1.4.1 Nem “moralismo”
86 JUNGES, José Roque. Evento Cristo e ação humana. Temas fundamentais da ética teológica. São Leopoldo:
Unisinos, 2001, p. 25.
87
VIDAL, Marciano. Nova Moral fundamental. São Paulo: Santuário, 2003, p. 217.
88 VIDAL, Marciano. Para conhecer a ética cristã. São Paulo: Paulinas, 1993, p. 14. 89 VIDAL, Marciano. Para conhecer a ética cristã. São Paulo: Paulinas, 1993, p. 15.
Inicia-se com o que seja o moralismo. Se ao pesquisar no dicionário Aurélio esta palavra, a conceituação aparece como: ―moralismo:tendência a priorizar de modo exagerado a consideração dos aspectos morais na apreciação dos atos humanos‖90. O Dicionário de filosofia define por:
Sistema filosófico que defende a primazia exclusiva da moral. Excesso de preocupação com questões de moral, tendendo para a intolerância e o preconceito; puritanismo; rel. doutrina segundo a qual os deveres morais (para consigo mesmo e para com os outros) prevalecem sobre os deveres religiosos (para com Deus), ou mesmo constituem toda a moral91
Sabe-se que no passado não muito distante, na vida católica predominou uma interpretação extremamente moralizante. Desse modo o moralismo excessivo teve sua manifestação na apresentação da moral cristã com enfoque preferentemente ―heterônomo, em obediência à lei como forma de realizar a moralidade, e na insistência detalhista nos atos singulares‖92
.
Salienta-se que o cristianismo não é uma religião moral, como são algumas ‗sabedorias‘ orientais as quais funcionam a modo de religião. ―Nem é catalogada como tal no conjunto das religiões nem a sua estrutura interna corresponde à redução ao moral‖93.
Com isso há sempre o risco ou a tentação de reduzir a religião à moral: este é o perigo do moralismo. No passado pós-tridentino essa situação rondou muito a teologia e a própria catequese. Como cita Vidal:
Se, de mais a mais, se unir a essa exposição moralizante da religião o mandado pela
lei eclesiástica, não teremos então apenas ―moralização‖, mas também ―juridicização‖ da religião. [...] a dimensão religiosa é essencial à moral cristã, não
entendida porém, como ―objeto moral‖, mas como ―fundamento‖ ou força inspiradora do compromisso ético. Entendida assim dever-se-ia enfatizar a dimensão religiosa nas proposições fundamentais proporcionando à moral cristã a força libertadora contida na religião cristã. Ao fazer, porém, dos atos religiosos
90 Novo Dicionário Aurélio – CD-ROM 91
DICIONÁRIO DE FILOSOFIA DE CAMBRIDGE – São Paulo: PAULUS, 2006.
92 VIDAL, Marciano. Dez palavras-chave em Moral do futuro. São Paulo: Paulinas, 2003, p. 78. 93 VIDAL, Marciano. Nova moral fundamental. São Paulo: Paulinas, 2003, p. 218.
―mandamentos da Igreja‖ ou ―preceitos eclesiásticos‖ corre-se o risco da ―moralização‖ da religião e do ―legalismo‖ da moral cristã94.
O certo é que a fé cristã e o seu seguimento não são um cumprimento de normas ou regras, de deveres e ou obrigações, mas em aceitar a Jesus como a Revelação definitiva de Deus, confessá-lo como Cristo, celebrá-lo mediante sinais da fé e comunicá-lo aos demais. ―Neste sentido, pode-se afirmar que o cristianismo não corresponde como nota característica e essencial à dimensão moral; entre suas categorias essenciais não esta a da obrigação95.
1.4.2 Nem “amoralismo”
Voltando ao Dicionário Aurélio encontra-se o seguinte em relação a esta expressão: Amoralismo: ―Amoralidade. Doutrina que nega a possibilidade de formulação de juízos morais, por não admitir que possam ter fundamento objetivo universal necessário ao caráter normativo categórico (relativo ou absoluto) que essencialmente os qualifica‖96. No Dicionário de filosofia encontramos a seguinte definição: ―amoralismo: negação da moralidade como norma de vida; quem não tem em conta os preceitos nem as leis da moral, ou que lhes é indiferente‖97
.
Segundo M. Vidal, o amoralismo é tido como negação de toda a moral universal. O amoral não é imoral. É aquele que não tem nenhuma consciência do bem e do mal, nenhuma consciência da existência de juízos morais. É preciso distinguir o amoralismo social, que é a ausência do sentido das convenções, e o amoralismo absoluto, que é a ausência total do sentido dos valores humanos em geral98.
De fato a sociedade hoje assenta-se nesta constatação: Vê-se por todas as suas esferas a presença de um tipo de homem amoral, o qual se gestou ao longo das últimas décadas99.
94 VIDAL, Marciano. Nova Moral fundamental e atitudes. São Paulo: Santuário, 2003, p. 86. 95 VIDAL, Marciano. Nova moral fundamental. São Paulo: Paulinas, 2003, p. 218.
96 Novo Dicionário Aurélio – CD-ROM 97
DICIONÁRIO DE FILOSOFIA DE CAMBRIDGE – São Paulo: PAULUS, 2006.
98Cf. VIDAL, Marciano. Nova moral fundamental. São Paulo: Paulinas, 2003, p. 218.
Com isso referenda ser o peculiar da época o aparecimento da amoralidade como sistema humano, ou seja, provocar a amoralidade, negar a moral, desmoralizar a humanidade.
Todavia, sabe-se que ao cristianismo corresponde como elemento integrante e imprescindível, com o intuito de realiza uma práxis histórica em coerência com a fé e também a celebração cultual. De outro modo seria uma realidade ―alienada‖ e ―alienante‖100
. Na opinião de M. Vidal: ―a fé que não incide na realidade humana é um fator alienado e alienante. Dentre as formas de incidência que adota a fé deve-se destacar a incidência empenhativa e transformadora. Essa é a ética‖101. A fé, como forma imanente e dinâmica da existência cristã no mundo, deve tornar-se compromisso.
1.4.3 Moral como “mediação prática” da fé
Nem o ―moralismo‖ nem o ―amoralismo‖ são formas corretas de articulação da
moral no conjunto da fé cristã. A articulação correta esta na aceitação da função peculiar que tem a atitude ética e o valor moral na existência cristã. Para o cristão a atitude ética brota da vivência religiosa e, ao mesmo tempo, serve de mediação entre a fé e o compromisso moral. O valor moral tem para o cristão uma função de mediação entre os valores religiosos e todos os valores restantes.102
Assim se deduz que a moral cristã pode ser definida como a mediação prática da fé. Se a fé e a celebração religiosa exigem o compromisso transformador intramundano, ―a moral vivida do cristianismo não é outra coisa que a mediação prática dessa fé e dessa celebração‖103
.
Leva-se em conta que a categoria de ―mediação‖ não se relaciona com a fé, mas com a moral. Segue Vidal ponderando: ―não é, portanto, a fé que é a mediação entre religião e o
100 VIDAL, Marciano. Nova Moral fundamental e atitudes. São Paulo: Santuário, 2003, p. 20. 101
VIDAL, Marciano. Moral de atitudes, moral fundamental. vol 1, São Paulo: Santuário, 1990, p. 20.
102VIDAL, Marciano. Nova moral fundamental. São Paulo: Paulinas, 2003, p. 219. 103 VIDAL, Marciano. Nova moral fundamental. São Paulo: Paulinas, 2003, p. 219.
compromisso intramundano, mas é a moral que se constitui em mediação entre a fé e o compromisso ético‖104
.
Comprova-se que ao longo da história os cristãos realizaram de diversos modos esse empenho moral que acabou transformando suas próprias vidas e também o mundo sobre o qual exercia influência. Por outro lado tem-se presente que ao longo dos séculos acabaram existindo variantes do cristianismo: como o próprio catolicismo, o luteranismo, o anglicanismo, a ortodoxia. Em cada uma delas houve e há a sua peculiaridade na hora de interpretar e de viver a dimensão moral da fé105.
Pode-se afirmar que o catolicismo desenvolveu muito o aspecto moral do cristianismo. Tanto é assim que se constata um amplo e profundo processo de
―moralização‖ da fé, sobretudo na etapa que corre desde o Concilio de Trento, até o Concilio Vaticano II. Ainda hoje em dia o que mais atrai a atenção ―nos de fora‖ da
Igreja Católica é a tomada de posição desta diante das questões morais (individuais, conjugais, familiares, políticas, econômicas, demográficas etc.)106.
Portanto, o que melhor define a moral cristã é a sua vinculação com o conjunto da fé. A moral cristã é ―moral religiosa‖, isto é, ela formula o esforço ético intramundano partindo do horizonte transcendente: introduz a transcendência no compromisso intramundano, o qual vai se comprometer mediante símbolos ético-religiosos, como a caridade e a esperança que ultrapassam o significado meramente ético107.