6 – Algumas considerações
Foto 12: Lia Campos momentos antes de uma reunião com a equipe do CEPE [196_?] Fonte: Acervo particular da família Campos
B
usquei no decorrer desta pesquisa analisar a atuação da professora Lia Campos nas questões educacionais desta capital e deste estado, nas décadas de 1950 e 1960. Na tarefa de garimpar os arquivos, procurei dados acerca da referida professora, da cidade de Natal e dos fatosocorridos no Rio Grande do Norte, da organização educacional e de que forma essa professora desempenhou suas funções.
À medida que encontrava indícios dos passos percorridos por Lia Campos, eu visualizava um universo de acontecimentos entrelaçados: educação, política. E para que esse cenário se mostrasse mais claro era preciso que eu o ajustasse na minha visão do período, de modo que nele houvesse resquícios de vida em atividade. Dessa maneira, consegui estabelecer conexões entre como se pensava a educação, à época, e de que forma esse ideário seria concretizado.
Atividade. Penso ser esta a palavra que mais expressa a atuação dessa professora, uma vez que ao chegar neste Estado empreendeu visitas aos mais distantes rincões potiguares em busca de promover uma melhoria no funcionamento das instituições de ensino que permitiriam um vislumbrar de um futuro.
Tomando conhecimento do seu desempenho, transportei-me, por vezes, para o período em estudo. Percorri algumas estradas de barro batido, empoeiradas, circundadas por vegetações secas. Pude ver também o entusiasmo da população de municípios como Santa Cruz, Caicó, Mossoró, Macaíba, Currais Novos, Pau dos Ferros, entre outras por ela visitadas.
Em um espaço social que buscava transformações e modernizações, em consonância com os acontecimentos nacionais, a educação não poderia ficar relegada a um plano posterior. Surgiu então a necessidade de criar uma universidade, diminuir os índices de analfabetismo, capacitar e formar docentes comprometidos com o ato de educar e todas as implicações que este traz.
Para realizar tais ações, o governo do Estado estabeleceu convênio com INEP. O Rio Grande do Norte, a partir daí, procurou manter intercâmbio com diversos Estados da Federação, a fim de garantir o bom andamento das ações multiplicadoras de conhecimento para professores leigos. Ainda, através de um ordenamento legal, a Lei 2.171/1957 fixa as bases da educação elementar e da formação do Magistério Primário. Com isso, imprimiu na educação do Estado a consideração pelo aluno de forma integral, não apenas em função da estrutura escolar, mas também em relação a sua vida doméstica e social. O governo do Estado, através da força de vontade da professora Lia Campos que, a exemplo de Anísio Teixeira – o escolanovista – procurou organizar uma escola condizente com o mundo que o aluno conhecia, respeitando suas necessidades e dando acesso a livros, recreação, saúde e professores melhor preparados.
Ao longo dos anos da década de 1960, o poder público também almejou uma educação sistematizada, de abrangência e de qualidade. Deu continuidade aos cursos de férias para professores leigos; objetivou ampliar o conhecimento dos mesmos de acordo com os preceitos escolanovistas, fiscalizando o cumprimento das ações determinadas pela Secretaria de Educação e pelo CEPE, ampliou a rede escolar, lançou uma campanha de alfabetização de adultos, da qual obteve bons resultados.
Inserida nesse contexto como participante ativa das mudanças educativas, Lia Campos deixou marcada na historiografia norte-rio-grandense e na memória dos que com ela conviveram, enquanto professora e coordenadora de um órgão técnico da Secretaria de Educação, as suas ações de disseminação de ideais e concretização dos mesmos. Fica claro, em sua
prática, aspectos que se mostram tão atuais hoje, quanto eram para o tempo passado. Alicerçado no ensino primário, o trabalho de Lia Campos ressalta a relevância da formação docente para tal nível de ensino e o modo como os que nele trabalham podem conduzir suas concepções e fazeres da prática diária.
Como jovem professora iniciante na carreira do magistério e nos escritos da historiografia da educação, percebo que o “passado é inacabado, no sentido de que o futuro o utiliza de inúmeras maneiras. Daí a possibilidade, e para nós exigência, de que cada geração reescreva a ou as histórias daqueles que a antecederam” (NUNES, 1990, p. 38).
Referências
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