoas que tinham as comunidades da bacia do Angelim (4), e mais a comunidade de Roda D’água para realizar, em alguns meses de trabalho, um profundo estudo sobre as histórias, práticas, referências de parentesco, referências territoriais, entre outros aspectos, como indica o aparato legal brasileiro77. Diante do atraso de liberação da verba, entre outros fatores, esse relatório78 foi negado pelo INCRA, que apontou uma série de ausências, comentadas pelo técnico envolvido.

Segundo relato dos moradores, uma possibilidade levantada no início dos trabalhos no Sapê era se seria possível uma titulação coletiva, já que a memória referente a este lugar revelava fortes ligações de parentesco, vizinhança e uso comum da terra. Todavia, a morosidade do órgão, adicionado às dificuldades quanto às desapropriações necessárias, tornam essa possibilidade praticamente inviável, fato inclusive considerado no início dos trabalhos do INCRA em todo o Sapê do Norte.

Diante das dificuldades relacionadas ao INCRA, a mobilização interna das comunidades torna-se praticamente um fator essencial na pressão política do

77 Neste caso, a Instrução Normativa n.º 20, de 19 de setembro de 2005 (INCRA) que regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação, desintrusão, titulação e registro das terras ocupadas por comunidades quilombolas, apresentando, entre outros, os procedimentos e conteúdos referentes ao Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID). 78 “Os relatórios técnicos revelam que um Território Quilombola é uma terra em que se dão diversos usos simultâneos: moradia, produção e cultivo, extrativismo, criação de animais, caça, pesca, patrimô- nio cultural que inscreve na terra atividades de manifestação cultural, religiosa e ritual” (INCRA, 2012:19).

103 processo. Esse requisito tem encontrado muita dificuldade, haja vista a crescente descrença das comunidades no que tange à titulação, devido à demora e retrocessos burocráticos e jurídicos.

Na tentativa inicial de titulação coletiva, trata-se do córrego do Angelim como referência comum da memória que selava o recorte espacial de seus habitantes, apresentando-se assim a tentativa de titulação coletiva de toda a bacia do Angelim, o que geraria um território de aproximadamente 11 mil hectares.

Após o fracasso do estudo coletivo, os territórios das comunidades foram separados. No caso de Angelim I, o território a ser pleiteado compreende a cerca de 2 mil hectares, segundo moradores da comunidade. Eles também afirmam que o técnico que atualmente está desenvolvendo o estudo, conversou com a comunidade no sentido de reduzir o território, argumentando que haveria maiores chances de consegui-lo.

Dentina: (...) E hoje..aí eles falam assim: o território é muito grande, se for a demarcação, que as pessoas num dá conta pra trabalhar [argumento do técnico responsável pelo RTDI da comunidade, segundo relatos, que sugeriu o pedido de demarcação de uma área menor]. Certo, num dá. Mas uma família, ela depende de um pedaço de terra bem grande. Muito mesmo, de 4 a 5 alqueires de terra. Ou mais, porque se você for criar porco, criar galinha, criar peru, criar gado, cavalo, tudo tem que ter um espaço, né..aí já penso? dez famílias tudo ocupando esse espaço, com essas criação. É muita terra, né. Num dá, né. Eles acham que esse pedaço de terra tá muito grande, né. Agora quando é essa bitela dessa firma enorme, aí num acha que tá grande, não (65 anos, entrevista concedida a autora em julho/2013).

As dificuldades burocráticas e a morosidade do INCRA arrastam os processos do Sapê que carregam a esperança pelo território. Os primeiros estudos realizados foram nas comunidades de Linharinho e de São Jorge, nos anos de 2004 e 2005. Dez anos depois e nenhuma titulação. Essa é a realidade do Sapê e de tantos outros lugares no país. Segundo dados do INCRA79, até hoje apenas foram emitidos 138 títulos em 123 Territórios, correspondentes a 206 comunidades, diante de 1.227 processos abertos, que em alguns casos, datam de 2003.

79 Disponível em: http://www.incra.gov.br/index.php/estrutura-fundiaria/quilombolas. Acesso em março/2014.

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Tabela 16: Processos abertos para titulação de terras quilombolas em 2013

Fonte: Incra, 2013.

Esse quadro insere-se no contexto de desigualdade estrutural fundiária brasileira, que nos remonta à Lei de Terras de 1850. Além de estabelecer a propriedade privada a partir da compra de terras, e direcionar seu acesso à elite nacional, distinguiu e classificou a população anteriormente escravizada em “libertos”, impedindo seus processos de regularização de terras em comparação com os demais. Como afirma Leite (2010):

A primeira Lei de Terras de 1850, redigida no evidente contexto de esgarçamento e saturação do sistema escravista, contribuiu substancialmente para tornar invisíveis os africanos e seus descendentes no novo processo de ordenamento jurídico-territorial do país. Ao negar- lhes a condição de brasileiros, segregando-os através da categoria

“libertos” esta lei inaugura um dos mais hábeis e sutis mecanismos de

expropriação territorial (p. 19).

A balança da estrutura fundiária concentrada pesa historicamente. O avanço que prevê o direito a terra por indígenas e quilombolas a partir da Constituição de 1988, esbarra nas estruturas de poder do Estado, dificultando em demasia a concretização desse direito.

Uma questão importante no contexto de titulação dos territórios quilombolas é o processo de desapropriação necessária para regularizar aquele território com um título coletivo e inalienável (pró-indiviso) da terra às comunidades80, pois há de se mexer nos títulos, nas propriedades e em suas benesses que transpassam esse território, atingindo assim o mercado de terras e as escalas de poderes. Como salienta a advogada e integrante da Secretaria Nacional de Direitos Humanos que participou da Missão de averiguação de violação ao DHAA81 no Sapê do Norte e trabalhou em alguns RTID’s da região, Mariza Rios:

80 Como estabelece a Instrução Normativa n.º 20, de 19 de setembro de 2005 (INCRA).

105 M: Eu acho que quando a gente vai falar de território, a gente vai falar de um elemento que é extremamente causador de grandes divisões, que é o elemento da propriedade..(...) a reguralização da propriedade no Brasil, ela vem da Lei de Terras, de 1850 (...). Naquele momento, antes de 1850, como é que você garantia a propriedade, qual era o elemento principal que vai dizer que essa propriedade é sua, era o cultivo..sabia? Era o cultivo. (...) Depois, com a Lei de Terras, a Lei 601, ela vem dizer o seguinte, não é mais o cultivo, mas é o título que você registra no cartório.. é que vai dizer que você tem a propriedade..e aí, a gente tem, a propriedade vira negócio, a propriedade vira meio econômico e aí, minha filha, quem tem mais dinheiro compra. E quem tem mais dinheiro, paga o cartório e registra o título, num é verdade? Então, aí, você tem uma revolução na lógica da propriedade do Brasil. Com isso, os territórios indígenas e os territórios quilombolas, eles foram se perdendo. (...).perderam boa parte desse território que era deles. No caso do Espírito Santo, no norte é uma lei de 1970, (...) que é a regularização fundiária que se deu em 1970, onde as grandes empresas adquiriram a preço de banana, na feira, né..e aí plantaram eucalipto, no caso do norte do estado. (...) aí você perde o território, recuperar esse território num é uma questão econômica , num é uma ausência de dinheiro, mas é uma questão política. Você precisa desagradar a alguém..(...) ora, você vai desagradar a grande propriedade, ora você desagrada a pequena produção, num é isso. Quando você tem um conflito, quando o governo faz a..em relação aos indígenas e aos quilombolas, pior ainda..por que? Porque vai passar por um processo que é um processo que não é muito lucrativo, a desapropriação não é lucrativa. Você desapropria terra nua e você paga produção, você paga as benfeitorias, mas quem determina o valor da sua benfeitoria não é você, é o Estado. (...). Então eu tiro do mercado. Aí eu desaproprio. Nesse processo de desapropriação, quem adquiriu o título de uma certa forma, perde..e aí você tem um acirramento do conflito(...). E a perda do território.. hoje o Brasil vive uma situação que eu acho mais séria no direito brasileiro, é que o próprio Estado brasileiro reconhece que quem é..comprou mesmo que fraudulento, comprou de boa fé, porque não sabia. E ao o Estado tem que comprar de volta (...) (Entrevista concedida a autora em novembro/2013).

Esse quadro também facilita o processo de aproximação das empresas com as comunidades no sentido de ser a possibilidade mais viável e presente para a comunidade de receber auxílios. Além disso, esse contexto obriga essas comunidades a investirem em outras formas de garantia da sobrevivência, fomenta o desânimo e facilita divisões internas quanto à luta pelo território quilombola.

No Sapê, a luta pelo território e pelo reconhecimento enquanto sujeitos de direito apresentou grande mobilização e coesão do início a meados da década de 2000, através das apropriações e luta por seus direitos que resultaram na Associação

Afrocultural Benedito Meia-Légua82. Depois, com a criação da Comissão Quilombola

do Sapê do Norte, articulada na Rede Alerta contra o Deserto Verde e na CONAQ, e

82

Essa associação ainda teve outra precursora no que tange à mobilização no movimento negro, a Associação Afrocultural Benedito Meia-Légua.

106 nos processos de pesquisa da Koinonia/Fase e dos Laudos Territoriais das Comunidades. Ainda nesse sentido, as comunidades começaram a realizar dois eventos: o Grito Quilombola e o Festival do Beiju. O primeiro constituindo-se em manifestações, visando visibilidade e reivindicações da luta quilombola; e o segundo, um momento de revalorização e revitalização da cultura quilombola, voltado para a culinária, festa, danças, brincadeiras e música.

Nessa década, pode-se amadurecer o debate sobre os direitos constitucionais e sobre a identidade quilombola, que ia sendo redescoberta, retrabalhada.

Até então, a categoria “quilombo” não compunha o aparato das

representações que estes grupos construíam em relação a si próprios e a seu território expropriado. As indagações a respeito de seu tempo de vida naquele lugar traziam à tona o referencial da ancestralidade africana: as afirmações muito escutadas “ah, sou nascido e criado aqui”, “meus pais eram daqui, meus avós também”, ou ainda “minha avó veio da África, falava enrolado”, eram fundamentais para a legitimação do direito apontado pelo Artigo 68 das

Disposições Constitucionais Transitórias (1988). O sentido da identidade quilombola passava a nascer coletivamente a partir deste momento, iniciando-se como uma identidade atribuída – inicialmente pelos apoiadores das comunidades negras do Sapê do Norte, que lhes traziam a questão dos direitos oriundos desta identidade - e caminha para uma identidade incorporada e elaborada pelo grupo, enquanto estratégia de sua luta social (FERREIRA, 2009:249).

A passagem da atribuição externa para a identidade elaborada tem suas bases em um processo de reconhecimento mútuo, aonde se reconhece enquanto sujeito de direito, pertencente a um grupo específico, sem, contudo, ser engessado. Obviamente, essa incorporação e elaboração identitária é um processo particular em cada lugar e reforça assim as referências de pertencimento e diferença, bem como a luta pela autoafirmação a partir do movimento de autoatribuição. Como bem aponta Leite,

(...) percebeu-se em longos anos de debate, que o sujeito do direito referido pelo dispositivo constitucional não poderia ser objetificado através de um rótulo, selo ou carimbo. A identidade social não é um estado fixo, imutável, ou algo que pode ser imputado desde fora e de modo unilateral, mas, acontece desde uma dinâmica relacional que envolve todo o conjunto de forças em movimento na sociedade. O respeito ao princípio de autodeterminação dos povos, no qual se inclui a autoidentificação está descrito na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho da qual o Brasil é um dos signatários. O conceito da identidade social a que me refiro, dá espaço para o reconhecimento das instâncias organizativas dos grupos que se autoreconhecem a partir de noções de pertenças construídas e legitimadas no interior dos próprios grupos, embora decorrentes de dinâmicas e forças

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sociais em movimento. O direito intitulado “quilombola” emerge no cenário de redemocratização do país como um dos vetores representativos de grupos até então invisíveis no cenário político nacional (2010: 20).

A construção dessa pertença, contudo, não obedece a uma dinâmica linear e homogênea, sendo fruto de processos desiguais de apropriação e reconhecimento e de disputas internas no que tange à memória e à identidade.

(...) a etnicidade refere-se aos aspectos das relações entre grupos que consideram a si próprios como distintos. Do ponto de vista da interação, o processo de identificação étnica se constrói de modo contrastivo, isto é,

pela “afirmação do nós diante dos outros” (CARDOSO DE OLIVEIRA,

1976: 5). A partir de Barth (1969), as diferenças culturais adquirem um elemento étnico não como modo de vida exclusivo e tipicamente característico de um grupo, mas quando as diferenças culturais são percebidas como importantes e socialmente relevantes para os próprios atores sociais (O´DWYER, 2010:45).

O reconhecimento enquanto grupo distinto que conforma uma especificidade étnica é inicialmente alimentado no Sapê pelo conflito, que se constitui em um momento elementar de autoafirmação do “nós” diante do “outro”. À medida que esse conflito se atenua e/ou se transforma, há uma oportunidade de acirramento da disputa pela memória e identidade, vinculada à estratégias de manutenção e reprodução da vida.

Em Angelim I, essas estratégias passam por práticas historicamente construídas enquanto grupo e assim vinculadas a uma característica identitária comum, mas também passam por novas estratégias vinculadas à presença e à racionalidade das firmas, dado que estas estão materializadas em seu território e se aproximam também cada vez mais através de suas estratégias renovadas de gestão junto às comunidades do Sapê. Esse quadro, por sua vez, nos dá algumas pistas sobre a heterogeneidade das comunidades do Sapê e o atual cenário de luta pelo território quilombola.

Contemporaneamente, portanto, o termo Quilombo não se refere a resíduos ou resquícios arqueológicos de ocupação temporal ou de comprovação biológica. Também não se trata de grupos isolados ou de uma população estritamente homogênea. Da mesma forma nem sempre foram constituídos a partir de movimentos insurrecionais ou rebelados mas, sobretudo, consistem em grupos que desenvolveram práticas cotidianas de resistência na manutenção e reprodução de seus modos de

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vida característicos e na consolidação de um território próprio. A identidade desses grupos também não se define pelo tamanho e número de seus membros, mas pela experiência vivida e as versões compartilhadas de sua trajetória comum e da continuidade enquanto grupo (O´DWYER, 2010: 43).

Benzer Belgeler