• Sonuç bulunamadı

No intercurso do doutorado, com interesse nas práticas destinadas ao parto e ao nascimento, foi eleito enquanto espaço para uma investigação mais aprofundada uma maternidade pública na cidade de Natal (RN). O espaço físico e funcional da instituição será descrito posteriormente, na apresentação dos dados. Todavia, esse serviço vivencia dificuldades contextuais características dos espaços públicos destinados ao cuidado na atenção ao processo de parturição no nordeste brasileiro.

94 Para uma aproximação com os dados, uma das estratégias metodológicas foi a observação direta e participante no contexto da maternidade em estudo. A prática de observar aconteceu de modo mais atento e completo possível, seguindo a orientação de Leopardi & Nietzsche (2002). Para tanto, a pesquisadora fez-se presente ao campo durante aproximadamente oito meses, de abril a dezembro de 2008, pelo menos uma vez na semana, em um intervalo não inferior a quatro horas por visita.

Diante da riqueza de acontecimentos, e para manter o foco da investigação, foi construído um diário de campo, com o intuito de anotar os principais eventos que ocorressem nesse período. Essa didática possibilitou compreender as ações desenvolvidas por trabalhadores e usuárias da maternidade no acompanhamento ao nascimento e também os “textos” que coordenavam a construção dos saberes e práticas cotidianas.

Nessa temporada, enquanto observadora, percebi que o espaço institucional foi desvelando-se no seu cotidiano de limites e possibilidades, sendo possível apreender o encadeamento que rege as ações corriqueiras e as relações de poder nas práticas diárias. Além desses procedimentos, foram mantidas muitas conversas informais que ajudaram a entender a dinâmica da atenção ao parto nesse espaço. Ressalta-se a importância dessas conversas, pois na EI esses momentos tendem a desvelar aspectos relevantes ao processo investigado, os quais não são enfatizados durante as entrevistas. Os diálogos informais em geral eram ricos em dados, pois o colaborador sentia-se à vontade para expressar suas ideias, opiniões e o que queria e sentia diante da problemática em estudo, não se detendo apenas nos textos coordenadores das ações cotidianas.

95 O período de observação apresentou-se ainda como um exercício para a reflexão do pesquisador, na medida em que suas construções discursivas também tiveram que ser revistas cotidianamente. Em alguns momentos da observação, eu acabava por esquecer o meu papel e passava a ver as práticas como uma enfermeira, consumida pelos textos e pelas rotinas que conformam o processo de trabalho nesta área. Quando isso acontecia, um agir não reflexivo era despertado e, consequentemente, uma leitura pouco crítica acerca dos aspectos constituintes das relações de trabalho e de poder estabelecidas na maternidade citada.

Na sequência, em novembro de 2008, foi organizado um grupo focal com a equipe de enfermagem para uma melhor imersão no contexto institucional das práticas e uma aproximação coletiva com os discursos produzidos por esses trabalhadores. Nesse espaço, discutiam-se a disposição e a estruturação das ações na maternidade, assim como os aspectos que contribuem e agravam o cotidiano do serviço.

Do grupo focal participaram 15 (quinze) profissionais da equipe de saúde, subdividindo-se entre enfermeiros, auxiliares e técnicos de enfermagem. O tempo da conversa foi de aproximadamente 90 minutos. Inicialmente, alguns participantes, especialmente os do nível médio, mostraram-se um pouco receosos para falar, mas no intercurso da dinâmica todos acabaram tecendo suas considerações quanto ao trabalho em saúde nesse espaço.

Embora o grupo focal não seja uma prática comum nas pesquisas que utilizam as etnografias em geral, no caso da EI, o “conversar com as pessoas” não necessariamente é realizado individualmente. Esse método pode ser utilizado para melhor entender as práticas e os contextos vivenciados pelos envolvidos no processo, além de fornecer fundamentação e argumentação para as entrevistas individuais (DeVault & McCoy,

96 2002). Essa estratégia contribuiu, no caso em estudo, para desvelar a dinâmica institucional e possivelmente favoreceu um olhar mais crítico e reflexivo acerca do seu contexto de trabalho para a equipe de enfermagem.

Assim, durante uma reunião administrativa dessa equipe, foi solicitado um espaço para que fosse realizada esta conversa. A questão de partida da dinâmica abordava a organização do trabalho desenvolvido na maternidade na perspectiva da humanização para o nascimento. Esse passou contribuiu para os aspectos posteriores do estudo, e a estratégia ajudou a construir a teia das inter-relações e influências significativas na dinâmica institucional da maternidade.

Para aprofundar aspectos que ainda não ficaram esclarecidos, a ação seguinte foi a entrevista em profundidade que aconteceram entre os meses de dezembro de 2008 até março de 2009. Para DeVault & McCoy (2002) na EI, essa atividade é tipicamente organizada ao redor da ideia dos objetivos da pesquisa e “[...] sua estrutura conceitual guia o falar (...); o ponto não é insistir categoricamente em nenhuma atividade, mas considerar a concepção de social que reside no entendimento das pessoas acerca de suas atividades atuais” (p. 758).

As entrevistas são consideradas uma forma de coordenação das atividades cotidianas, pois os atores devem entender e explicar o que, como e por que fazem as tarefas do modo que fazem, visto que essas conversas não são necessariamente padronizadas, podendo ser usadas em qualquer etapa da investigação. É importante que a pessoa descreva os detalhes a respeito de como realiza suas atividades, mesmo que considere a informação desnecessária (Campbell & Gregor, 2002).

Os atores que participaram deste estudo foram os profissionais da equipe de saúde e as mulheres assistidas na instituição. Entre os trabalhadores que compõem o

97 quadro funcional, além das equipes de apoio e recepção, há um total de 12 (doze) obstetras, 12 (doze) neonatologistas, 07 (sete) enfermeiros e 18 (dezoito) auxiliares e técnicos de enfermagem. De modo geral, todos desenvolvem as atividades rotineiras da sua categoria profissional, em uma escala de trabalho, atuando desde a triagem até a alta da puérpera do serviço.

Com esse total de trabalhadores da área da saúde foram realizadas 18 (dezoito) entrevistas, sendo 11 (onze) com a equipe de enfermagem: 07 (sete) técnicos e 04 (quatro) enfermeiros. Com a equipe médica aconteceram 08 (oito) entrevistas, sendo 04 (quatro) obstetras e 04 (quatro) neonatologistas.

De fato, na entrevista com os trabalhadores, procurou-se apreender como eles percebiam as suas práticas e o contexto que cerca as ações cotidianas. No caso das usuárias, o roteiro indagava a dinâmica assistencial desde o processo gestacional até o momento da parturição.

Com as puérperas, termo utilizado na obstetrícia para designar mulheres que se encontram no pós-parto, foram realizadas um total de 10 (dez) entrevistas, paralelamente ao período das entrevistas dos trabalhadores. O total de profissionais e usuárias do serviço que concedeu a entrevista foi definido de acordo com o andamento das conversas, pois quando os discursos começavam a ficar repetitivos, era encerrada a investigação individual.

As entrevistas ocorreram entre os meses de abril e agosto de 2007, no ambiente da unidade de saúde, após a autorização prévia dos participantes e a assinatura do termo de consentimento, que atestava estar o participante ciente das condições, encontrando-se livre para aceitá-las ou não. Quanto à duração das conversas, variaram entre quinze e

98 quarenta minutos, havendo uma média aproximada de vinte minutos para cada entrevista, independentemente de ser trabalhador ou usuária.

No que tange à análise dos dados, buscou-se um percurso metodológico que atendesse as questões e os objetivos propostos, contemplando, mesmo nas limitações do olhar do investigador, a complexidade e as interdependências próprias da situação, pois uma investigação que busca refletir sobre a organização das práticas em saúde, contextualizando os saberes e as ações cotidianas, necessita de um norte teórico/empírico que respalde as ideias da produção, organizando a dinâmica nos serviços.

Assim, foram realizadas leituras sucessivas das entrevistas, na tentativa de apreender as concepções, as práticas e os textos que se relacionavam com o contexto institucional da atenção ao parto e ao nascimento para que fosse desvelada a problemática das ações, significados e sentidos produzidos nesta dinâmica. Nisto se tencionava entender, a luz da etnografia institucional, proposta por Smith (2005), por que as coisas estão organizadas dessa maneira e como as pessoas percebem-se nessa dinâmica. Almejou-se associar a discussão do contexto institucional com as relações de saber/poder estabelecidas no interior da sociedade, compreendendo como contribuem para modelar e delimitar os fazeres diários.

Desse modo, foi possível delinear os limites e possibilidades na atenção ao parto e ao nascimento no contexto público da saúde, articulando as diversas necessidades sociais das pessoas assistidas pelo SUS.

Para a apresentação dos dados, os obstetras foram caracterizados como médicos obstetras e receberam a designação de 1 a 4. Já os neonatologistas, foram designados como médicos pediatras, recebendo também a mesma numeração. Os enfermeiros foram

99 chamados e numerados segundo a ordem das entrevistas realizadas, e os técnicos identificados como técnicos de enfermagem também receberam numeração. Por fim, mas não menos importante, as puérperas foram nomeadas a partir de nomes bíblicos, em analogia à força das mulheres presentes nesse livro.

Merece ser destacado o modo como os artigos e os substantivos foram utilizados na análise dos discursos dos diferentes atores envolvidos neste estudo. Apesar de se entender e refletir sobre as articulações sintáticas e as caracterizações de gênero, optou- se por não fazer essa diferença no corpo do trabalho. Mesmo reconhecendo a predominância do sexo feminino entre os colaboradores da pesquisa, a não utilização dos dois sexos no decorrer da apresentação dos dados aconteceu mais por uma questão prática do que mesmo por não valorizar e respeitar as diferenças.

100

CAPÍTULO QUATRO

ANÁLISE DOS DOCUMENTOS

Benzer Belgeler