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Quando nas categorias de análise surge a noção de conhecimento produzido por conteúdos escolares, talvez seja uma questão que possa estar para muitos/as professoras no espaço da escola, no sentido desse conteúdos que são selecionados a partir de determinados critérios pessoais e das indicações das propostas da Secretaria da Educação. Soma-se a isso a exigência de se pensar que esses conteúdos tem uma estrutura lógica, pensar nas condições

32 Refere-se ao sociólogo suíço Philippe Perrenoud que discute sobre a profissionalização de professores/as e

avaliação de alunos. O livro referenciado sobre as dez competências chama-se Dez novas competências para ensinar, que no Brasil saiu pela Editora Artmed em 2000.

115 psicológicas para a aprendizagem e ainda contextualizar em relação às necessidades socioeconômicas e culturais do contexto em que o/a aluno/a está inserido/a (DELORS, 2001).

O conhecimento escolar como desdobramento dos conteúdos ensinados na sala de aula não desconsidera que exista um processo de seleção e organização desses conteúdos e para Julio essa questão pontua sua crítica à escola que ele chama de atual no sentido de referendar que foi se perdendo ao longo dos tempos a característica dos conteúdos escolares como elemento essencial da construção do conhecimento.

Antes não era assim (referindo-se a pressão por não reprovar os/as

alunos/as), eram salas onde as pessoas tinham muita dificuldade, mas às vezes um pequeno gesto, um aprender, lê um pouquinho e que o progresso às vezes...fazia as pessoas muito felizes, e você sentia isso aí.

Quando Moreira (2000) na apresentação da revista Educação & Realidade (n. 73) traz uma reflexão sobre o conhecimento escolar, aponta que desde a década de 1970, esse conhecimento se estabeleceu como objeto de estudo nas pesquisas acadêmicas, então, assim se pensar como articula as relações entre conhecimento escolar poder no reforço de divisões sociais referentes à classe social, as etnias e ao gênero.

Os conteúdos escolares integram os planos curriculares de cada disciplina e da escola como um todo. A questão principal a se pensar é entender quais saberes compõem a estruturação desses conteúdos, já que como apresenta Roberta, em relação aos conteúdos da disciplina de História que se misturam aos seus saberes pessoais do que significa ser importante aprender, acabam criando um conceito muito específico dela sobre o significado do saber histórico para os/as alunos/as e para si mesma.

[...] a História, ela mostra que as pessoas pensam de forma diferente e agem de formas diferentes. Muitas vezes, sobre um mesmo assunto. As estratégias que um grande general usa, sei lá...(pausa pensativa)...um cientista usou, foram diferentes as estratégias, o jeito de fazer foram diferentes, e eles conseguiam, se foi bom ou ruim eu não sei, não é essa a questão, mas atingir o objetivo dele.

Ou mesmo quando Melissa liga também conhecimentos históricos aos conteúdos da disciplina, mobilizando esses conhecimentos como uma forma de apenas conhecer algo relacionado a outros temas que não estejam elencados dentro do ensino de História, referendado a partir muito mais de seus valores pessoais, do que de um saber disciplinar ou mesmo pedagógico.

116 Da sexualidade?...[longa pausa]...Ah, sei lá, talvez um período, uma época de mudança, do mundo jovem, foi a época dos hippies, que foi a que...que os jovens se transformaram, mudaram, se descobriram ou não sei se foi até pelo uso das drogas, que não sei se interferiu e era tudo muito abeto, era a chama revolução sexual né. Então talvez ali foi um período de maior mudança, que vale a pena citar dependendo da época que estou, eu cito o...[pausa tentando recordar]...o Festival de Woodstock, aquelas imagens que aparecerem, aquelas coisas assim, mas dependendo do contexto, se eu estou naquela época, as transformações que ocorreram, se aconteceu alguma coisa de importante.

Por isso, Moreira (2000, p. 43) ao afirmar que quando se discute currículo na definição que se dá “[...] pelos que detém o poder, os currículos são vistos como construções históricas e como instrumentos de controle”, vem à cena diferentes posicionamentos sobre essa questão, desde os que defendem a transmissão dos conteúdos, aos que criticam sob quais situações ocorrem essas escolhas, como quando discute a recente influência dos estudos culturais e do pós-modernismo no pensamento sobre currículo.

O currículo é concebido como texto, como discurso, como prática de significação, como representação. Destacam-se seu caráter produtivo, sua capacidade de atribuir sentidos, e se estabelecem como metas, em um currículo criticamente orientado, identificar relações sociais opressivas, desafiar regimes de verdade instaurados e questionar tudo o que vem passando por natural (MOREIRA, 2000, p. 44).

Dessa maneira, existe um imenso campo de debate e discussão em que se possa relacionar conhecimento, conteúdos escolares e currículo, porém, devido ao recorte dessa pesquisa centrar-se nos saberes docentes sobre diversidade sexual, não será possível estender mais, e cabe destacar, que se há esse apontamento na fala do/as entrevistado/as, significa que há também que se pensar sobre esses saberes que compõem essa relação de conteúdo e conhecimento, e se parte de visões tradicionais sobre aprendizagem.

O aluno estudando ou não estudando, aprendendo ou não aprendendo a escrever, a saber ou a não saber fazer, ele se sente recompensado no fim ano. Tirando zero ou tirando cinco, ele é promovido, basta que ele vá a escola (Julio).

Existe estímulos como o Bolsa Escola 33 que é importante e tudo, mas que

leva o aluno à escola, mas que não tem que cobrar dele uma posição em termos de aprendizagem, a não ser frequência. Com isso acabou descaracterizando e, desmotivando outros que tinham mais apego, mais

33 O Bolsa Escola foi um Programa do Governo Federal criado em 2011, que contribuía recursos para

manutenção das crianças em idade escolar na escola, devendo apresentar 85% de frequência e possuir renda inferior a R$90,00 mensais.

117 preocupação em aprender, e isso acabou criando um clima complicado na escola (Julio).

A questão fica para se pensar e entender que muito desse questionamento vem de uma construção durante a trajetória comparando com tempos anteriores para entender o hoje, de forma a postular uma crítica muito mais calcada em elementos do momento vivenciado pelo/as entrevistado/as mais próximos a ele e elas, do que de fato ao olhar mais crítico no passado, como se também fosse tão fácil realizar esse movimento.

Benzer Belgeler