A seguir serão descritos os procedimentos dos cinco estágios envolvidos com o processo de avaliação da equivalência semântica.
4.3.6.1 Estágio 1: Tradução
A primeira fase da adaptação consistiu em duas traduções da EBAS – Adult Version para o Português (T1 e T2), feitas, respectivamente, por um profissional com experiência na área temática (epilepsia) com língua materna portuguesa e fluência na língua inglesa (T1) e, a outra, por um professor de língua inglesa com formação em Letras e também com língua materna portuguesa (T2). As duas versões foram realizadas de forma independente pelos profissionais sem que eles tomassem conhecimento da tradução feita pelo colega (APÊNDICES H e I).
4.3.6.2 Estágio 2: Retrotradução
Neste estágio, dois tradutores bilíngües diferentes, totalmente cegos para a versão original do instrumento, realizaram a retrotradução das versões T1 e T2 para o idioma original. O primeiro tradutor tinha formação profissional na área de Ciências Humanas, com fluência em língua inglesa e língua materna portuguesa, enquanto o segundo tradutor era de língua materna inglesa, com fluência na língua portuguesa e residente no Brasil com formação na área das Ciências Exatas. As retrotraduções ocorreram de modo independente, além de cegas em relação ao perfil dos profissionais da primeira etapa, gerando as versões R1 e R2 (APÊNDICES J e K).
4.3.6.3 Estágio 3: Apreciação formal de equivalência semântica
No estágio três, um terceiro tradutor bilíngüe, ligado à área em estudo, com língua materna portuguesa e fluência na língua inglesa realizou a apreciação formal da equivalência semântica entre o original e cada uma das traduções (T1 e T2) e retrotraduções (R1 e R2).
Dois significados lingüísticos distintos foram apreciados. O primeiro diz a respeito à avaliação da equivalência entre o original e cada uma das traduções e retrotraduções sob a perspectiva do significado referencial dos termos ou palavras constituintes, ou seja, as idéias ou objetos do mundo a que uma ou várias palavras se referem. Se há o mesmo significado referencial de uma palavra no original e na respectiva tradução, presume-se que existe uma correspondência literal entre elas (REICHENHEIM; MORAES; HASSELMAN, 2000; HERDMAN; FOX-RUSHBY; BADIA, 1998; BEATON et al., 2000).
O segundo aspecto diz respeito ao significado geral de cada parte do instrumento (introdução, vinheta, itens e opções de resposta), contrastando-se o original com o que foi captado na tradução e retrotradução. Essa correspondência transcende a literalidade das palavras, encampando aspectos mais sutis, como o impacto que um termo tem no contexto cultural da população-alvo. A apreciação é necessária porque a correspondência literal de um termo não implica que a mesma reação emocional ou afetiva seja evocada em diferentes culturas. Essa questão é particularmente relevante em instrumentos para a captação empírica de conceitos culturalmente construídos, pois uma palavra ou assertiva usada com
determinada intenção no contexto de origem pode não produzir o mesmo efeito na população-alvo da nova versão. A substituição por outro termo permitiria resgatar plenamente a equivalência desejada (REICHENHEIM; MORAES; HASSELMAN, 2000; HERDMAN; FOX-RUSHBY; BADIA, 1998; BEATON et al., 2000).
Para tal, utilizou-se um formulário específico, contendo a parte introdutória do instrumento, a história sobre a criança com epilepsia (vinheta) e os itens das Partes I e II tanto da versão original quanto das versões T1/R1 e T2/R2. Nos formulários usados para avaliar o significado referencial optou-se pela Escala Visual Analógica – EVA59 (STREINER; NORMAN, 2008) como opção de resposta, o que permitiu que a equivalência fosse julgada de forma contínua entre 0% e 100%. Para a avaliação do significado geral, utilizou-se uma classificação em quatro níveis: inalterado, pouco alterado, muito alterado ou completamente alterado. Além disso, o avaliador apresentou, quando necessário, propostas ou substituições referentes às versões apresentadas, visando assim, melhorar a adaptação do item (APÊNDICE L).
Ao término da avaliação, as respostas foram analisadas pela pesquisadora e a partir dessa análise, foi possível propor uma Versão de Consenso (VC), que incorporava itens oriundos de uma das duas versões trabalhadas ou modificações para melhor adequação de todo o instrumento (APÊNDICE M).
4.3.6.4 Estágio 4: Equivalência idiomática e experimental ou cultural
A quarta etapa do processo de avaliação semântica teve como objetivos realizar a equivalência idiomática e experimental ou cultural da Versão de Consenso (VC), além de identificar e encaminhar os problemas de cada uma das etapas pregressas.
Para avaliar tais equivalências, doze profissionais do grupo de especialistas, exceto o avaliador envolvido com a apreciação formal de equivalência semântica, receberam um kit
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A Escala Visual Analógica (EVA) foi utilizada pela primeira vez por volta do ano de 1930, tornando-se popular a partir de 1960. A EVA é composta de uma linha de comprimento fixa de tamanho usualmente equivalente a 100 mm, a qual ancora no 0 o valor mínimo para o construto que se deseja avaliar e no 10 ou 100 o valor máximo, devendo o respondente assinalar entre os diversos valores disponíveis aquele que julga mais próximo de sua percepção ou avaliação (STREINER; NORMAN, 2008).
contendo uma carta explicativa e duas avaliações: idiomática e cultural (APÊNDICES N e O). Todas as análises foram realizadas comparando-se os itens da versão de consenso com os itens da escala original.
De acordo com Herdman, Fox-Rushby e Badia (1998), a equivalência idiomática consiste na comparação dos itens no que se refere aos termos/palavras entre o instrumento original e a versão adaptada, verificando para isso, os significados lingüísticos sob a perspectiva do significado referencial (denotativo) e correspondência literal, isto é, busca-se manter a correspondência de sentido da escala original.
Para isto, coube ao comitê de especialistas verificar se as expressões da EBAS – Adult Version criada no Canadá e da Versão de Consenso (VC) eram correspondentes ou não correspondentes (APÊNDICE N) isto é, verificar a adequação de certas expressões idiomáticas, avaliando a equivalência de significado/sentido entre ambas.
A equivalência experimental ou cultural consiste na avaliação da coerência dos termos usados na versão adaptada do instrumento, a fim de buscar o entendimento e compreensão dos mesmos no contexto cultural da população. Essa avaliação transcende a correspondência na literalidade das palavras (HERDMAN; FOX-RUSHBY; BADIA, 1998). Solicitou-se ao comitê de especialistas a avaliação da coerência entre os termos utilizados na VC (APÊNDICE O), almejando a compreensão e adequação dos itens em relação às experiências vividas pela população alvo da escala, dentro do seu contexto cultural. Para isso, o comitê avaliou os itens da VC, verificando se os mesmos eram compreensíveis e adequados para o entendimento da comunidade em geral.
Após o término das avaliações, os membros do comitê de especialistas retornaram as avaliações com suas análises. A partir disso, a pesquisadora realizou uma contagem atribuindo valores em porcentagem para cada item no qual houve concordância entre os membros do comitê, sendo retido no elenco o item com concordância de cerca de 80% entre os juízes, segundo o critério apresentado por Pasquali (1998).
Com a finalização dessa etapa, obteve-se a Versão de Consenso 1 (VC1) da EBAS – Adult Version (APÊNDICE P) e iniciou-se o pré-teste com a população alvo da escala.
4.3.6.5 Estágio 5: Pré-teste da Versão de Consenso 1 – VC1
O quinto e último passo da avaliação de equivalência semântica envolveu o pré-teste da Versão de Consenso 1 (VC1) que foi aplicada em uma amostra composta por 30
voluntários adultos da população em geral, visando avaliar a aceitabilidade, a compreensão e o impacto emocional da escala. Os dados foram coletados individualmente por meio de auto- preenchimento. Foi solicitado aos entrevistados que lessem e parafraseassem a parte introdutória do instrumento, a história sobre a criança com epilepsia (vinheta) e cada um dos itens dos instrumentos visando identificar trechos não compreensíveis. A partir das evidências encontradas no pré-teste e das sugestões fornecidas pelos participantes, foram realizados os ajustes semânticos finais do instrumento, chegando-se a versão brasileira da EBAS – Adult Version para investigação psicométrica (APÊNDICE Q).