A cidade de Petrolina-PE tinha em 1970, de acordo com Bloch (1996), cerca de 60 mil habitantes. Em 1996, essa população já ultrapassava 200 mil habitantes, apresentando um verdadeiro boom populacional. Hoje a população de Petrolina é de aproximadamente 250 mil habitantes.
É evidente que em condições normais não haveria uma expansão demográfica de tamanha grandeza. Ainda segundo a pesquisa de Bloch, tal explosão demográfica é explicada e atribuída, em especial, ao avanço da agricultura irrigada no Submédio São Francisco.
Com a implantação do Projeto de Irrigação Senador Nilo Coelho, o maior projeto público de irrigação do Submédio São Francisco, a agricultura irrigada sofreu um grande impulso, provocando a migração de milhares de nordestinos atraídos pela oferta de trabalho em diversas áreas economia.
De acordo com uma pesquisa realizada em 1994 pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Juazeiro-BA, a irrigação não se limitou a mudanças da face agrária da região, ela provocou uma verdadeira revolução regional, mudando a estrutura social, as dotações de capital e tecnologia e as relações de mercado. Mas essa revolução na agricultura produziu também desigualdades.
chegaram à região, atraídos, principalmente, pelas políticas de crédito e investimento.
Os dados da pesquisa da CPT mostram que entre 1960 e 1980, no setor industrial o número de estabelecimentos quase quintuplicou nos municípios de Juazeiro e Petrolina; no comércio, o número de estabelecimentos foi multiplicado por seis; no setor de serviços, por 10. No setor agrícola a estimativa é de que até 1990, as culturas irrigadas teriam gerado 50 mil empregos diretos adicionais.
A análise dos autores da pesquisa é de que entre aqueles que não se beneficiaram com as transformações, estão os que tiveram de sair de suas terras para dar lugar à implantação do perímetro irrigado; mesmo aqueles que foram beneficiados com um lote, mas por falta de meios para pagar os custos de modernização, perderam a sua posse e passaram a ser empregados das terras que antes foram suas.
Os dados disponíveis do censo agropecuário (realizado pelo IBGE em 1985) mostram a precariedade do emprego agrícola nessa região, onde cerca de dois terços dos empregos agrícolas são temporários.
Na área urbana, de acordo com Bloch (1996), 19,2% dos jovens entre 10 e 17 anos cumpriam jornada de trabalho de até oito horas diárias, sem direito às garantias previstas em leis; apenas 6,6% possuíam registro em carteira e 93,7% ganhavam menos de um salário mínimo.
De acordo com os dados do Distrito de Irrigação Senador Nilo Coelho, de setembro de 2005, a agricultura irrigada é responsável pela geração de 90.622 empregos diretos e indiretos (dentro e fora do perímetro). É necessário apontar que só o projeto Senador Nilo Coelho gera em torno de 75.807 empregos diretos e indiretos.
A cidade de Petrolina pode ser imaginada com duas faces diferentes: uma antes da Irrigação e outra depois da implantação do principal Projeto de Irrigação Senador Nilo Coelho, conforme mostra a Figura 11.
Fonte: Cedida pela CODEVASF, em 2005. Figura 11 – Virando a página.
O grande contingente de trabalhadores da agricultura irrigada distribuídos no perímetro irrigado do Submédio São Francisco tem as mais diferentes origens. Segundo Bloch (1996), entre as mais representativos estão os chegados do interior de vários estados nordestinos – atraídos pelo “milagre” da “Califórnia Brasileira”, já referida antes neste trabalho –, aqueles que são ou já foram pequenos produtores de “roça de chuva”. Desses, uma parte trabalha sazonalmente na região e volta para as suas terras na época das chuvas, outra parte é formada por famílias de “retirantes” que abandonaram suas terras e se fixaram nas periferias das cidades de Petrolina e Juazeiro. Existem também aqueles do próprio Submédio São Francisco, oriundos da pequena agricultura e da pesca, que tiveram as suas atividades enfraquecidas, tornando-se insuficientes para o sustento de suas famílias; como também os antigos moradores das áreas
aqueles que foram contemplados, mas não conseguiram manter a posse, e passaram a ser empregados, como já frisamos anteriormente nesta dissertação.
Trabalhadores de todas essas origens engrossam o contingente de assalariados diaristas, safristas e permanentes dos projetos irrigados dessa região.
Ainda de acordo com Bloch (1996), mesmo com elevado número de postos de trabalho temporário gerados pela agricultura irrigada, principalmente no período de colheita, permanece um grande desequilíbrio entre a demanda de mão-de-obra e a oferta. Isso porque a demanda potencial é de 2 milhões de sertanejos da zona rural e a oferta potencial gerada pela irrigação é de 100 mil empregos agrícolas, à época da pesquisa. Essa situação favorece a precarização do trabalho e provoca o inchamento das cidades da região, mas, mesmo assim, a irrigação ainda não é capaz de conter o êxodo rural em direção às grandes metrópoles, como planejado inicialmente (BLOCH, 1996, p. 50).
Somente a uva emprega, segundo pesquisa realizada por Bloch (1996) com os empresários da região do Médio São Francisco, cerca de 20 mil trabalhadores, predominando os postos de trabalho ocupados pelas mulheres. A uva é também um dos setores mais desenvolvidos da agricultura irrigada, seja do ponto de vista da tecnologia, seja do ponto de vista dos aspectos trabalhistas. Mesmo assim é possível se verificar flagrantes inobservâncias aos direitos dos trabalhadores. Pode-se dar como exemplo, os casos em que os trabalhadores, que mesmo permanentes, são obrigados a cumprir certa cota diária chamada de “produção”, que varia conforme o tipo de trabalho, por exemplo, 350 cachos na colheita de uva, por dia. Quem não atinge a cota tem seu dia descontado ou deve ficar até mais tarde pra atingir a produção, mas quem produz além da cota nem sempre recebe acréscimo de salário.
Mas de acordo com a pesquisa realizada em 1994 pela Comissão Pastoral da Terra, a questão do desrespeito aos direitos dos trabalhadores rurais tem sido enfrentada pelos movimentos sindicais e apesar de a resistência da classe patronal ser muito forte, os trabalhadores têm conseguido alguns avanços em suas conquistas. Ainda segundo a pesquisa, graças ao maior grau de organização das entidades sindicais na cidade de Petrolina-PE, é possível verificar-se a
existência de uma grande melhoria das condições de trabalho na fruticultura irrigada nesse município.
Em pesquisa realizada no Sindicato Rural de Petrolina, constatou-se a existência de 4.121 trabalhadores sindicalizados no PISNC, desse total encontram-se no Núcleo 04, 122, sendo 82 mulheres sindicalizadas. É um número exíguo de trabalhadores sindicalizados, considerando-se a quantidade de postos de trabalho gerados no PISNC.
Não obstante a afirmação da pesquisa da CPT de que as entidades sindicais de Petrolina – à época, 1994 – atingiram um maior grau de desenvolvimento em relação à cidade de Juazeiro-BA, parece-nos ainda bastante tímida a atuação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Petrolina, talvez por faltado do exercício de sua verdadeira função.
CAPÍTULO 2
A MULHER E O TRABALHO NA AGRICULTURA
2.1. As transformações do mundo do trabalho na agricultura nos últimos