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Meu ponto de partida e chegada é a Região Leste, uma das mais populosas da Cidade de São Paulo. Viver, estudar e trabalhar na periferia da zona leste é viver sob o alerta de quem busca em meio às desigualdades e à violência a esperança de um futuro melhor. Essa busca entrelaça-se às necessidades de mudanças e novas formas de implantação e implementação de políticas públicas que possibilitem horizontes palpáveis àqueles que a habitam.

Mapa 1: cidade de São Paulo e Grande São Paulo

Fonte: http://www.mapas-sp.com/grande-sp.htm.

A região da qual falo é definida administrativamente pela prefeitura de São Paulo como LESTE 2, compreende os sete distritos de maior concentração populacional da cidade de São Paulo. É na região leste da cidade de São Paulo onde o sol nasce. No simbolismo da terra do sol nascente, encontro um histórico de formação e constituição de diversos entretecimentos de mundos e resistências.

Os bairros de São Miguel e São Mateus trazem em suas denominações a homenagem aos santos do catolicismo. O bairro de Ermelino Matarazzo foi formado por imigrantes. Itaquera, Itaim e Guaianases são bairros de raízes indígenas. Cidade Tiradentes é populosa, e o Lajeado, historicamente se constituiu por migrantes e imigrantes34,um povo resistente.

34 Atualmente há significativas alterações na demografia dos bairros Guaianases/Lajeado e Cidade Tiradentes, Se nas décadas de 1970; 1980;1990 predominava a migração nordestina e mineira, na atualidade, mescla-se no encontro de imigrações com povos bolivianos, paraguaios e africanos, que habitam essas regiões, trabalham como obra barata e em condições bem precárias. Algumas

No extremo leste da cidade dormitam não somente moradores, mas, sobretudo, um conjunto de movimentos populares de reivindicações que, à luz do movimento pela democratização na sociedade brasileira, principalmente após a ditadura militar se constituíram através da organização e exigências por asfalto, escolas, postos de saúde, transporte público, moradia, entre outros.

Mapa 2 – Região Leste (Zona Leste) da Cidade de São Paulo.

Fonte: http://focusfoto.com.br/zona-leste-sp-e-a-fotografia/.

Olhar a região Leste da cidade de São Paulo significa ir além dos muros invisíveis que apartam os bairros nobres da cidade paulistana. Requer a exigência e sensibilidade apurada que somente um exercício com “os olhos de lince” permite. Isso porque é pedido para, ao mesmo tempo em que se olhe para as suas carências, que se aposte nas possibilidades de se efetivar o registro das lutas que trouxeram o desenvolvimento e as conquistas em cada bairro, vila, rua ou viela. Reconhecidamente, essas conquistas ainda se configuram como aquém das reais necessidades de seus moradores, indicando novas lutas que apontem para perspectivas futuras.

É importante apresentar um resgate histórico do bairro, o qual iniciou-se pela fundação do Distrito do Lajeado, que originou-se de um aldeamento indígena

crianças de nacionalidade africana, boliviana foram matriculadas na EMEI durante o período dessa pesquisa.

chamado Uruaí. A partir de 1918, a região passou a se constituir por um pequeno grupo de chácaras que forneciam verduras e frutas para a cidade de São Paulo, fator que favoreceu um rápido crescimento do distrito.

Figura 2: Lajeado (1918).

Fonte: https://www.flickr.com/photos/11066389@N08/1019676325

No Vale conhecido como Ribeirão do Lajeado, em terras pertencentes à família Bueno, foram primeiramente construídas uma pousada e uma capelinha, conhecida como a capela de Santa Cruz do Lajeado. No entorno dessa capela, aos poucos se desenvolveu o atual bairro de Guaianases.

A inauguração da Estrada de Ferro Norte São Paulo, Estrada de Ferro Central do Brasil (REFASA), Companhia Brasileira de Trens Urbanos e hoje Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, trouxe mudanças à região, levando à divisão do distrito em Lajeado Velho e Lajeado Novo. O local onde foi construída a capela, em 1875, foi designado como Lajeado Velho, e a região vizinha à estação ferroviária foi como Lajeado Novo, atual bairro de Guaianases.

O Lajeado Novo (Guaianases) começou a se desenvolver com a chegada de imigrantes italianos que se uniram com as famílias tradicionais já existentes. Durante muito tempo, a principal atividade econômica era realizada pelos instaladores de olarias, responsáveis pelo fornecimento de tijolos para a construção de moradias e indústrias da cidade de São Paulo, em especial nos bairros da Mooca, Brás, Belém, Bom Retiro e Pari.

Imigrantes de origem italiana chegaram através dos trilhos e estabeleceram comércios, fabricas de vinho, fábricas de tachos de cobre e carpintarias. Por volta de 1912 ,chegaram ao bairro os espanhóis e se dedicaram a extração de pedras através das Pedreiras Lajeado e São Mateus. Com a lei 252/48 de 24 de dezembro de 1948, o bairro recebeu oficialmente a denominação de Guaianases, palavra de origem tupi (à época do descobrimento do Brasil e por alguns séculos seguintes, a região era habitada pela nação Guaianás).

Em 1950, o bairro de Guaianases já se caracterizava com bairro-dormitório e se expandia de forma expressiva. Na década de 1960, contava com uma população de aproximadamente 45.000 habitantes, numa expansão que trouxe novas exigências e buscas por melhorias sociais, entre elas a luta pela ampliação da rede de escolas.

Figura 3: manifestação para a ampliação da rede de escolas - Guaianases, 1950.

Fonte: https://www.flickr.com/photos

No final da década de 1970 e início dos anos 1980, Guaianases já tinha o tamanho de uma cidade, e já apresentava sérios problemas como déficit de moradia e escola, sistema da saúde insuficiente e saneamento básico precário. A intensificação da migração, na década de 1970, de populares vindos principalmente da região nordestina resultou numa grande explosão demográfica na cidade de São Paulo e um inchaço nos bairros-dormitórios, impulsionados pela construção dos conjuntos habitacionais populares, as COHABs. Atualmente, o bairro de Guaianases está dividido nos distritos de Lajeado e Guaianases, pertencentes à subprefeitura de

Guaianases. O bairro possui uma densidade demográfica de 17.882 hab/km² na região de Guaianases, e de 12.093 hab/km² região Lajeado 35.

Mapa 3: divisão de Guaianases e Lajeado.

Fonte: www.http://guaianases.blogspot.com.br/p/historia.html

A região de Guaianases/Lajeado é uma das mais pobres da cidade de São Paulo, ofertando poucas oportunidades de emprego. Para trabalhar, a maioria das pessoas ainda recorre às regiões centrais. Em 2003, uma pesquisa desenvolvida pelo Centro de Estudos da Metrópole, da USP (Universidade de São Paulo) apontou o bairro de Guaianases e distrito do Lajeado como duas das áreas mais vulneráveis da capital. O mapeamento considerou deficitário o acesso da população a serviços públicos como unidades de saúde, escola e lazer.

Segundo dados da Fundação Seade, no ano 2010, 60, 2% dos chefes de família da região recebiam no máximo três salários mínimos. Mais de 15% dos 400 mil moradores viviam em áreas de ocupação, número mais alto que do município como um todo que corresponde a 11%. A taxa de analfabetismo era de 7,7%, quando a média da cidade é de 4,88%. As taxas de defasagem escolar também eram altas. Em pesquisa anterior, realizada pela Fundação Seade e divulgada em 2004, o bairro de Guaianases foi apresentado como um dos distritos com maior número de homicídios da capital, superando 85 para cada grupo de 100 mil habitantes.

35 Dados referentes ao ano 2010, coletados no portal da prefeitura de São Paulo. http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/subprefeituras/guaianases/mapas/(acessado em 17/jan./2013).

Figura 4: região em que se encontra a instituição educacional

Fonte: Acervo da pesquisadora.

A demanda por melhores condições de vida levou a organização dos movimentos sociais e mobilizações organizadas pelas associações de bairro que, com o passar do tempo, foram adquirindo algumas conquistas sociais que constituem hoje a realidade atual da região. Os moradores em sua maioria passam a maior parte do dia fora, saindo de casa por volta das 5h da manhã, retornando quando já é noite.

É nesta periferia que encontra-se a instituição em que realizei minha pesquisa. A “EMEI Manoel de Barros” está situada no bairro de Guaianases, região definida administrativamente como LESTE 2.

A região leste foi escolhida neste estudo não só por ser a região onde resido e trabalho, mas por possuir características peculiares que fazem com que essa seja palco de contradições constituídas por constante crescimento populacional e precariedade dos recursos e acessos às questões socioculturais oriundas da vivência em bairros-dormitórios. Essa crescente migração contribui para o crescimento constante da demanda por vagas na Educação Infantil, ocasionando precariedade na oferta do atendimento e na qualidade da oferta educacional.

O bairro de Guaianases, conhecido como bairro-dormitório, está situado no extremo leste da capital. A instituição estudada tem como público crianças da faixa etária de três a cinco anos e está no entorno de uma região de projetos habitacionais antigos, conhecidos como COHABs.

Segundo questionário social aplicado à comunidade educacional (ano letivo 2012), 42,3% vive em área de ocupação. 35,9% está na área próxima a instituição e 14,1% em uma área mais distante da instituição, em que algumas crianças têm acesso ao transporte escolar gratuito (TEG) da prefeitura. Muitas dessas crianças, principalmente as que moram nas áreas de ocupação clandestina não reconhecida pelos órgãos públicos caminham em média, de vinte a quarenta minutos, até chegarem ao seu destino, ou seja, à “EMEI Manoel de Barros”. Muitas não têm acesso ao transporte escolar público e gratuito, porque os endereços são irregulares e não reconhecidos pelo sistema de correio, as casas se apresentam em condições precárias, sem luz elétrica ou água tratada e em ruas sem pavimentação. À guisa de exemplo, numa das casas, há uma criança de três ou quatro anos trancada, apenas o rosto exposto pela janela. Está só. A vizinha diz que a mãe foi trabalhar e ela fica sozinha até a irmã maior voltar da escola. Não há escola pública ou conveniada no local, não passa transporte público, nem ambulância, porque a área é de ocupação, informa a moradora.

Cartografar a vila em que a EMEI está localizada possibilitou perceber o contraste social em áreas tão próximas. Crianças de uma mesma vila, do mesmo bairro que vivem em diferentes condições sociais, alguns casos, há crianças que vivem em situação de risco e são cuidadas por outras crianças.

É visível que houve melhoras na condição e no padrão de vida de muitas crianças que hoje frequentam a EI. Na região onde está situada a instituição, na última década é notório na fala de pais e mães que buscam não apenas uma vaga para seus(as) filhos(as) na instituição, mas também um lugar para deixá-los(as), haja vista que ambos precisam trabalhar.

Ao tecer brevemente esta paisagem, meu intuito é o de possibilitar novos olhares que permitam a compreensão das origens da região estudada, como são as pessoas que habitam e como se constituiu o processo de lutas sociais pela educação pública.

Benzer Belgeler