Antes do Concílio Vaticano II, a Igreja não tinha um pleno conhecimento dos meios de comunicação social, os via com certa desconfiança. No entanto, reconhece neles um grande instrumento para os homens. Por conta dessa desconfiança, não estava totalmente aberta para tal. Sua relação no período pré-conciliar bem como em nossos dias é bastante delicada com os mesmos.
O grande impulso acontece por ocasião do Concílio Vaticano II, com especial relevância o decreto Inter Mirifica, que apesar de ser um dos menores documentos deste Concílio, é de fundamental importância para a relação entre a Igreja, o mundo contemporâneo e os meios de comunicação, pois hoje não se pode negar que estes meios invadiram todos os espaços e conversas, bem como os lares, tornando-se competidores com o diálogo, a tradição, aquilo que chamamos de conhecimento adquirido da vida.
Tudo passa a ser imediato, pode-se até dizer que vemos uma espécie de delírio espacial, pois temos o privilégio de ter inúmeras transmissões (informações), mas não é possível retê-las. A bem da verdade estamos presos entre a tecnologia e a mercantilização, ou seja, informações preferenciais e um grande apelo ao consumo27.
Nessa mesma linha, a Conferência de Puebla também vai dizer da importância desses meios tanto para a comunhão, como também para a expansão e democratização da cultura e da própria evangelização28. Embora existam algumas
questões que necessitam de uma reflexão mais profunda, como a citada pela
27 Cf. DAp, 38
Conferência de Aparecida. Com isso, a partir deste decreto, começa-se a ter uma maior abertura e se busca um diálogo sereno, tranquilo e entendedor, a fim de que a Igreja pudesse conhecer e se relacionar com os meios de comunicação social, e vice-versa.
O primeiro propósito da Igreja, além de reconhecer a importância destes meios, é se utilizar deles para que a salvação seja comunicada a todos os homens. E isso ela já vem fazendo, pois cada vez mais tem se dedicado aos trabalhos voltados para os meios de comunicação. Bem como, a própria Pastoral da Comunicação que tem se desenvolvido cada vez mais e também o aumento da participação da Igreja nos meios comerciais. Isso significa que a Igreja tem buscado acompanhar este avanço tecnológico, pois neles encontra-se uma versão moderna do púlpito.
Graças a eles, “pode se falar às multidões”29. Isso significa que a Igreja tem tentado responder aos sinais dos tempos e “tem utilizado desses meios para evangelizar a cultura”30. Chamando desta maneira o homem a fazer o uso de forma correta, não perdendo de vista a importância desses meios para o crescimento de si mesmo e da sociedade:
A Igreja Católica, tendo sido constituída por Cristo Nosso Senhor a fim de levar a salvação a todos os homens e, por isso, impelida pela necessidade de evangelizar, considera como sua obrigação pregar a mensagem de salvação, com recurso também dos instrumentos de comunicação social, e ensinar aos homens seu reto uso.31
A Igreja entende que é preciso utilizar-se de todos os instrumentos para o anúncio do Evangelho, e os meios de comunicação se revelam uma oportunidade providencial para atingir os homens em qualquer lugar, pois rompe com a
29 EN, 45 30 DAp, 99f 31 IM, 3
barreira do tempo, já que hoje vivemos num mundo globalizado, o que não se pode deixar de entender é que este contexto global também se dá no que diz respeito à mídia, ou seja, o mundo é visto como grande cultura midiática e isso implica “em se ter a capacidade de reconhecer as novas linguagens que podem favorecer maior humanização global”32, e assim o mesmo colabora para o crescimento humano.
Partindo do princípio do crescimento humano, não se pode esquecer a própria questão da dignidade do homem, já que os meios de comunicação estão para ajudar o homem. Por isso, diz a instrução pastoral Communio et Progressio que os meios apresentam: “as grandes virtualidades que neles contêm em ordem à promoção eficaz do progresso humano, virtualidades de tal ordem que vale a pena o esforço de superação das dificuldades que elas mesmas implicam”33, buscando criar uma mentalidade, uma cultura de comunicação, isto é, saber utilizar e relacionar com os meios sem vê-los como algo estranho ou alheio à Igreja. Esta “era da comunicação, bem como, da informação, que hoje se está formando, contribui a criar novas relações entre pessoas e as comunidades e exige – por parte dos cristãos – uma união cada vez mais profunda por meio de uma intensa colaboração”34.
Neste contexto, ela vai deixar bem claro que não só a instituição, mas os leigos têm neste instrumento “a tarefa de vivificar estes mesmos instrumentos com um espírito humano e cristão, para que correspondam plenamente à grande esperança da família humana e ao desígnio divino”35.
Isto significa que os meios aí estão, mas eles devem salvaguardar o respeito ao homem e apresentar tudo que favorece a humanidade dentro do contexto da criação, levando o ser humano à plena comunhão entre si, com os meios
32 DAp, 484 33 CP, 21
34 PONTIFÍCIO CONSELHO PARA AS COMUNICAÇÕES SOCIAIS. Critérios de colaboração
Ecumênica e Interreligiosa nas comunicações sociais, 6
e também com o Criador, pois “a história da humanidade e o conjunto das relações entre homens desenvolve-se no quadro desta comunicação de Deus em Cristo”36.
Dessa forma, cabe aos que recebem as informações através dos meios de comunicação social, buscar sabedoria na sua utilização, também, naquelas que hão de receber, e não tratá-las como verdade absoluta, mas buscar discernir o que edifica a si mesmo, pois por haver a questão do monopólio da informação, os meios de comunicação incorrem no risco de manipular a mensagem de acordo com interesses próprios37.
Aqui se pode dizer que a questão é que se sabendo olhar de forma crítica a informação e tudo aquilo que é apresentado e ver as circunstâncias a que elas são colocadas, e se traz em seu bojo inverdades e disposição de manipulação. Diante desta constatação, o que se deve fazer é rejeitá-la de forma imediata. Não é à toa que a Igreja vai manifestar sua preocupação em relação aos meios e tudo aquilo que por eles são veiculados:
Os meios de comunicação social, em virtude da sua mesma natureza, dirigem-se ao grande público; portanto, para não ferir alguns setores deste público, opta-se por uma certa neutralidade; como é que então, numa sociedade pluralista, o indivíduo conseguirá discernir entre o verdadeiro e o falso, o bem e o mal? [...] Que fazer para que o homem não caia numa apatia e preguiça mental? Finalmente, como evitar que o contínuo apelo à emoção não desequilibre a razão?38
O homem tem direito à informação, que deve trazer assuntos que interessam a si, mas que também tragam interesse à sociedade “conforme as condições de cada um”39. Ela deve quanto ao seu objetivo ser sempre verdadeira, honesta e equilibrada, que observe as leis morais, a dignidade e os legítimos direitos do
36 AE, 6 37 Cf. DP, 1071 38 CP, 21 39 IM, 5
homem40. As informações que serão apresentadas, devem sempre primar pela ordem moral objetiva, isto é, é ela quem sobrepõe e “coerentemente harmoniza todas as demais ordens das coisas humanas, por mais respeitáveis que sejam em dignidade”41.
A experiência de todo aquele que tem acesso aos meios de comunicação, quanto às informações deve se dar pela recusa quanto à falta de comprometimento com a verdade, principalmente quando buscam incitar no homem desejos perversos, que o faz afastar da ordem moral, bem como dos bons costumes. Neste caso, não só primar por estas questões, mas também saber que embora a tecnologia esteja ao nosso favor, e de fato, podemos afirmar que sim, pois como nos diz Douglas Kellner42, “a cultura midiática não aborda apenas grandes momentos da experiência contemporânea, mas oferece também matéria para a fantasia e sonho modelando pensamento e comportamento”43, em outras palavras, ela constrói identidades.
Para isso, “é melhor conhecer as vantagens dos meios de comunicação e melhor superar os seus inconvenientes, impõe-se considerar mais detalhadamente em que medida eles influenciam a vida da sociedade”44, aqui se pode acrescentar também cada indivíduo.
O propósito da Igreja é proclamar Jesus Cristo e seus ensinamentos, “todos os homens de boa vontade são convidados a um trabalho conjunto, para que os meios de comunicação social contribuam para a procura da verdade e para o verdadeiro progresso humano”45.
40 Idem
41 Ibidem, 6
42 É PhD em Filosofia pela Universidade Columbia e professor na mesma Universidade em Los Angeles,
Estados Unidos da América
43 KELLNER. D, Cultura da mídia e triunfo do espetáculo. In Sociedade midiatizada, p. 119 44 CP , 23
Olhando para os meios não se pode também deixar de salientar o que eles trazem em si, pois embora tenham a função de informar, têm uma grande contribuição para o entretenimento, “já que o entretenimento popular há muito tem suas raízes no espetáculo [...] agora, os tecnoespetáculos vêm moldando decisivamente os contornos e trajetórias das sociedades e culturas atuais, ao menos nos países capitalistas avançados”46.
É por isso, que a questão da opinião pública, se faz fundamental em relação aos meios47, pois os mesmos, sendo instrumentos de formação de consciência, e se retamente passam informações e valores aos que a eles têm acesso, a opinião pública deve, mais do que nunca, estar presente e observar tudo aquilo que é apresentado, de modo que não diminua a dignidade do homem, mas o faça conhecer a verdade e não deixe de cumprir os deveres da justiça e da caridade, pois a liberdade de expressão é direito de todos. Isso traz uma cooperação indispensável para a vida social, mas há de se afirmar que embora se tenha esta liberdade de expressão, não significa que todas serão aceitas, mas ao mesmo tempo, outras serão aperfeiçoadas e servirão de base para este processo.
Chamados a contribuir para a opinião pública, os cidadãos devem fazê-la com clareza e sempre para a formação de si e da sociedade, como nos é dito na Instrução Pastoral, Communio et Progressio:
Todos os cidadãos são chamados a prestar o seu contributo à reta formação da opinião pública, pessoalmente ou por meio dos seus representantes, na formação desta opinião é sobretudo grande o influxo daqueles que em virtude do seu cargo, qualidades naturais ou por motivos, exercem influência na sociedade. Os seus deveres de contribuição ativa neste campo serão tanto maiores quanto maior for a boa influência que poderão exercer48.
46 KELLNER. D, op cit, p. 120 47 Cf. DM, 5
A questão da opinião pública deve estar também no próprio interior da Igreja, pois por meio do diálogo, se busca a construção da comunhão, que torna a pessoa capaz de se relacionar com o diferente, criando condições para o encontro entre as pessoas para a vigência de uma autêntica e responsável liberdade de expressão49 como também, com o outro de modo que, não se crie nenhum preconceito.
É ter claro que a comunhão ultrapassa os limites eclesiais e gera este diálogo de forma construtiva e totalmente transparente:
Tanto a comunicação no interior da comunidade eclesial como a da Igreja com o mundo exigem transparência e um modo novo de enfrentar as questões ligadas ao universo dos meios de comunicação social. Esta comunicação deve tender a um diálogo construtivo para promover na comunidade cristã uma opinião pública retamente informada e capaz de fazer conhecer as próprias atividades, como outras instituições e grupos, mas ao mesmo tempo, quando necessário, deve poder garantir uma reserva adequada, sem que isto prejudique uma comunicação pontual e suficiente sobre os fatos eclesiais50.
Não só os meios devem agir assim, mas também os usuários, já que os mesmos “estão comprometidos por especiais obrigações, isto é, os leitores, os espectadores e os ouvintes que por uma escolha pessoal e livre recebem as comunicações difundidas por estes instrumentos”51. Por isso é sempre bom lembrar que todos os usuários desses meios saibam usá-los com moderação e disciplina, ou seja, é preciso não se ater totalmente e tornar-se escravo desses meios, mas sim, usar da inteligência a fim de “penetrar naquilo que viram, ouviram e leram”52, de modo que sejam capazes de emitir um julgamento correto de todas as informações. Como então aplicar estas questões no que diz respeito ao trabalho pastoral da Igreja? Eis aqui o desafio lançado pelo Concílio Vaticano II.
49 Cf. SD, 282
50 RP, 22 51 IM, 9 52 Idem, 10
O grande apelo conciliar é que se busque de forma concreta e imediata um esforço comum para que todos os membros da Igreja:
empenhem-se e empreguem eficazmente os meios de comunicação social, nas multiformes obras de apostolado, como estão a exigir instantemente a conjuntura das coisas e dos tempos, antecipando-se às más iniciativas, sobretudo naquelas regiões onde o progresso moral e religioso requer um trabalho mais urgente53.
Para nós, esse é o grande chamado que a Igreja faz, a fim de que haja um verdadeiro entendimento dos meios de comunicação social e que a própria Igreja se utilize do mesmo54 para que a mensagem do Evangelho possa chegar a todas as pessoas de todas as formas, ou seja, é preciso levar em conta os sistemas e recursos da linguagem audiovisual própria do homem hodierno55.
O apostolado de cada um deve ser desenvolvido com criatividade, de maneira que se utilizem todos os recursos disponíveis com uma única intenção: anunciar a Boa Nova de Jesus, já que de forma instantânea os meios são bastante favoráveis a isso, tendo o Cristo como modelo de comunicador, pois “durante sua permanência na terra, se manifestou o comunicador perfeito”56. Nesse sentido, deve pensar uma maneira de fazer presente essa mensagem em todos os meios, sejam eles de propriedade da Igreja, sejam eles de uso comercial. O que mais é pedido, é que se usem esses meios para o bem, antes que outros chegam e o façam para o mal. É por isso que a Igreja chama todos os seus membros para:
promover uma boa imprensa para que possa imbuir os leitores do espírito autenticamente cristão [...] edita-
53 Ibidem, 13
54 Cf. DM, 9 55 Cf. DP, 1091
56 BAMBONATTO, V. I. e ALTEMEYER, F. Jr. Trindade, mistério de comunicação e comunhão. In:
se claramente com o fim de formar e promover a opinião pública de acordo com o direito natural e a doutrina e os princípios católicos, como também divulgar e devidamente explanar os acontecimentos ligados à vida da Igreja57.
O que de fato não se pode em nenhum momento deixar de evidenciar nos meios de comunicação social é que eles estão para criar laços de solidariedade entre os homens e a Igreja no uso de seus próprios meios. Deve ser cada dia mais a voz dos desamparados, ainda que isso implique em riscos58, já que os mesmos “são dons de Deus e devem colocar-se a serviço da sua vontade salvadora”59.
Com isso, a Igreja propõe às Dioceses que da melhor forma possível tentem se estruturar criando seus conselhos e dando uma atenção especial para a comunicação social. Que tenham tanto leigos, como clérigos especializados nesta área, e que dê o apoio suficiente para que eles possam cumprir sua missão60 tornando possível um diálogo e um entendimento mútuo e permanente entre a Igreja e estes meios, para que os mesmos colaborem para a união entre homens e na continuidade na obra criadora de Deus. É por isso que ela “encara estes meios de comunicação social como dons de Deus”61 para a edificação da pessoa, da sociedade e para uma maior comunhão entre todos. Isto é claro, sempre seguindo a vontade de Deus que é de salvar todo o gênero humano.
Se por um lado os meios com toda sua técnica têm por finalidade dar e conhecer os problemas humanos, o homem “criado à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,26) participando da obra criadora na construção da “cidade
57 IM,14 58 Cf. DP, 1094 59 IM, 29 60 Cf. SD 283 61 IM, 1
terrena”62 deve buscar, à luz da Palavra de Deus, fazer com que esta técnica favoreça o diálogo entre todos, tornando esta cidade cada vez mais justa e humana.
“O cristão pela visão que tem da história, do homem e da solidariedade”63, jamais pode deixar de descobrir nesses meios e nessas técnicas por ele empregadas, um significado para uma melhora na condição de vida de todas as pessoas, a começar pela comunicação entre elas mesmas.
É imprescindível ao homem comunicar-se. É sabido que desde o começo da história da salvação, foi Deus quem se comunicou com os homens, nestes últimos tempos, quis Ele nos falar, ou melhor, se comunicar por meio de seu filho Jesus Cristo (Cf. Hb 1,2) a fim de que o homem pudesse participar do seu plano salvífico, pois Jesus é o “comunicador do Pai”64 revelando ao homem a salvação que vem de Deus, tornando assim “a comunicação entre Deus e a humanidade atingir portanto sua perfeição”65 e chamando o homem que ao utilizar dos meios de comunicação social, leva em conta todos os aspectos para comunicar também sua Boa Nova a todos os povos66.
O homem que é chamado a manter-se em plena comunhão com Deus e com todo o gênero humano, jamais deve viver de forma isolada, mas sim, construir por meio da unidade, uma verdadeira relação e comunhão entre si e com Deus, já que Deus ao se comunicar com o homem propõe para ele na sua benevolência o estar unido consigo e com os outros, mas acima de tudo ter nessa união a capacidade de comunicar a verdade que é Jesus Cristo, como Ele mesmo nos diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” Jo 14, 6). 62 IM, 2 63 CP, 7 64 RP, 13 65 Idem, 5 66 Cf. DP, 1063
Por isso que “comunicar não é apenas exprimir ideias ou manifestar sentimentos, no seu mais profundo significado, é doação de si mesmo, por amor, pois a comunicação de Cristo é Espírito e Vida” 67. Daí o fato de que todo aquele que está envolvido com os meios de comunicação social, deve utilizá-lo sempre visando a verdade, a unidade entre os homens e acima de tudo a transparência, que é mais que necessária para uma boa comunicação para a verdade e para a própria integridade de todas as pessoas, e que por consequência, ajuda no “verdadeiro progresso humano” 68.
Toda comunicação deve ter em seu bojo questões fundamentais que revelem aquele que é seu papel, ela jamais pode deixar de “obedecer à lei fundamental da sinceridade, honestidade e verdade” 69. Sem esses princípios a comunicação deixa de ser verdadeira e transparente, por conta disso, há de se dizer que se impõem tarefas e desafios concretos para a Igreja no campo da comunicação social70 para que ela oriente os seus fiéis de modo que percebam que a informação passa a ser totalmente parcial e manipulada, não colaborando quase que em nada no progresso dos povos. Agir com a verdade é apresentar aquilo como é e não como alguém quer que seja. A comunicação deve ser sempre verdadeira e honesta. Este é um princípio básico para toda e qualquer comunicação.
Por fim, todos os meios de comunicação devem ser vistos como um grande instrumento para a evangelização e proclamação da Palavra de Deus, bem como, para a própria promoção da dignidade da pessoa e suas relações. Eles devem ser como que uma praça pública aonde se trocam informações, impressões e se criam laços.
67 CP, 11
68 Idem, 13 69 Ibidem, 17 70 Cf. SD, 279