Como instrumento para descrever no processo de sala de aula, optamos por elaborar uma proposta de sinopse, inspirada a partir da sinopse teorizada por Bernard Schneuwly, Joaquim Dolz e Christophe Ronveaux (2005, p. 1), pertencentes ao Groupe Romand d'Analyse du Français Enseigné (GRAFE), que a consideram como um instrumento metodológico especializado, “para estudar a evolução do objeto ensinado no contexto das práticas de classe”8, ou seja eles usam o quadro com a finalidade de comparar e descrever objetos de estudos, na prática de sala de aula para ver se os professores diferem quando trabalham um objeto discursivo e um objeto gramatical, identificando as coerções das situações didáticas trabalhadas. Compreendemos a sinopse como uma apresentação concisa das atividades realizadas, decorrente de uma interpretação nossa, para dar uma visão geral, de forma sumarizada, do objeto de ensino trabalhado pela professora em sala de aula.
Para isso, decompomos a aula da professora em seqüências hierárquicas, estabelecendo, com base na gravação, a marcação do tempo decorrente das nossas unidades de descrição; codificamos as práticas comunicativas realizadas no
trabalho da professora, os suportes ou materiais empregados na aula e por último a descrição propriamente dita (ver capítulo III).
Os objetivos dessa sumarização, em forma de quadro sinóptico, das práticas comunicativas e seqüências didáticas foram: a) destacar características gerais do funcionamento da sala de aula; b) orientar teoricamente a descrição, conforme as escolhas metodológicas; c) hierarquizar e ordenar o objeto de ensino trabalhado em sala de aula; d) mostrar a seqüenciação da aula, os gêneros discursivos e as práticas de linguagem utilizadas em função do objeto de ensino e as ocorrências de sala de aula.
Schneuwly, Dolz e Ronveaux (2005, p. 1) levantam dois aspectos a serem considerados na elaboração da sinopse: o primeiro, aceitar um ponto de vista múltiplo, (multidimensionais e multifocais), para estudar os objetos ensinados; o segundo, a disposição da sinopse em função da reconstrução desses objetos ensinados.
A sinopse é útil para a verificação de como um professor re-configura um objeto a ser transposto de livros didáticos e projetos pedagógicos para a sala de aula. Essa re-configuração é decorrente dos objetivos de ensino, de um plano de aula, que se altera e, por conseguinte, não são estáveis. A alteração de um objeto transposto para sala de aula se dá na relação do professor com o aluno e na relação destes com o objeto de ensino.
A sinopse pode mostrar o que é trabalhado em sala de aula; o como esse objeto a ensinar é trabalhado em sala de aula, detalhando as seqüências que ocorrem, estabelecendo uma hierarquia, em um intervalo de tempo e também, a percepção das trocas verbais (a interação, a recepção, a aprendizagem) que ocorrem em sala de aula.
É nesse sentido que os autores acentuam a dimensão multifuncional de uma sinopse, reconhecendo que o objeto a ensinar é complexo e que só com a decomposição deste em micro-fenômenos poderemos melhor estudá-lo.
A visão múltipla ou multifocal complementa a compreensão do caráter multidimensional do objeto. Os gestos multifocais estão, segundo os autores (2005, p.5), em função da:
temporalidade do objeto (memória e antecipação didática), os dispositivos didáticos (formulação das tarefas, dos suportes e das formas de trabalho); a regulação e a memória didática; as reações aos imprevistos e os efeitos das dificuldades encontradas na construção do objeto; a institucionalização de novos conhecimentos; a avaliação, etc.9
O quadro sinóptico a seguir foi construído à luz dessa proposta, realçando, principalmente, o modo de trabalho didático da professora. Foi uma construção paulatina conforme o interesse da pesquisa, no aspecto de descrição, como também decorrente do encaminhamento dado, a partir dos seus saberes, enquanto educadora no seu percurso didático-pedagógico.
Desse modo, o nosso quadro sinóptico10 configura-se da seguinte forma:
9 No original : la mise en temporalité de l'object (mémoire et antecipation didactiques); les dispositifs
didactiques (formulation des tâches, supports et formes de travail); la régulation er la mémoire didactique; la réaction à l'imprévu et l'effet des obstacles rencontrés sur la construction de l'objet; l'institutionnalisation de nouveaux savoirs; l'évaluation, etc.
10 A sinopse que ilustra o quadro-sinóptico é uma das quais será usada na descrição e na análise,
que estará exposta também na primeira seção, correspondente à 1ª aula, no início do capítulo III desta dissertação.
Quadro 1: Proposta de sinopse do percurso didático-pedagógico Sinopse de seqüências de ensino: romance “O Pequeno Príncipe”
Professora: Aline Aula: apresentação do romance
Série: 5ª Fita: 1 Data: 6/5/2005 - sexta-feira N TF PEA MEIOS Descrição das Atividades
1.1 t.1 a t. 3 Produção oral e escuta Organização e orientação da turma A organização da turma:
A professora chama a atenção dos alunos para o início da aula.
1.2 t.3 a
t.69 Produção oral Instruções orais e discussão em sala
Livro
Exposição oral e checagem global de informações sobre o romance:
A professora orienta que os alunos pesquisem a pronúncia do nome do autor da obra
A professora pronuncia o nome da obra em francês e comenta sobre a nacionalidade do autor
A professora direciona perguntas de contexto § o contraste entre diversas edições brasileiras; § a temporalidade de circulação da obra. t.70 Leitura e
escuta Leitura oral da “apresentação ” do romance 1ª orelha do livro
Leitura e escuta do texto da primeira orelha do livro e perguntas de interpretação e compreensão textuais: A aluna Daiana faz a leitura em voz alta da apresentação da 48ª edição. 1.3 t.71 a t.12 7 Produção oral e escuta Debate em
sala A professora direciona perguntas de compreensão e de interpretação § a pessoa que faz a apresentação do livro;
§ o que está sendo narrado;
§ a relação do editor e da editora do livro § o que acham das aquarelas;
§ a autoria das aquarelas e das apresentações. t.12
8 a t.13 2
Leitura e
escuta Leitura oral da “apresentação ” do romance 2ª orelha do livro
Leitura e escuta do texto da segunda orelha do livro e perguntas de interpretação e compreensão textuais: A aluna Laura faz a leitura em voz alta da apresentação da 48ª edição. 1.4 t.13 3 a t.14 3 Leitura, produção oral. e escuta Discussão do
texto O aluno Alan faz a pergunta de interpretação o público leitor do romance
A professora faz a leitura em voz alta da “apresentação” da 48ª e contrasta com a da 13ª.
A professora direciona perguntas de compreensão § a diferença entre as apresentações das edições § a confirmação do público-alvo do romance. 1.5 t.14 4 a t.17 9 Produção oral e escuta Debate sobre o texto Livro
Discussão sobre as aquarelas, o público leitor do romance e a relação com outros gêneros:
A professora direciona discussão de: § a percepção das aquarelas do livro;
§ a decisão e opinião coletiva sobre público leitor do romance;
§ a percepção das relações de intertextualidade. 1.6 t.17 9 a 181 Produção oral e escuta Chamada dos alunos; Diário de classe Fechamento da aula:
A professora chama a atenção e executa a leitura dos nomes da lista de chamada.
Os itens do quadro são:
a) Coluna um: Níveis (N) seqüenciais da evolução da aula. Trata-se da organização em níveis das seqüências de ensino-aprendizagem que ocorrem em
sala de aula. Estes níveis variam de 1.1 (a preparação, o anúncio do conteúdo, a dinâmica inicial da aula) a números seqüentes 1.2, 1.3 (que mostra a evolução por meio das seqüências da aula), sendo que o primeiro número refere-se à seqüência das aulas (primeira aula, segunda aula etc), o segundo número, refere-se ao desenvolvimento propriamente da mesma em questão.
b) Coluna dois: Turnos de Fala (TF). Trata-se do intervalo de fala que enumeramos na transcrição que reflete uma organização seqüencial dos níveis identificáveis. O intervalo será marcado com o turno que inicia e com o turno que fecha o nível descrito (por exemplo, t. 3-10, leia-se inicia no turno 3 e termina no turno 10).
c) Coluna três: Prática de Ensino e Aprendizagem (PEA). Inclui práticas de leitura, escuta produção oral, produção escrita, compreensão, interpretação de textos ou estudos gramaticais. Estes itens estão de acordo com os estabelecidos nos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1998).
d) Coluna quatro: Instrumentos Didáticos (MEIOS) que compreendem os modos de trabalho escolar: os grandes eixos de trabalhos em sala (grupos de trabalho, duplas de trabalho, exposição dos grupos, exposição da professora para a turma); Suportes Didáticos: Incluem materiais como livro, folha mimeografada, brochura, caderno, quadro magnético, quadro-de-giz, retroprojetor, computador e outros; e Instruções: traz por meio de tarefas para o centro da aula o conteúdo (o objeto a ser estudado). Trata-se de dispositivos que são utilizados em cada atividade determinada pelo nível e para determinar a mudança de um nível seqüencial ou até de uma unidade.
e) Coluna cinco: Descrição das Atividades trabalhadas em cada nível e unidades. Trata-se de um resumo capaz de condensar de forma coerente as atividades por meio das práticas do ensino e da aprendizagem que são inerentes aos objetivos do professor com relação ao objeto de ensino.