Com a assinatura do Tratado de Alcacines, por D. Dinis e D. Fernando IV, de Castela, em 1297, definiu-se a linha de fronteira entre Portugal e Castela. Com a tentativa de manutenção desses limites, por parte de Portugal, as primeiras fortalezas a receberem as reformas góticas foram os castelos raianos, que constituíam, desde 1297, a primeira linha de defesa do reino. No interior, somente os castelos mais importantes, mais estratégicos e junto a grandes concentrações urbanas conseguiram manter-se. Todos os outros castelos românicos existentes no interior de Portugal degradaram-se. Ao longo do reinado de D. Dinis, a reforma gótica da arquitectura militar portuguesa afirmou-se e alcançou verdadeira consistência; essas alterações faziam parte do seu programa de governo. A política de D. Dinis, referente aos castelos, estava diretamente relacionada com sua determinação em construir um governo baseado em um modelo ordenador, acentuadamente centrado na autoridade régia, abrangendo todo o território da Coroa (ANDRADE, 2001).
Como características arquitetônicas marcantes das estruturas do castelo gótico de defesa ativa, dos inícios do século XIV, pode-se apontar, primeiramente, o surgimento dos balcões com matacães, que possibilitaram o tiro vertical e a maior proteção das bases das estruturas. Essa inovação foi introduzida por D. Afonso III, sendo uma evolução natural do dispositivo dos hurdícios, introduzidos no século XII, na arquitetura militar portuguesa, pelos templários. Com o tempo, esse dispositivo assumiu a configuração de um “balcão corrido” em toda a volta da torre, conhecido por machicoulis. O balcão de matacães, construído em pedra,
firmou-se e ganhou grande divulgação, no período do rei D. Dinis, tornando-se o símbolo máximo da defesa ativa, vindo a ser conhecido como “balcão dionisino”, verdadeiro ex libris do castelo gótico português (MONTEIRO, 2001b).
Figura 40: a) Detalhe do debuxo do alçado da fortificação de Castelo Rodrigo. Balcão dionisino (fl.75/S). b) Detalhe da planta baixa da fortificação de Castelo Rodrigo (fl. 128v), correspondente ao detallhe do debuxo
(a). Balcão dionisino.
a) b)
Fonte: Livro das fortalezas, Duarte de Armas, 1509.
No debuxo (a) identificam-se, na parte superior da torre de menagem, dois balcões dionisinos. Essas estruturas continham aberturas em seus pisos que possibilitavam tiros (arco e besta) e arremessos (pedras) na vertical. A principal função era proteger portas e as fundações de torres e muralhas. Os balcões foram utilizados até a segunda metade do século XVI. Na planta baixa (b), Duarte de Armas registrou os quatro balcões com suas respectivas aberturas no piso, denominadas boedeiras ou matacães, a partir das quais se faziam os tiros e arremessos verticais.
O torreão, adossado as muralhas, aumentou consideravelmente seu número (possibilitando a defesa direta dos alicerces dos muros) e a distância entre eles passou a variar entre 08 e 12 metros. Em construções de maior envergadura, tal como cercas de cidades, o espaçamento passou a ser calculado em função do alcance do tiro, de arco e, sobretudo, de besta, de forma que de um torreão fosse possível atingir a base do outro. Em um segundo momento, surgiram torreões ladeando e protegendo a entrada principal, constituindo-se, assim, uma entrada fortificada. Com o tempo, os torreões tiveram a tendência para ganhar um formato mais circular, aumentando sua resistência aos projéteis, vindo a dar origens aos cubelos da fase de transição. Outra característica dos torreões góticos é sua saliência em
relação ao pano da muralha, possibilitando flanquear e cercar os atacantes (MONTEIRO, 1999).
As muralhas tornaram-se mais altas e espessas, adquirindo uma maior resistência contra as poderosas armas neurobalísticas, tornando, portanto, mais difícil as escaladas ou o ataque direto aos adarves. Com o aumento da espessura das muralhas, os caminhos de ronda tornaram-se mais largos, facilitando a movimentação das guarnições e possibilitando a instalação de armas neurobalísticas para contra-ataque. Essas são as mesmas muralhas largas que possibilitaram a instalação das primeiras bocas de fogo em seus adarves (BARROCA, 1990/91).
As torres de menagem alargaram-se e deixaram de estar isoladas no meio do pátio interno, passando a estar articuladas com os vários outros sistemas defensivos do castelo. Muitas vezes, encontravam-se adossadas as muralhas, protegendo os locais mais frágeis da fortificação, dando mais espaço às áreas residenciais. O modelo de torre quase hegemônico é a de planta quadrangular, mas existem algumas com plantas poligonais. Nos finais do século XV, coroando as torres de menagem, surgiram pequenos balcões de ângulo, com sistema de tiro vertical. Por meio do estudo das plantas desenhadas por Duarte de Armas, pode-se observar que a maioria das torres de menagem dos castelos tardomedievais está adossada à muralha e encontra-se em posição de canto. Nas respectivas plantas, percebe-se que a grande maioria delas é ainda quadrangular ou retangular (MONTEIRO, 1999).
Surgiram as primeiras defesas externas, tal como as primeiras barbacãs, as quais podem ser definidas, em termos gerais, como um muro mais baixo do que a muralha, construído a frente dessa, a uns poucos metros de distância, visando oferecer uma primeira barreira. Esse muro podia limitar-se a cobrir a porta (uma barbacã de porta ou barbacã parcial), mas podia, também, rodear toda a fortificação, constituindo uma autêntica segunda cintura de muralha (uma barbacã completa) (GIL, J., 1996).
Mesmo que na fase de construção dos castelos góticos se reconhecesse os inconvenientes da adoção das plantas quadrangulares para a construção das torres, raros foram os casos em Portugal em que se escolheu outro tipo de planta. A preferência, em uma fase mais tardia, eram as torres poligonais (ainda no reinado de D. Dinis), mais difíceis de serem destruídas, mas, mesmo assim, com ângulos retos, sendo, por isso, menos seguras que as torres circulares. A tendência à permanência das torres quadrangulares ou retangulares, tanto nas menagens adossadas às muralhas, é bastante visível na grande maioria das representações
realizadas por Duarte de Armas. Apenas para citar alguns: Mértola, Moura, Noudar, Mourão, Alandroal, Juromenha, Olivença, Campo Maior, Ouglela, entre outros. Da mesma forma, encontram-se torres e menagens poligonais, tais como: Serpa, Monsaraz, Olivença, Castelo de Vilde, Penha Garcia, Sabugal e Freixo de Espada a Cinta. As alterações nas torres, a que se assistiu ao longo do século XIV, procuraram dar resposta à evolução da neurobalística, refletindo os progressos que vinham ocorrendo no domínio do armamento há algumas décadas (BARROCA, 1998a).
Essas estruturas continuaram se transformando e se adaptando frente à utilização do armamento pirobalístico. As fortificações góticas da fronteira luso-castelhana seriam privilegiadas nesse processo de adaptação estrutural, a partir da introdução das armas de fogo, devido à sua importância estratégica. Dessa forma, tornaram-se exemplos interessantes de estudo da constituição do estilo de transição. Encerrada essa sucinta apresentação das principais características da fortificação medieval gótica, passa-se para a constituição do estilo de transição: seus componentes arquitetônicos, as permanências do gótico, suas inovações e suas fases.