O enorme volume da literatura europeia sobre a África tropical, desde o início do século XVI, torna impossível uma enumeração até mesmo dos trabalhos ou autores mais importantes. No entanto, um estudo do caráter geral e uma avaliação dessa literatura como fonte para a história da África servirão melhor ao propósito deste capítulo que um arrolamento interminável de nomes e títulos. Já falamos das alterações nos limites geográficos: no início do século XVI toda a linha costeira do Senegal até o cabo Guardafui era conhecida dos portugueses, que, no fim do mesmo século, penetraram no interior, no antigo Congo, Angola e ao longo do Zambeze. Os dois séculos seguintes acrescentaram muito pouco ao conhecimento europeu: houve algumas tentativas esporádicas de cruzar o Saara; contatos mais duradouros foram estabelecidos ao longo do Senegal e Gâmbia, e um viajante foi do Zambeze até Kilwa parando no lago Malauí. Por outro lado, as informações sobre os povos costeiros, especialmente na África ocidental, tornaram -se mais detalhadas e variadas. A exploração sistemática do
63 Cf. KHANYHOV, M., in: Mélange Asiatique, S. Petersburgo, 1859. Os trechos relativos à África oriental estão sendo preparados para uma tradução de V. P. SMIRNOVA em Leningrado.
64 KHALATYANC, G. Armyanskiv pamyatnik XVII v. o. geograffi Abssinii i Severnoy Afrique voobchetche
(Memória Armênia do século XVII sobre a Geografia da Etiópia e da África do Norte em Geral), in: Zemlevedenye, v. 1 -2, Moscou, 1899.
65 Cf. CURTIN, P. D. 1967, (dir. de publ.) Africa Remembered, Madison, 1967. p. 170 -89: WILKS, I. “Wargee of Astrakhan”. V. também OLDEROGGE, D. A., “Astrakhanec v Tombuktu v 1821 g.” (Um homem de Astrakan em Tombuktu em 1821), Africana/Afrikanskiy etnografitcheskiy sbornik, VIII, Leningrado, 1971.
66 Uma série de documentos sobre a história das relações entre a Etiópia e a Armênia, dos tempos antigos até o século XIX, está sendo publicada pelo Instituto de Estudos Orientais da RSS da Armênia, Erevan.
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As fontes escritas a partir do século XV
interior africano iniciou -se somente no fim do século XVIII, terminando com a divisão do continente entre as potências coloniais.
Em termos de representação nacional, pode -se dizer que os autores do século XVI eram predominantemente portugueses; os do XVII, holandeses, franceses e ingleses; os do XVIII, principalmente ingleses e franceses, e os do XIX, ingleses, alemães e franceses. Outras nações europeias foram, evidentemente, representadas no decorrer de todos esses séculos, como, por exemplo, os italianos no Congo no século XVII e no Sudão oriental no XIX, ou os dinamarqueses na Costa dos Escravos e na Costa do Ouro nos séculos XVIII e XIX. E há, entre os autores de livros de viagens e descrições (mas especialmente no último século), pessoas da Espanha, Rússia, Bélgica, Hungria, Suécia, Noruega, Tchecoslováquia, Polônia, Suíça, Estados Unidos, Brasil, e por vezes até um grego, romeno ou maltês. Felizmente, a maioria dos livros escritos em línguas menos conhecidas tem sido traduzida para línguas mais acessíveis.
Ao avaliar os materiais europeus, devemos levar em consideração não tanto a nacionalidade dos autores, mas, sim, a mudança de atitudes dos europeus em relação aos africanos e suas sociedades em geral. Seria simplista afirmar que os escritores portugueses estavam mais inclinados a observar com preconceitos cristãos os povos que descreviam, do que os ingleses, por exemplo; ou que os holandeses estavam mais propensos à observação objetiva do que os escritores de outras nações. Evidentemente, há diferença entre um cronista português do século XVI, cuja abordagem estava impregnada dos valores medievais, e um estudioso ou médico holandês do fim do século XVII, produto de uma cultura já mais racional. A quantidade e variedade dos materiais à nossa disposição não nos permitem nenhuma generalização apressada; somente a análise individual de cada um, de acordo com seus méritos, que leve em consideração, evidentemente, sua data e o assunto tratado, nos permitiria formalizar um julgamento. Deve- -se também evitar a falácia de que, com o tempo, houve uma melhora gradual na objetividade das narrativas e de que, quanto mais nos aproximamos da atualidade, mais científicas se tornam as observações sobre a realidade africana, o que equivaleria a admitir, aprioristicamente, que uma narrativa de um viajante do século XIX tem, simplesmente por isso, uma credibilidade maior que uma narrativa escrita três séculos antes. Burton e Stanley, enquanto observadores, eram prisioneiros da ideia, apresentada como cientificamente provada, da superioridade dos homens brancos, do mesmo modo que os autores portugueses eram prisioneiros da pretensa superioridade de sua fé cristã. O período do comércio de escravos não era, em geral, favorável a narrativas objetivas sobre os africanos, mas as necessidades práticas do comércio exigiam um estudo
122 Metodologia e pré -história da África
minucioso das atividades econômicas e sistemas de governo na África, de modo que temos, já nessa época, uma série de fontes muito valiosas.
Livros sobre a África e os africanos foram escritos por missionários, comerciantes, funcionários públicos, oficiais da marinha e do exército, cônsules, exploradores, viajantes, colonizadores e, alguns, por aventureiros e prisioneiros de guerra. Cada qual tinha seus próprios interesses; assim sendo, os propósitos e abordagens variam consideravelmente. As “narrativas de viajantes”, típicas de um certo gênero literário, estavam preocupadas com um mundo desconhecido, exótico e estranho e deviam responder às exigências gerais de seus leitores. Essa inclinação pelo exótico e pela aventura, ornamentada por opiniões mais ou menos fantásticas sobre os povos africanos, ou descrevendo com complacência os inúmeros perigos encontrados pelo heroico viajante, persistiu até o século XIX67.
Os missionários dispensavam alguma atenção às religiões africanas, mas em sua maioria careciam da habilidade e boa vontade para compreendê -las, e estavam preocupados principalmente em expor seus “erros” e “barbarismo”; por outro lado, eles conheciam as línguas locais, estando, portanto, numa posição melhor que os outros para apreender a estrutura social. Às vezes demonstravam interesse pela história, passando então a coletar as tradições orais locais.
No século XIX, a maior parte da literatura narrativa provém dos exploradores, que, de acordo com a tendência da época, tinham sua atenção voltada principalmente para a solução de grandes problemas geográficos, de modo que sua contribuição serviu mais para a geografia física que para o conhecimento da sociedade africana. “A maioria deles estava mais interessada nas vias navegáveis do que nas vias da cultura”68. E muitos, sendo cientistas naturais, careciam de senso histórico ou
acreditavam no mito da ausência de história africana. Existem, evidentemente, exceções a essa regra, sendo a mais famosa a de Heinrich Barth.
Por outro lado, surgiram, já no decorrer do século XVIII, certas histórias de Estados ou povos africanos, como The History of Dahomy (Londres, 1793), de Archibald Dalzel, que, num exame minucioso, revela -se como um panfleto antiabolicionista.
Depois de mostrar algumas deficiências das fontes narrativas europeias, podemos agora examinar seus aspectos mais positivos. Acima de tudo, elas nos fornecem a estrutura cronológica tão necessária na história da África, onde a datação é um dos pontos mais fracos da tradição oral. Mesmo uma única data, dada por um viajante ou outro autor, por exemplo, de seu encontro com
67 Cf. agora ROTHBERG, R. 1971. 68 MAZRUI, A. A. 1969.
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As fontes escritas a partir do século XV
alguma personalidade africana, pode constituir um ponto de partida para toda a cronologia de um povo e às vezes até para mais de um. O simples fato de estarem registradas por escrito não significa, entretanto, que todas as datas devam estar corretas. Há casos em que autores europeus, relatando boatos ou tentando calcular um intervalo de tempo de acordo com fontes não -controláveis, cometeram erros mais ou menos graves. Mas os europeus tinham, em geral, à sua disposição, uma medida do tempo tecnicamente mais desenvolvida.
A literatura narrativa é de importância primordial como fonte da história econômica: rotas comerciais, principais mercados, mercadorias e preços, agricultura e artesanato, recursos naturais, tudo isso podia e era observado e descrito sem preconceitos. Com efeito, os europeus necessitavam, em seu próprio favor, de narrativas tão objetivas quanto possível sobre esses assuntos. É verdade que os recursos naturais ou possibilidades econômicas de algumas regiões foram pintados com cores muito brilhantes, a fim de se fazerem realçar os méritos do explorador. Mas o historiador está acostumado a esses exageros e os leva em consideração.
O que os europeus mais bem registraram foram suas observações dos aspectos exteriores das sociedades africanas, dos chamados “usos e costumes”; os documentos fornecem descrições ricas, precisas e requintadas de várias cerimônias, vestimentas, comportamentos, estratégias e táticas de guerra, técnicas de produção, etc., não obstante, às vezes, a descrição ser acompanhada por epítetos como “bárbaro”, “primitivo”, “absurdo”, “ridículo” e outros termos pejorativos, o que, por si só, não significa muito; trata -se somente de um julgamento em função dos hábitos culturais do observador. Muito mais grave é a total falta de compreensão da estrutura interna das sociedades africanas, da complicada rede de relações sociais, da ramificação das obrigações mútuas, das razões mais profundas para determinados comportamentos. Em suma, os autores eram incapazes de descobrir as motivações profundas das atividades africanas.
Apesar de tudo, a redação da história da África seria quase impossível sem o material fornecido pelas fontes narrativas europeias. Elas podem ter suas deficiências: ignorar muitos detalhes, ou tratá -los de um ponto de vista preconceituoso, parcial, ou, ainda, interpretá -los incorretamente. Mas estes são riscos normais, inerentes a toda historiografia, e não é razão para se rejeitar esse amplo e extremamente importante conjunto de informações. Ao contrário, há uma necessidade urgente de se reeditar o maior número possível de narrativas desse tipo, e de publicá -las com comentários e notas apropriados, tornando possível, assim, sua avaliação e reinterpretação à luz da nova historiografia da África.
124 Metodologia e pré -história da África
Fontes narrativas internas
Durante o período que estamos estudando, ocorreu um novo fenômeno, de consequências capitais: o aparecimento e desenvolvimento de uma literatura histórica escrita por africanos da região ao sul do Saara. O meio de expressão não era, inicialmente, nenhuma das línguas africanas locais, mas, sim, o árabe – cujo papel no mundo islâmico pode ser comparado ao que o latim representou na Idade Média europeia, isto é, o meio de comunicação entre os povos cultos –, e, mais tarde, também algumas das línguas europeias.
A tradição historiográfica parece ter começado ao mesmo tempo no cinturão sudanês e na costa africana oriental, precisamente nas duas grandes regiões cobertas até essa época pelas fontes árabes externas e nas quais o Islã exerceu uma prolongada influência. As mais antigas crônicas existentes datam do início do século XVI, embora relatem eventos dos períodos anteriores. A primeira, o Ta’rikh al ‑Fattash, obra de três gerações da família Kati de Djenné, cobre a história do Songhai e dos países vizinhos até a conquista marroquina em 1591. Mais extenso e mais rico em detalhes é o Ta’rikh al ‑Sudan, escrito pelo historiador de Tombuctu, El -Saadi, e que cobre em parte o mesmo período, continuando, porém, até 1655. Ambas são obras de grandes estudiosos, com um vasto campo de interesses e um conhecimento profundo dos acontecimentos seus contemporâneos. Mais significativo ainda é o fato de, pela primeira vez, podermos ouvir a voz de africanos autênticos, mesmo sabendo serem os autores francamente partidários do Islã e observarem os acontecimentos desse ponto de vista. No século XVIII tem origem uma história anônima, mas muito detalhada, dos paxás marroquinos de Tombuctu, entre 1591 e 1751, contendo também material útil dos países e povos vizinhos69. Outro tipo de fonte é representado
pelo dicionário biográfico dos intelectuais do Sudão ocidental, compilado pelo famoso estudioso Ahmed Baba, de Tombuctu (morto em 1627)70. É à mesma
região do Império Songhai que pertence o Ta’rikh Say, crônica árabe de Ibn Adwar, escrita, segundo dizem, em 1410. Se fosse autêntica, seria o mais antigo documento existente escrito na África ocidental. Contudo, parece ser, mais propriamente, uma versão tardia da tradição oral71.
69 Tarikh al ‑Fattach. Trad. e comentado por O. HOUDAS e M. DELAFOSSE, Paris, 1913 (reed. 1964);
Tarikh al ‑Sudan, trad. e comentado por O. HOUDAS, Paris, 1900 (reed. 1964); Tadhkirat es ‑nisyan, trad.
e anotado por O. HOUDAS, Paris, 1899 (reed. 1964). 70 Publicado em Fez, 1899, e no Cairo, 1912.
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As fontes escritas a partir do século XV
De Tombuctu e Djenné a tradição da crônica escrita expandiu -se para outras áreas, especialmente para o sul e oeste, na região situada entre o Sahel e a floresta tropical, e, em alguns casos, até mais ao sul ainda. Intelectuais muçulmanos começaram a registrar por escrito, a partir da metade do século XVIII ou até antes disso, crônicas locais, genealogias de clãs, biografias concisas e livros religiosos. O exemplo mais notável é Kitab Gonja, escrito depois de 1752, que é uma história do Reino Gonja, baseada, em parte, em tradições orais72. Há muitas crônicas
de menor importância, e é de se esperar que outras surjam em outros lugares, nessa região sob influência das comunidades diula ou haussa, ou de ambas. A maior parte desses trabalhos está escrita em árabe. Muitas crônicas também foram escritas em ajami, isto é, em línguas locais, mas com caracteres árabes.
A situação é análoga nas regiões de fala fulfulde, sobretudo em Futa Toro e Futa Djalon. Na própria Guiné, assim como em Dacar e nas bibliotecas em Paris, há muitas crônicas daquelas regiões em árabe ou em fulfulde (ou em ambas), a maioria datando dos séculos XVIII e XIX. Os materiais de Futa Djalon só recentemente foram publicados e examinados em obras científicas, Quanto a esse aspecto, pode -se fazer referência à coleção de Gilbert Vieillard, mantida na biblioteca do IFAN em Dacar73. Já para Futa Toro a situação é outra:
as Crônicas dos Futa Senegaleses de Siré -Abbas Soh, um autor do século XVIII, tornaram -se acessíveis já há meio século74. Outro antigo trabalho, um dicionário
biográfico de Muhammad el -Bartayili chamado Fath el ‑Sahkur (c. 1805), está sendo preparado para publicação por John O. Hunwick; uma história mais moderna dos Futa Toro, escrita em 1921 por Xeque Kamara Musa de Ganguel e intitulada Zuhur al ‑Basatin (Flores dos Jardins), ainda não foi publicada75.
No norte da Nigéria também, crônicas e outras fontes em árabe surgiram em data relativamente recente. O imame Ibn Fartuwa (fim do século XVI) deixou um relato fascinante e detalhado da vida e da época de Mai Idris e de suas guerras76. De período mais recente são as várias listas de governantes e crônicas
do Bornu. Uma fonte excepcional é representada pelos chamados mahrams, registros de privilégios concedidos por governantes a famílias de notáveis religiosos, através dos quais podemos perceber também condições econômicas
72 V. sobre esses e outros assuntos WILKS, I. 1963, e HODGKIN, T. 1966. 73 SOW, A. I. 1968; DIALLO, T. 1968.
74 Trad. por M. DELAFOSSE e H. GADEN, Paris, 1913.
75 Mantida na biblioteca do IFAN, Dacar; cf. MONTEIL, V. 1965, p. 540.
76 Editado por H. R. PALMER, Kano, 1930; trad. in: Sudanese Memoirs I, Lagos, 1928, e in: History of the
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e sociais77. Não resta muita coisa do material histórico pré ‑jehad na região haussa,
embora o nível de instrução, especialmente entre os líderes religiosos fulani, fosse relativamente alto78; mas alguns poemas na língua haussa ou em kanuri (Bornu)
contêm comentários sobre acontecimentos da época79.
O início do século XIX presenciou um renascimento da literatura árabe no Sudão central e ocidental; além dos trabalhos naquela língua, um número cada vez maior de livros foi escrito em línguas locais, como haussa, fulfulde, kanuri, mandara, kotoco, etc., utilizando caracteres árabes. Os mais produtivos foram os líderes dos jehad fulani, no norte da Nigéria, apesar de grande parte de sua produção literária tratar de assuntos religiosos, e somente algumas obras poderem ser consideradas verdadeiras crônicas80; toda essa literatura, em árabe ou
numa das línguas africanas, ajuda a construir um quadro mais coerente da vida social e intelectual nessa região. As crônicas das cidades haussa (Kano, Katsina, Abuja, etc.), embora originárias do fim do século XIX, baseiam -se de certa medida em documentos mais antigos ou na tradição oral81. Um desenvolvimento
similar ocorreu mais a leste, em Baguirmi, Kotoco, Mandara e Uadai. Algumas crônicas ou listas de reis já foram publicadas, mas muitas outras ainda estão em manuscritos e espera -se descobrir outras mais, em coleções particulares82.
Uma crônica rimada em fulfulde descreve a vida e as atividades do grande reformador tukulor al -Hadjdj’Umar83, autor de um trabalho religioso, Rimah
Hizb el ‑Rahim (Lanças do Partido do Deus Misericordioso), que contém também
muitas alusões históricas às condições de vida no Sudão ocidental84.
77 Recolhido por H. R. PALMER, nas suas Sudanese Memoirs, 3 v., Lagos, 1928 e em The Bornu, Sahara and
the Sudan, Londres, 1936; cf. também Y. URVOY, “Chroniques du Bornu”, Journ. Société des Africainistes,
II, 1941.
78 HISKETT, M. 1957, p. 550 -558; BIVAR, A. D. H. e HRSKETT, M. 1962, p. 104 -48. 79 Cf. PATTERSON, J. R. 1926.
80 BELLO MUHAMMAD, Infaqu l ‑maysur, editado por C. E. J. WHITING, Londres, 1951; trad. inglesa da paráfrase haussa de E. J. ARNETT, The Rise of the Sokoto Fulani, Kano, 1922; Abdullahi DAN FODIO, Tazyin al ‑waraqat, trad. e coment. por M. HISKETT, Londres, 1963; HAJJI SACID,
History of Sokoto, trad. por C. E. J. WHITING, Kano, s.d.; também uma tradução francesa de O. Houdas,
Tadhkirat annisyan, Paris, 1899.
81 The Kano Chronicle. Trad. por H. R. PALMER, in: Sudanese Memoirs III, 1928; sobre Katsina cf. op. cit., p. 74 -91; sobre Abuja, v. MALLAMS HASSAN e SHUAIBU, A Chronicle of Abuja, trad. do haussa por P. L. HEATH, Ibadan, 1952.
82 Cf. H. R. PALMER, 1928; várias obras de J. P. LEBOEUF e M. RODINSON em Études camerounaises, 1938, 1951, 1955 e BIFAN, 1952 e 1956; M. A. TUBIANA sobre Uadai, in: Cahiers d’études africaines 2, 1960.
83 RYAM, M. A. La vie d’El Hadj Omar – Qasida en Poular. Trad. por H. CAHEN, Paris, 1935. 84 Kitab Rimah Hizb al ‑Rahim, Cairo, 1927; nova ed. e trad. está sendo preparada por J. R. WILLIS.
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A costa africana oriental pode ser comparada com o Sudão quanto ao número de suas crônicas. Há crônicas de muitas cidades, escritas em árabe ou em kiswahili (em escrita árabe), que fornecem listas de reis e narrativas da vida política. Somente a crônica de Kilwa é realmente antiga. Foi composta em 1530 aproximadamente e chegou até nós em duas versões diferentes, uma transmitida por de Barros, e a outra copiada em Zanzibar em 187785. As crônicas, na sua maioria, só foram
compiladas recentemente, embora algumas remontem à segunda metade do século XVIII. Muitas delas se concentram em acontecimentos anteriores à chegada dos portugueses. Constituem, de certa forma, registros de tradições orais e devem ser tratadas e avaliadas como tais86. Um número considerável
de manuscritos ainda pertence a coleções particulares. Desde 1965, mais de 30 mil páginas de manuscritos swahili (e árabes também) foram descobertas, e é de se esperar que, quando toda a costa tiver sido completamente explorada, encontremos materiais que venham esclarecer muitos aspectos desconhecidos da história da África oriental87. Além das crônicas das cidades, outros gêneros
literários podem ser utilizados com proveito pelos historiadores, como, por exemplo, a poesia swahili, notadamente o poema al ‑Inkishafi (composto na segunda década do século XIX), que descreve a ascensão e o declínio de Pate88.
A produção literária dos africanos em línguas europeias tem início dois séculos mais tarde que a redação em árabe. Como era de se esperar, os primeiros exemplares foram produzidos por indivíduos da costa ocidental, onde os contatos com o mundo exterior eram mais intensos que em qualquer outro ponto.
Apesar dos nomes de Jacobus Captain (1717 -1747), A. William Amo (c. 1703 -c. 1753) e Philip Quaque (1741 -1816), todos de origem fanti, não deverem ser esquecidos como os pioneiros da literatura africana em língua europeia, sua contribuição para a historiografia da África foi insignificante. Incomparavelmente mais importantes como fontes históricas são os trabalhos dos escravos libertados, da segunda metade do século XVIII: Ignatius Sancho (1729 -1780), Ottobah Cugoano (c. 1745 -1800) e Oloduah Equiano (Gustavus Vasa; c. 1745 -1810?). Todos os três estavam especialmente interessados na abolição do comércio de escravos, e seus livros, embora polêmicos, fornecem muito material biográfico
85 Analisado por FREEMAN -GRENVILLE, G. S. P. The Medieval History of the Coast of Tanganyika, Oxford, 1962.
86 Sobre as crônicas árabes e swahili em geral, cf. FREEMAN -GRENVILLE, G. S. P., 1962; PRINS, A. H. J. 1958; ALLEN, J. W. T. 1959, p. 224 -27.
87 A mais importante descoberta desse tipo nos últimos anos foi a de Kitab ‑al ‑Zanj (Livro dos Zanj), que trata da história da Somália do sul e do Quênia do norte; cf. CERULLI, E. 1957.