• Sonuç bulunamadı

Afinal, o fenômeno estudado se desvela. Este desvelamento emerge das revelações das estrelas que iluminaram esta investigação ao manifestarem sua vivência com a morte do recém-nascido em uma UTIN. Da essência de suas falas, foram identificadas as unidades de significados, as quais expressaram uma diversidade de sentimentos comumente acompanhados de dor e sofrimento. O

esforço de compreensão desta realidade empírica foi alicerçado por autores que direta ou indiretamente abordam o tema, ou se preocupam com a condição humana, em suas várias dimensões.

Tais sentimentos foram alinhados em 06(seis) categorias temáticas, a seguir: Perda, Culpa, Tristeza, Frustração, Negação e Compaixão.

# PERDA

A vida é um continuum de perdas. Naturalmente, as pequenas perdas cotidianas provocam, na maioria das vezes, algum sofrimento por parte de quem as vivenciam. Qualquer perda representa um desafio ao processo de adaptação, requerendo uma reorganização que nos modifica e muda o curso de nossas vidas. E também pode nos preparar para uma perda de maior magnitude, como a morte.

Embora tenhamos a compreensão de que o fenômeno morte está ligado à vida fazendo parte integrante dela, temos a dificuldade de enfrentá-la, principalmente quando se trata da morte de um recém-nascido.

De conformidade com Alves (1992),

se, ao invés de uma menina, fosse um velho, a morte seria uma outra. A morte tem muitas fases. A morte dos velhos, por doloroso que seja, é parte da ordem natural das coisas: depois do crepúsculo segue-se a noite. A morte dos velhos é triste, mas não é trágica. É como um acorde final de uma sonata. O fim é o que deveria ser. Mas a morte de um filho é uma mutilação.

As falas que se seguem são indicadoras dessa inversão da ordem natural da vida. Assim vejamos:

A gente tem a esperança de que sempre um RN vai ser tudo isso, aquilo, etc. e quando não consegue fica o sentimento de perda e

tristeza muito grande junto com os pais – a perda de um filho (ANKAA).

A gente fica totalmente angustiada, angústia com a perda; não só pela mãe, mas pra gente também, que é como uma mãe para ele... (POLARIS).

É um sentimento de perda; a gente sente a perda da mãe, maior do que a do recém-nascido (ADHARA).

Como podemos depreender da vivência dos respondentes diante do fenômeno estudado, a morte na UTIN é antes de tudo uma grande perda, provocando sentimentos de angústia, tristeza e empatia entre aqueles que lidam com a criança neste ambiente.

Seus relatos deixam transparecer, de modo enfático, a perda como um vínculo que se rompe e gera outros sentimentos.

Kovács (2002, p.154) afirma:

A morte como perda supõe um sentimento, uma pessoa e um tempo. É a morte que envolve, basicamente, a relação entre pessoas e se ocorre de maneira brusca e inesperada tem uma potencialidade de desorganização, paralisação e impotência.

A morte de um recém-nascido, portanto, é tida como prematura em relação ao ciclo da vida, pois acontece “fora de hora”, em relação às expectativas cronológicas ou sociais, e tende a ser mais difícil. É importante neste contexto a questão familiar, pois, em cada família, a constelação singular destas relações afeta o impacto da perda sobre cada membro, cada geração e sobre a família como um todo (WALSH; MCGOLDERICK, 1998).

Observamos, igualmente, entre os respondentes, uma identificação de seus sentimentos com os sentimentos dos familiares.

Outros respondentes enfatizaram a perda como sentimento forte e que pouco sabem lidar com ele, de conformidade com o que constatamos em seus relatos:

[Sinto como] a perda de um ente querido (ALIOTH).

Não me sinto preparada para momento de perdas... (ALPHECA).

É um sentimento de perda para todos os efeitos (ANKAA).

A perda e sua elaboração são elementos contínuos no processo do desenvolvimento humano, afirma Kóvacs (2002), bem como a maioria dos autores, os quais tratam da temática morte, luto e perdas. Reforçam a questão de ser a morte parte da vida, porém, nas expressões dos participantes, percebemos o cuidador que sofre no encontro com a morte da criança, sendo esta algo difícil de aceitar e vivenciar.

Espaços onde a vida e morte se avizinham, a emoção é uma experiência vivencial, tratada de forma singular por cada sujeito; é a própria pessoa quem expressa, verdadeiramente, o tipo de sentimento experimentado, conforme foi possível identificar, por ocasião das entrevistas com estes profissionais. Muitos revelaram que, ao vivenciar a morte no cotidiano das UTINs, são tomados por sentimentos diversos, como decepção, ineficiência, incapacidade, dúvida, culpa, entre outros.

A junção de tais sentimentos deixa transparecer uma certa culpabilidade por parte do profissional diante da morte do recém-nascido, surgindo uma nova categoria: culpa.

# CULPA

A condição de morte do paciente leva a equipe de enfermagem, em qualquer circunstância, mormente na morte de um recém-nascido, a questionamentos como, por exemplo, “fez tudo que poderia pela vida da criança”, originando, diante do fracasso, sentimentos de culpa manifestados em algumas falas:

Precisamos trabalhar com maiores responsabilidades para evitar esse tipo de acontecimento (ALIOTH)

Será que precisou cuidar mais? Será que precisava me envolver mais? Ou o prognóstico dele era a morte? (ALDEBARAN)

Na perda do paciente (morte, óbito, seja qual for sua denominação), é notória a inconformação e insatisfação denunciadas nas falas dos entrevistados por se sentirem culpados por essas perdas. O preparo para salvar vidas, que constitui o ideário na formação dos profissionais da saúde, embota, de certa maneira, a concepção de fim, de morte biológica. O empenho se concentrou em salvaguardá-la e pouco em compreender sua finitude. A formação acadêmica fortalece a idéia de profissionais como “deuses”; assim sendo, são preparados para derrotar a morte, mas quando ela vence, sentem-se culpados.

No momento que a criança ta muito ruizinha, fico angustiada: se chega a óbito o sentimento é de decepção, por não ter feito alguma coisa a mais (BELATRIX).

Os sentimentos entrelaçam-se, tornando-se semelhantes quando expressam o momento da morte, da ruptura, da partida...há sempre um sentimento de impotência diante da morte do outro.

A gente tenta fazer de tudo. Mas não consegue (MENKAR).

Assim sendo, manifestam sentimentos de auto-reprovação, baixa auto- estima e desamparo que fazem parte do luto. Zorzo (2004) observa que enfermeiros e técnicos de enfermagem estão em constante desgaste, pelo convívio com a morte, e eles próprios desconhecem esta condição que lhe é inerente, diz a autora. E acrescentamos: essa situação se estende a todos aqueles que se envolvem com pacientes em condição de risco e vulnerabilidade.

No espaço onde o profissional de enfermagem trabalha, dispensando uma enorme atenção no sentido de desenvolver técnicas para prolongar a vida, como no caso de uma UTI, outros sentimentos emergem, permeando a atmosfera de sua luta laboral, afetiva e emocional ligados a uma impotência desconcertante que nas falas identificamos como fracasso, frustração, fraqueza e incapacidade.

# FRACASSO

A morte é um fracasso para toda a equipe (ALIOTH). Você se sente incapacitado, impotente (SHAULA).

A impotência de não poder dominar a morte é uma constante nos relatos, remetendo o sujeito, por vezes, ao fenômeno da sua própria morte. Esses sentimentos são mais intensos quando os profissionais se dão conta que, apesar da tecnologia, permanecem limitados para eliminar a morte.

Depois que se faz de tudo e ele morre, em parte você morre [..] .tudo que você fez foi por água abaixo (MENKAR).

Quando a gente não consegue é um momento totalmente triste (POLARIS).

Quando a criança chega a óbito é onde a gente sente (ALDEBARAN)

Percebemos o sofrimento e a dificuldade estabelecidos nessa complexa relação de cuidado com o recém-nascido frente à sua morte. O fato de não se alcançar o objetivo de curar o enfermo evidencia um fracasso, por levar à compreensão de que a morte não é mais considerada como o limite natural da vida humana, ou algo inerente à própria existência (POLES; BOUSSO, 2006).

Esse aspecto de sentir-se derrotado pela morte advém da cultura ocidental, influenciada pelo capitalismo que, fazendo apologia ao consumismo, torna a morte inimiga do homem.

Benzer Belgeler