Ao longo do livro Neurastenia Sexual, o autor expõe conteúdos históricos sobre a sexualidade e educação sexual, passando por diversas civilizações e diferentes momentos históricos, além de utilizar metáforas sobre os povos da Antiguidade para justificar seu pensamento higienista, comum no período que o livro foi escrito. Dessa forma, elencamos alguns recortes trazidos pelo autor sobre a história da sexualidade.
O autor nos apresenta ideias diversas sobre a sexualidade, sendo que a maioria dos recortes feitos por ele é referente ao período da Antiguidade e Idade Média.
Segundo ele, desde os povos indianos da Antiguidade, a sexualidade já era vista como algo preocupante, ligada a fatalidades do instinto sexual (AUSTREGÉSILO, 1928).
Na Antiguidade, a sexualidade era vinculada às crenças e ritos religiosos, e as relações afetivas, em diversos momentos, eram atreladas às relações estabelecidas pelas regras sociais, principalmente, pelas divisões de classes socialmente instituídas.
Assim, de acordo com Austregésilo, o amor e o sexo resultam em trágicas consequências para o indivíduo e para a sociedade, principalmente quando atravessam os acordos sociais estabelecidos. Por conseguinte, o amor se transforma em lutas e tragédias de sangue, há a associação do amor e sexo às tragédias da carne, como destaca o autor: "as lutas apaixonadas, as scenas crudelíssimas de sangue, os crimes amorosos, as torturas da alma, as vinganças cruéis, as turvações de ânimo e as glorificações prazerosas da carne, encontraram sempre, no pensamento e no sentimento, fortes ecos e perenes moradias" (AUSTREGÉSILO, 1928, p. 8).
Nesse recorte percebemos a associação da sexualidade e do sexo aos prazeres voluptuosos e a relação com a ambivalência do amor e o ódio, porém prevalecendo em sua fala o atrelamento da sexualidade aos fatos ruins e sórdidos, como guerras, mortes e derramamento de sangue.
Entretanto, antigas religiões do Oriente tinham como norte o amor frutífero e digno, e rejeitavam os encantos da carne, assim como o Cristianismo, e elas se pautavam na necessidade da perpetuação da espécie, para práticas sexuais, fortemente relacionadas ao sagrado (AUSTREGÉSILO, 1928).
Austregésilo utiliza figuras mitológicas para explicar os devaneios dos prazeres da carne, e destaca a relação desses prazeres com as religiões da Antiguidade e da Idade Média, relacionando aos cultos e festas pagãs também a ligação dos povos antigos com o paganismo, com a luxúria fazendo menção às depravações comuns a esse período, citando relatos de diversos estudiosos e historiadores. Segundo Ribeiro (2005), Roma, com as invasões bárbaras, foi tomada por práticas e ritos religiosos ligados à terra e à fertilidade. Os cultos envolviam as práticas sexuais, relacionando-as com a fertilidade, que ocorre no período do plantio e da colheita. Logo, essa exacerbação da sexualidade só diminuiu com o surgimento do Cristianismo e a ideia de castidade, porém, não se extinguiu.
Assim, Austregésilo cita Baco, Deus do vinho e dos excessos, principalmente os sexuais. Ressalta que Roma foi dominada por Baco, onde as práticas sexuais eram comuns em meio às festas e cerimônias religiosas. Dessa forma, o autor, baseado em seus princípios, critica a atitude dos romanos ao se entregarem aos prazeres mundanos. O autor escreveu um trecho para descrever Roma antiga e seus ritos religiosos,
o culto de Baco estendeu-se, espantosamente, como um incêndio coroado de obscenidades e crimes. E os ritos religiosos romanos e as festas alegres da sexualidade confundiram-se, completaram-se, misturaram-se em analogias instintivas e fatais. Em todo povo romano passava o vento forte dos prazeres mundanos; Roma matava-se com os erros do Pão e os erros do Amor, e a antiga cidade luz iluminava o cérebro e deturpava o corpo, com as extravagâncias morais próprias do início da decadência dos povos (AUSTREGÉSILO, 1928, p. 38).
Percebemos na observação de Austregésilo a relação que o povo da Roma antiga fazia entre a sexualidade e as divindades. Como sabemos através dos estudos históricos, a princípio
a civilização romana era politeísta, pois acreditava em vários deuses antes da consolidação do Cristianismo. E associava esses deuses com seus eventos cotidianos, como a produtividade que vinha da terra, o plantio e a colheita, ambos eram relacionados à fertilidade da terra e à fertilidade humana, levando a ritos religiosos vinculados ao sexo e aos prazeres da carne como forma de reverência aos deuses.
De acordo com Stearns (2010), desde os primeiros séculos do Cristianismo, a religião pregava o repúdio aos prazeres sexuais, colocando a negação da sexualidade como o caminho para a espiritualidade.
Austregésilo se apropria dessa ideia imposta pelo Cristianismo em seus primórdios, associando o amor e o sexo aos perigos satânicos, utilizando a expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden para exemplificar o perigo dos prazeres voluptuosos, além de ressaltar que não apenas o Cristianismo menosprezou a sexualidade, mas diversas religiões pregavam a associação da castidade à evolução espiritual. Por conseguinte, utiliza as figuras simbólicas do Diabo associadas à sedução dos prazeres do sexo e a Serpente representando o pecado cometido ao ceder aos prazeres sexuais,
o menospreso em que as religiões colocaram o amor terreno indica o perigo dele; e o fruto proibido paradizíaco, a serpente traiçoeira e vigilante demonstram, simbolicamente, a força caudalosa do amor, que conduziu Adão e Eva à desobediência e ao pecado, o que prova para os fins da sexualidade, a sedução de Satan foi mais forte que os preceitos divinos (AUSTREGÉSILO, 1928, p. 9).
Logo, percebemos a relação que o autor faz entre o sexo e o pecado utilizando as figuras mitológicas do Cristianismo para instaurar a culpa nos indivíduos que caírem nas tramas dos prazeres mundanos. Esta era uma forma de controlar a sexualidade justificando os preceitos higienistas através da religião.
Todavia, o autor também retrata os diversos pontos de vista sobre a sexualidade que existiam entre as religiões, à medida que essas diferenças se perpetuaram ao longo do tempo citando o Islamismo em uma comparação com o Cristianismo.
Stearns (2010), define o Islamismo dizendo que seu
surgimento e a rápida difusão do Islamismo após 600 a.C. foi uma das principais novidades do período pós-clássico, com profundos impactos na
África, Europa e várias partes da Ásia. Com raízes no Judaísmo e no Cristianismo, que o profeta Maomé reconhecia como os precursores fundamentais do Islamismo [...] Islamismo e Cristianismo apresentavam entre si semelhanças [...] Na sexualidade, contudo, havia algumas distinções notáveis, refletindo intrigantes diferenças de crença: ainda que o Islamismo impusesse regras rígidas sobre aspectos do comportamento sexual, não refletia a desconfiança básica com relação à sexualidade, tão característica dos primórdios do Cristianismo... (STEARNS, 2010, p. 95).
Austregésilo (1928, p. 148) destaca que, para os mulçumanos, a poligamia do homem era um princípio religioso, visão explicitamente contrária ao Cristianismo: “os preceitos religiosos dizem respeito à ética em geral e manifestam-se variáveis, segundo as épocas e as próprias religiões. Entre os mulçumanos a poligamia é preceito religioso, ao passo que é condenável pelo Cristianismo”.