Determinados aspectos do objeto “ser professor” interessam mais aos licenciandos do que outros, principalmente aqueles que lhes possibilitam reduzir o desconforto mental, dando certa estabilidade a essa imagem um tanto controversa. Como se pode perceber nas palavras anteriores, nas quais o sujeito buscou a coerência necessária, por meio de uma descontextualização do objeto, subtraindo características que são exclusivas da Educação Profissional e do Ensino Superior como, por exemplo, a preparação técnica para o trabalho, e generalizando-a para todo o grupo.
Quando se trata da imagem formada sobre o professor responsável pela educação dos níveis mais elementares, a mesma se relaciona com a construção de uma base sólida e estável
de conhecimentos, os quais serão necessários aos níveis educacionais mais elevados. Ou seja, uma imagem que permite aos sujeitos confirmar a ideia de que toda a preparação (técnica, profissional, política e cultural) depende do professor, o que vai ao encontro do discurso oficial, atualmente veiculado pela mídia.
A acadêmica de 42 anos, que exerce a função de professora na Educação Infantil há mais de um ano, utiliza a metáfora de uma ponte para demonstrar, de maneira objetiva, essa base sólida de conhecimentos de que seria a responsabilidade do professor construir, desde os níveis mais elementares. Ao afirmar que: nós que fazemos a ponte para levar as pessoas a
chegar ao mais alto nível da sociedade, fornece uma imagem precisa de que o professor é
aquele que proporciona os conhecimentos necessários a uma passagem segura de um ponto a outro no caminho educacional (e também na vida) que todos nós percorremos.
A partir desses discursos é possível perceber a operação dos processos de objetivação e ancoragem, responsáveis pela formação de uma representação social genérica sobre o “professor”, ou seja, a mesma se aplica não somente ao professor do campo, mas a uma categoria social que abrange todos os professores. De acordo com Jovchelovich (2011, p. 189) a objetivação “[...] é feita de saberes, comunidades e práticas que vieram antes e que, gradualmente, se solidificam na estrutura e na realidade do objeto”. Essa solidificação das estruturas simbólicas do objeto, que é percebido pelos sujeitos como o responsável pela construção de um “caminho” educacional sólido e seguro, por meio do qual o aluno desenvolve a cidadania, sendo preparado e formado para uma profissão. Essa RE se materializa e adquire o status de realidade com a construção de uma imagem carregada de características, que podem ser representadas na metáfora de uma ponte.
As imagens representacionais do “ser professor” são construídas no desenrolar de um percurso que envolve três momentos: a construção seletiva, a esquematização e a naturalização. A primeira etapa dessa construção corresponde a um processo de seleção e descontextualização das informações, ideias e crenças acerca do objeto, por meio do qual o excesso de significações será reduzido. Após a redução dos significados, segue-se uma acentuação, ou seja, acrescentam-se outros elementos que não pertenciam originalmente ao objeto, os quais servirão, sobretudo, para que os sujeitos forneçam explicações e avaliações (VALA, 2000).
O objeto é descontextualizado a partir da focalização, por parte dos licenciandos, nas características relacionadas à utilidade social do professor, sendo esquecidos os elementos históricos, sociais, políticos e econômicos que contribuíram para a sua construção. Observado
nessa perspectiva, o “professor” perde as características de um objeto que fora construído historicamente, a partir das necessidades sociais da humanidade e adquire atributos capazes de torná-lo algo real em si mesmo (ARROYO, 2011; VALA, 2000).
Após a descontextualização do objeto, segue-se uma etapa de organização dos elementos reconstruídos na etapa anterior, denominada de esquematização estruturante. A partir dessa etapa, para cada dos elementos que foram reconstruídos e carregam um sentido próprio, passará a corresponder a uma imagem, a qual possibilitará a materialização do conceito “professor” (VALA, 2000).
A terceira e última etapa do processo de objetivação corresponde à naturalização das imagens que, desse momento em diante passam a substituir os conceitos, ou seja, representá- los em toda a sua realidade. De acordo com Moscovici (2012, p. 116), “a passagem sutil do conceito para entidade coletivamente criada é reforçado pelos hábitos de linguagem”. Esses hábitos podem se expressar por meio de metáforas que, segundo Vala (2000, p. 472) “[...] são um elemento central na produção de conhecimento”. Sendo assim, a metáfora da ponte reúne os elementos suficientes para fornecer uma explicação objetiva e completa para a complexa rede de significados que os sujeitos atribuem ao objeto.
Juntamente com a naturalização dessa entidade concreta, os licenciandos passam a atribuir forças, qualidades e características inéditas ao professor, o que corresponde ao que Vala (2000) denomina de ontologização do objeto. Os sujeitos criam, dessa maneira, um protótipo ou modelo idealizado de professor, que reúne uma série de características definidoras tanto do objeto como dos membros pertencentes a essa categoria. Pode-se observar a construção desse protótipo no discurso da acadêmica de 34 anos, que trabalha como professora na educação infantil há mais de dois anos, afirma que para ser professor,
primeiramente deve ser comprometido e gostar do que faz, porque se você faz uma coisa que não se sente bem, não vai fluir nada e vira uma bagunça.
Por esse mesmo motivo, a acadêmica de 28 anos, desempenhando o papel de professora no primeiro ciclo do ensino fundamental há mais de três anos, acrescenta que
deveriam exercer a profissão, somente profissionais que gostam do que fazem.
Concordando com essa mesma ideia, a acadêmica de 56 anos, atuando como docente no primeiro ciclo do ensino fundamental há mais de três anos, ratifica que a vida de professor
somente abraça mesmo quem tem amor a ela, principalmente quem trabalha fora da cidade como eu que trabalho no interior, enfrenta diversas barreiras quando chega numa comunidade, encontrará pessoas diferentes alunos diferentes.
Seguindo com as definições do protótipo de um professor idealizado, a acadêmica de 27 anos, que possui uma experiência de aproximadamente três anos como professora no primeiro ciclo do ensino fundamental, assegura que o professor precisa ser tolerante,
carinhoso, atencioso, psicólogo, ser tudo, porque nós encontramos alunos de todos os tipos e de naturezas diversas. Acrescentando mais um item nesta essa lista de qualidades, que os
licenciandos julgam necessárias para a atuação docente, a acadêmica de 25 anos, exercendo atividades educativas no segundo ciclo do ensino fundamental há mais de dois anos, pontua que cada professor é responsável por sua turma, é ele quem tem que fazer valer o seu
trabalho e sua dedicação.
Acadêmica de 32 anos, que exerce o papel de professora no segundo ciclo do ensino fundamental há mais de três anos, amplia a relação das características julgadas necessárias e adiciona um elemento de cunho político nessa afirmação, ao indicar que ser professor exige
muita dedicação e compromisso porque não temos muito estímulo por parte do poder público, mas quando é um sonho encaramos bem essa fase. Verifica-se que a dedicação,
pela qual se refere a licencianda acima, está relacionada com a necessidade de uma predisposição interna ao professor, necessária ao enfrentamento das adversidades diárias de uma sala de aula. O compromisso, por sua vez, indica o caráter social que reveste o papel do professor, no qual são depositadas as esperanças de crescimento, mudança e melhoria do mundo em que vivemos.
A Figura 8 fornece um resumo das ancoragens psicossociais, formadas pelos licenciandos pesquisados, capazes de prover uma estabilidade simbólica para o “professor”, a partir da conexão desse objeto com um universo objetivo, que exige daqueles que nele se aventuram e desejam contribuir eficientemente, determinadas habilidades e características subjetivas. Dividindo-se virtualmente a figura em dois quadrantes (um esquerdo e outro direito), tornam-se mais nítidas didaticamente as ancoragens internas aos sujeitos, que poderiam ser denominadas de psicológicas, que estão situadas à direita dessa ilustração, assim como aquelas ancoragens consideradas como sociológicas, que se encontram a sua esquerda.
Figura 8 – Mapa conceitual do “professor do campo”
Verifica-se a construção de uma rede de significados, que se encontram ancorados nas características psicológicas que os sujeitos acreditam serem necessárias ao bom desempenho do professor, bem como no compromisso social assumido por esse profissional, tanto com o desenvolvimento da educação em geral, como especificamente com a formação e preparação dos diversos profissionais, que prestam serviços à sociedade. Tratam-se de ancoragens psicossociológicas que, de acordo com Doise (1992), inscreve os conteúdos das representações sociais na maneira pela qual os indivíduos se situam simbolicamente frente às relações sociais e às divisões posicionais e categorias específicas de um determinado campo social.
O estudo das atitudes dos licenciandos acerca da utilidade social do professor, juntamente com as informações por eles fornecidas, a partir das suas ponderações sobre as necessidades de mudança na profissão docente, evidencia uma representação social generalizadora do modelo esperado para o “ser professor”. De acordo com Jodelet (2001), as RS são um tipo de conhecimento do senso comum que desempenham uma função prática, sendo que essa representação (genérica) de professor exerce quatro funções específicas. Especificamente sobre o objeto pesquisado, pode-se afirmar que elas possibilitam aos licenciandos, compreender e explicar a realidade na qual a docência está inserida; facilita que os licenciandos se situem enquanto pertencentes ao grupo dos professores, localizando e/ou fazendo emergir dessa função os elementos necessários para garantir uma identidade social valorizada; servem como um guia para os comportamentos julgados aceitáveis e que
conduzirão o bom desempenho das funções docentes; permite que os sujeitos justifiquem as suas tomadas de decisão, bem como os comportamentos assumidos (CHAMON e CHAMON, 2007).