Sobre a sua relação com as drogas, conta que sua primeira experiência foi com um dos namorados (Valter) da mãe. Ela experimentou maconha logo após sair da Fundação Casa, aos 16 anos.
Quando eu saí eu conheci o lindo do padrasto da minha mãe, o meu lindo padrasto, aí ele fumava maconha, aí eu pedia pra minha mãe se eu podia fumar, ela falava que e você quiser fumar você fala com a sua mãe, se ela maconha. Nossa, fumei, sem saber, fumei, fumei, fumei fumei, quase tive uma overdose de maconha, fumei com a barriga vazia, e eu não sabia que tinha que comer antes né? Eu já tinha dado uns trago, mais uns trago é, mínimo, fumei uma bucha, nossa, sozinha, imagina como eu cheguei em casa...
Quando sua mãe descobriu, não proibiu e nem a orientou, impondo como única restrição o fato de que ela teria que sustentar seu uso com seu próprio dinheiro. É possível que o próprio modelo materno de uso prejudicial de drogas a impediram de funcionar como uma figura de apoio, de informação e de proteção.
Gradativamente, Negão passa a experimentar outras drogas até chegar ao uso do crack. O uso de drogas acabou aos poucos corroborando para a saída de casa.
partir do momento que você trabalha e não me dá nenhum B.O., você pode fazer o que você quiser da sua vida, aí foi embora, eu peguei e fui embora .
Eu vim a usar [outras drogas, que não a maconha] droga quando eu saí de casa... quando eu me envolvi com o pai do Johnny, que ele era traficante pé de chinelo..
Depois que experimenta o crack, a maior parte de suas recaídas está relacionada a ele. Utiliza até hoje maconha e bebida de maneira esporádica, referindo que não afeta no cuidado com os filhos e o trabalho. No entanto, diz que algumas vezes bebe muito e por isso acaba faltando no trabalho ou chegando atrasada e deixando de acompanhar algumas rotinas dos filhos. Contudo, isso parece não romper com os modelos de sedentariedade. Já quando recai no crack, desorganiza-se e parece desejar abandonar esses modelos e voltar a viver uma vida de menos regras e compromissos. Nos últimos anos, em que já estava na Associação, teve recaídas esporádicas no uso de crack, utilizando todo o dinheiro que tem disponível para consumo compulsivo de crack, caracterizando um padrão de uso chamado de binge9
Os filhos, assim como a parceira, foram preponderantes para que ela não abandonasse por completo o modelo de vida que vinha construindo. Talvez essas recaídas se relacionem com um sufocamento produzido pela própria normatização, a qual, aos poucos, ela vai se moldando, ou é cobrada a se moldar.
Ao mesmo tempo, Negão relata que a pressão que a parceira exerce também é causa das suas recaídas. Negão relata que a parceira é muito agressiva e que esse excesso de conflito entre elas a esgota. Além disso, sente necessidade de manter uma vida social, referindo que isso funciona como uma válvula de escape. Diz que sua parceira restringe sua vida social fora do âmbito familiar, motivada por ciúmes, o que faz com que Negão se sinta cada vez mais sufocada e acabe muitas vezes recaindo. Por outro lado, a única pessoa que consegue fazer com que Negão interrompa o uso compulsivo é sua parceira, nem que tenha que utilizar a força física. As duas estabelecem um modelo cíclico de pressão e recaídas, o que ainda mantém a relação entre elas, pois apesar de Negão relatar o seu desejo de romper com Talita, não parece ter força o bastante para fazê-lo.
Ela quer que eu me abra com ela, mas na primeira briga ela já fala tudo na cara o que eu falei. Então eu prefiro guardar pra mim. Que nem, ontem eu estava mal, se eu tivesse dinheiro eu tinha fumado, tinha mesmo, juro por deus que tá no céu, eu tinha fumado, a minha sorte que eu só vou pegar o dinheiro segunda-feira porque se eu tivesse pegado ontem uma hora dessa eu nem estava aqui, só ia chegar na segunda- feira
9 Binge é o chamado padrão de consumo intenso, contínuo e repetitivo de crack. Provocado pela fissura, pode
É muita pressão. Então, eu penso nos meus filhos, é muita coisa pra minha cabeça, é muita pressão, eu quero largar da Talita, mas quando eu falo a verdade, ela não quer aceitar.
Ela não quer que eu fique no celular, não quer que eu fique passando mensagem, não quer que eu fique na casa das meninas. Ela quer que eu fique dentro de casa! Ó, minha rotina do serviço. É da casa pro serviço, do serviço pra casa. Quando eu quero saí, ir aqui na lanchonete, ela fala: ão . Ou quando chega alguém ela diz:
ai vamos descer, vamos embora .
Eu já tenho 31 anos, eu não sou nenhuma criança. Posso ter meus probleminhas assim de recair porque, pra mim não é defeito e também não é normal, mas aí é por causa de muita pressão. É muita pressão demais.
Assim, suas recaídas parecem estar relacionadas a esse conflito entre o mundo sedentarizado e o mundo nômade, para além da dependência química por si só. Negão administra o uso de álcool e maconha sem que isso cause grandes perdas em sua vida e na vida de seus filhos, diferentemente da recaída do crack, até pela forma como isso acontece.