Nosso trabalho tem como objetivo analisar a concomitância e articulação dos sambaquis localizados no litoral sul de Santa Catarina numa perspectiva regional. Sendo assim, contemplaremos alguns estudos relacionados a trabalhos de âmbito regional e algumas definições utilizadas por autores que trataram esse tema. A arqueologia regional propõe o entendimento da ocupação humana em um determinado território através da busca de padrões de assentamento e detecção de sistemas de ocupação da paisagem, levando em conta que os grupos que ali se estabeleceram, o fizeram por meio de estratégias econômicas, simbólicas, políticas e sociais (Fish & Kowalewsky 1990). Nesta perspectiva, território e paisagem assumem um significado importante, uma vez que se tratam do espaço geográfico onde esses grupos humanos se estabelecem, vivem e interagem entre si e com o meio, criando referências de identidade com o mesmo. Segundo Fish (1999:203) padrão de assentamento pode ser entendido como “um conjunto de localidades culturalmente significativas, cada uma das quais ocupando uma posição específica em um determinado cenário, ou território, de modo a compor uma distribuição coerente”. Morais (2000:202), por sua vez, entende que “padrão de assentamento é a distribuição de sítios arqueológicos em determinada área geográfica, refletindo as relações das comunidades do passado com o meio ambiente e as relações 28 entre elas próprias no seu contexto ambiental (Yoffe & Sherratt 1997). Estratégias de subsistência, estruturas políticas e sociais e densidade da população foram alguns dos fatores que influenciaram a distribuição do povoamento, desenhando os padrões de assentamento”. Resumidamente podemos assumir que “padrão de assentamento” foi um conceito formulado com o intuito de verificar a disposição dos sítios arqueológicos em uma área geográfica, levando em conta as relações internas entre as atividades de um determinado grupo humano, suas relações com outros grupos, e com o meio onde se encontram. Sendo assim a análise do padrão de assentamento indica como se deram as relações das sociedades humanas com o meio, assim como com outras sociedades situadas em seu entorno. Quanto ao “sistema de assentamento”, tomamos aqui a definição proposta por Araújo (2001:88), sendo entendida como “a maneira pela qual uma comunidade se organiza no espaço ao longo dos ciclos sazonais. Pode-se dividir os sistemas de assentamento em sedentários ou móveis. Apesar de todos os sistemas terem de se reorganizar sazonalmente devido a diferenças na energia disponível no ambiente, alguns grupos respondem mudando a localização das habitações (móveis), enquanto outros não o farão por este meio (sedentários)”. No entanto o autor advoga que muitas vezes este conceito tem sido utilizado levando em conta que os sítios arqueológicos representariam áreas de habitação, o que nem sempre pode ser verificado. Alguns destes vestígios podem, de fato, ser interpretados como antigos locais de moradia, outros não, representando diferentes utilizações não relacionadas à habitação. Araújo argumenta ainda que o arqueólogo, em seu trabalho de campo, pode observar apenas vestígios relacionados a determinada ocupação, podendo verificar a distribuição destes na paisagem. Os sistemas de subsistência, organização comunitária ou padrão de assentamento, podem ser apenas inferidos, com base num padrão de distribuição destes vestígios. Deste modo, a plotagem das estruturas ou sítios arqueológicos não constitui a determinação de um “padrão de assentamento”, mas sim de um “padrão de distribuição”, definido pelo autor como: “Padrão de Assentamento” “a descrição das relações espaciais que os vestígios arqueológicos apresentam entre si e com a paisagem”. É só a partir do padrão de distribuição aferido que poderíamos pensar o sistema de subsistência, organização comunitária e sistema de assentamento. 29 Este trabalho de mestrado se incumbe da avaliação do padrão de distribuição dos sambaquis no entorno da paleolaguna de Santa Marta. A análise da distribuição dos vestígios proporcionará bases para compor um panorama regional, possibilitando testar modelos relacionados aos padrões de assentamento dos grupos humanos pretéritos que construíram estas estruturas. Como podemos ver, a arqueologia regional propicia trabalhos em áreas amplas, compreendendo a ocupação de um território com enfoque na longa duração, se constituindo em ferramenta apropriada para estudos arqueológicos em regiões pouco pesquisadas. Nesse sentido o enfoque em estudos de arqueologia regional se faz necessária no Brasil, onde a imensidão do território associada à pequena quantidade de especialistas acarretam a existência de amplas áreas ainda desconhecidas arqueologicamente. Araújo (2001) relaciona a adoção de análises de cunho regional na arqueologia estado-unidense a programas de arqueologia de contrato ou salvamento, em nosso país podemos dizer que os trabalhos de cunho arqueológico regional, ganharam força nas ultimas décadas do século XX, em grande parte, devido também a trabalhos de arqueologia de contrato, que avaliam o contexto arqueológico de áreas amplas antes que a implantação de empreendimentos cause impacto sobre os possíveis vestígios ali existentes. Em suma podemos perceber que ainda são poucos os trabalhos regionais de cunho acadêmico. Araújo (2001: 1) comenta: “A Arqueologia brasileira permanece carente de estudos regionais sistemáticos para que se torne um corpo sólido de conhecimentos. A acumulação de dados na disciplina ainda se faz de maneira assistemática, grandes áreas permanecem desconhecidas do ponto de vista arqueológico, e até mesmo a simples seqüência cronológica de acontecimentos, que constitui a base para se construir hipóteses e aplicar teorias, é ainda falha.” Levando em conta este pressuposto, nosso trabalho almeja estudar os sambaquis do litoral sul catarinense a partir da aplicação de um enfoque regional buscando diminuir a defasagem indicada por Araújo. Concordamos com o autor, observando que ainda são tímidos os trabalhos sobre contexto regional voltados a sítios litorâneos conchíferos, no entanto algumas pesquisas merecem destaque. Maria Dulce Gaspar (1991) realizou um dos primeiros trabalhos a utilizar abordagem regional sobre o registro arqueológico encontrado no litoral norte fluminense. O processo de ocupação sambaquieiro é analisado através das relações entre os sítios e destes 30 com o ambiente. A autora interpreta os sítios como monumentos que seriam marcos de identidade em um sistema sócio-cultural articulado. Sua característica como marco territorial, se destacando na paisagem, e a constatação de que grande parte deles são estruturas funerárias, apontam para sítios com um valor simbólico relacionado aos ancestrais que perduram por várias gerações. Através de análises espaço-temporais dos sambaquis do litoral fluminense, Gaspar propõe um modelo interpretativo que relaciona os grupos de sítios mais próximos entre si, como pertencentes a uma mesma unidade sociológica, que ocuparia um determinado território através da exploração conjunta com outras unidades sociais, indicando sobreposição territorial. Isso acarretaria trocas de bens, pessoas e idéias que podem ser inferidas a partir da padronização no que se refere à construção dos sítios, estruturas funerárias, indústrias líticas e osteodontomalacológicas, e padrão de assentamento. Marco Aurélio De Masi (2001), também tratou sobre o padrão de assentamento dos grupos sambaquieros, tendo como área de análise a Ilha de Santa Catarina. O autor constrói um modelo baseado na diferenciação de sítios de habitação e acampamento, observando que os locais de maior adensamento de sítios se encontravam em áreas com maior produtividade da lagoa. Em pesquisa recente, Márcia Barbosa-Guimarães (2007) apresenta um apanhado sobre sistema de assentamento e relações sociais entre grupos sambaquieiros, Tupinambás e ceramistas da Tradição Una, com foco regional no litoral do Rio de Janeiro. O trabalho teve como objeto de estudo a compreensão do sistema de assentamento dos grupos sambaquieiros que habitaram o complexo lagunar de Saquarema entre 6600 a 1500 anos AP. A autora propõe um modelo onde a mudança ambiental e as relações com grupos ceramistas influiriam no processo de mudança cultural observada no registro arqueológico encontrado nos sambaquis da região. Entendendo a Laguna de Saquarema como centro do sistema de assentamento que proporcionaria um caráter identitário para esses grupos, ainda que estes apresentassem diferenças entre si. Estas diferenças seriam explicadas através de um longo processo adaptativo ligado às mudanças ambientais. Barbosa-Guimarães também parte da premissa de que os sambaquis estudados em sua área de pesquisa são decorrentes de grupos que formavam uma unidade social, mas entende que houve grupos melhor adaptados que outros acarretando algumas diferenças no registro arqueológico. Alguns dos grupos de sítios seriam centrais em relação aos demais. 31 Avaliando os trabalhos de cunho regional realizados com base na distribuição espacial dos sambaquis, uma premissa geral pode ser observada: os agrupamentos de sítios muito próximos entre si são entendidos como representantes de uma única unidade social. Nosso trabalho pretende testar se este modelo pode ser observado nos sítios litorâneos do sul de Santa Catarina. A disciplina arqueológica propõe o estudo da cultura material e seu contexto como fonte para analises referentes às sociedades, na maioria das vezes, pretéritas. Entendemos que trabalhos relacionados a sítios específicos são relevantes, no entanto o que estamos propondo é a análise dos sítios em seu conjunto, tratando-os como artefatos. Segundo Maria Dulce Gaspar (2003: 28) “o próprio sítio é tratado como um artefato construído pelos indivíduos que o ocuparam. Os materiais que o compõem foram deliberadamente ali depositados como resultado de ações pertinentes ao sistema sociocultural. O padrão de distribuição espacial dos sítios remete à interação entre os seus ocupantes”. A análise do conjunto desses artefatos (sítios arqueológicos) deve levar em conta seu contexto, sua distribuição no território e suas inter-relações. 32 Belgede Hazar Gölü'ne dökülen Kürk çayının bazı fiziksel ve kimyasal özelliklerinin araştırılması / A study on some physical and chemical properties of Kürk stream discharging Lake Hazar (sayfa 75-108)