A origem dessa manifestação e da festa em louvor a Nossa Senhora do Rosário possui diferentes versões, entre elas, as versões míticas que justificam o surgimento de alguns ternos, bem como da existência deste festejo, durante o período colonial. Estas versões são as mais contadas pelos mestres congadeiros hoje em dia, sendo consideradas as mais autênticas, variando de uma região para outra, todas verdadeiras, porque acreditadas. Entre as principais versões do mito de origem das festas encontra-se a lenda de Chico Rei em Vila Rica quando dos primeiros séculos da exploração do ouro na região. Era conhecida como a festa dos
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negros, manifestação folclórica realizada pelos escravos e iniciada por Chico Rei, o primeiro rei negro dos escravos em Minas Gerais.
De acordo com a versão, quando Chico Rei foi trazido como escravo para o Brasil era rei de Congo dos Quicuios na África. Ao enriquecer-se com a exploração de uma mina abandonada em Vila Rica, o rei africano teria libertado muitos escravos e criado a primeira irmandade dos negros livres de Minas Gerais (MARTINS, 1991). Quando foi libertado, Chico Rei em promessa a Nossa Senhora, teria organizado a primeira festa dos negros na província, realizada na igreja de Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário de Alto Cruz, na antiga Vila Rica, em 1747 (MARTINS, 1991). A partir de então a festa do congado teria se tornado um sincrético ritual composto de duas partes; uma, de conteúdo católico, litúrgica, que inclui missas e outros “ofícios religiosos” e outra popular, constituída pelo hasteamento do mastro, apresentações das guardas de congado, coroação de reis congos, cavalhadas e números musicais.
A origem da festa ligada ao nome de Chico Rei encontra-se atrelada também à aparição da santa do Rosário no cativeiro, sendo que as diferentes versões deste mito se interligam à busca de liberdade e ao sofrimento da santa pelos escravos em vista da exploração. Segundo Costa, o mito relacionado à aparição de Nossa Senhora possui particularidades próprias a cada local que realiza a festa e aos diferentes congos que as compõem, pois, ainda hoje, esta manifestação tem como um de seus significados o reconhecimento social por parte de seus membros (COSTA, 2006, p. 128).
Em verdade, apesar das diferentes versões em que Nossa Senhora aparece no mar, na gruta, na senzala, no rio, na lapa, todos os eventos relacionados ao seu salvamento possuem a mesma estrutura. De acordo com Garone, independente do local, os mitos de origem possuem os mesmos aspectos: “os brancos são desprezados pela santa, os congos os primeiros a empreender uma tentativa de resgate e somente os negros mais simples e humildes, através da magia que emana de sua dança e música, é que conseguem resgatá-la” (GARONE, 2008, p. 104). “A Sra. do Rosário torna-se, deste modo, símbolo da identidade englobante de escravizado, bem como de sua diversidade étnica e das privações ligadas a essa condição social” (COSTA, 2006, p. 195).
As estórias relacionadas aos mitos de origem servem assim como suporte para manutenção da tradição, pois transmitem a ela um sentido histórico ligado à raiz de muitas comunidades. A indiferença da santa quanto aos brancos remete a um mito em que os negros são valorizados e encontram um lugar social pela proteção de Nossa Senhora. A santa
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protetora dos homens pretos, representa assim a liberdade do cativeiro proporcionada por ela, pelo menos nos dias de festa. A consagração da crença na santa por ocasião dos eventos festivos representou a aliança entre o catolicismo e a arte popular, regada à alegria, à fartura e ao desregramento, aliando o profano e o sagrado num evento que tinha por função o reconhecimento.
Nossa Senhora é a santa branca e coroada que apareceu para os negros escravizados. Ao lado da senzala (na gruta, na floresta, no rio) ela se compadecia do sofrimento dos cativos e derramava lágrimas que se convertiam em pétalas de rosa. Ao perceber a presença da santa os senhores construíram uma capela e para lá tentaram conduzir a sua imagem. No entanto, a cada tentativa a santa novamente aparecia junto aos negros até que estes dançando e cantando nos ritmos congos a carregaram para a igreja onde ela permaneceu definitivamente (COSTA, 2006, p. 48).
A origem do louvor a Nossa Senhora do Rosário possui assimetrias quanto às suas versões, ao contrário da história de devoção a São Benedito que está ligada, nas comunidades que a praticam, a um mesmo mito. Negro, escravo, cozinheiro, São Benedito levava comida aos escravos na senzala e escondido de seus senhores, alimentava aqueles que passavam fome. Ao ser descoberto pelo seu dono, realizou um milagre no momento de seu açoite; seu carrasco teve imobilizado seu braço por uma força maior, e este se viu livre da punição que lhe foi estabelecida. Esta proximidade do santo com os escravos, por ser igualmente cativo e negro, estabeleceu, assim, uma relação direta entre o mito e a história, não sendo necessária sua ressemantização como no caso da santa branca. Neste sentido, São Benedito ainda nos dias de hoje, possui relação com a comida, sendo sua presença na cozinha de muitas famílias congadeiras a garantia de abundância e fartura, todos os anos.
As estórias ligadas à origem de Santa Efigênia são, em contraposição, mais esparsas, sendo que alguns locais reconhecem sua figura, mas não a festejam, como a São Benedito e a Nossa Senhora do Rosário. Seu reconhecimento guarda ligação com o cativeiro, sendo também uma santa negra que protege os escravos pela semelhança da cor. A função específica é, no entanto, por nós desconhecida quando embasada num contexto geral, guardando particularidades das festividades que a tem também como santa protetora dos congadeiros.
A origem mítica da festa de Nossa Senhora do Rosário perpassa, portanto, estas histórias lendárias de crenças em milagres e santos que, no tempo do cativeiro, vigiavam e guardavam os negros, protegendo-os, de uma forma ou outra, da escravidão a que estavam submetidos. Estes mitos refletem também a tentativa de reconhecimento por parte dos homens
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pretos que, protegidos por uma santa branca, puderam almejar uma mudança social, calcada na mistura de raças, relacionada à preferência de Nossa Senhora pelos escravos. Ao mesmo tempo, a devoção aos santos de cor reafirma hoje a raiz na celebração do cativeiro que, rememorado como tradição, relembra um período de exploração, marcado, entretanto, pela devoção, pela festa, e pelo tempo sacralizado. Ao contrário do cotidiano este tempo aparece, por sua vez, celebrado nas festas de reinado onde, brevemente, os escravizados se viam liberados dessa “eterna” condição.