A gramática do texto é repleta de tentativas de mitificação.
Reportando-se à Guerra dos Emboabas (1708-1709), informam os autores que “ao término dos combates os dois grupos recuaram, sem um vencedor. Afinal, o ouro, que era o motivo da luta, ainda era abundante e dava para todos” (RIBEIRO; GOULART; RADICCHI, 2005, p. 194).
Além de equivocada, a versão é simplista e reducionista. Não é a abundância de uma riqueza que garante a paz; mas a apropriação da riqueza por poucos, o que incita a guerra.
O Dicionário Histórico Brasil – Colônia e Império (2002) traz, no verbete “Guerra dos Emboabas”, outra interpretação:
Desse conflito, saíram vitoriosos, os emboabas, sob a direção de Manuel Nunes Viana, aclamado governador das Minas pelos forasteiros. [...] A partir da Guerra dos Emboabas, a Coroa Portuguesa ordenou aos governadores
que não mais nomeassem paulistas para cargos
administrativos importantes [...]. (BOTELHO; REIS, 2002, p. 86)
Em “Brasil, História – Texto e Consulta”, seus autores também contraditam o clima de harmonia propiciado pela abundância de ouro no período Colonial, sugerido no texto:
A Guerra dos Emboabas foi em boa parte manifestação de um ambiente de conflitos característicos da “corrida do ouro”, em que a disputa violenta pelas jazidas era determinante, na medida também em que não havia sido
implantada de maneira efetiva a ordem político-
administrativa da metrópole. (MENDES Jr.; RONCALI; MARANHÃO, 1976, p. 233)
Outros textos do próprio livro analisado trazem versões que contradizem a apresentada pelos autores.
Élvio Carlos Moreira, professor de Epidemiologia da Escola de Veterinária da UFMG, autor de “A Pecuária Bovina”, traz a seguinte versão:
A Guerra dos Emboabas, [...], foi o confronto armado entre os paulistas descobridores das minas e os forasteiros aventureiros, conhecidos como emboabas, que chegaram depois querendo ficar com as minas e seus produtos. Esse conflito terminou com a derrota dos paulistas [...]. (MOREIRA, 2004, p. 372)
Também do mesmo livro, o texto de João Amilcar Salgado, professor da Faculdade de Medicina da UFMG e pesquisador da História da Medicina, intitulado “As Histórias Submersas do Rio que não quer morrer”, traz a versão de outros autores procurando criar, dentro da “vertente da história engajada”, o mito da Guerra dos Emboabas como “a primeira guerra civil das Américas, com triunfo dos oprimidos” (SALGADO, 2004, p. 213). A cada expressão usada pelo autor, caberia uma indagação sobre sua conceituação: primeira / Américas / oprimidos.
Há de se notar que o texto analisado não trata da proposição de uma versão diferente para um mesmo episódio, a partir da apresentação de novas fontes, de novos raciocínios, ou de novos métodos, o que seria bastante saudável. Não. Trata-se de equívoco mesmo!
No texto criticado, Tiradentes é apresentado também envolto numa áurea de mitificação. Segue a transcrição:
Por esses anos, passava pelas precárias estradas mineiras um homem, em cima de uma montaria, afirmando que ainda iria consertar o mundo. Era conhecido como Tiradentes e falava a língua do povo, exprimindo em seu discurso a insatisfação de todos. (RIBEIRO; GOULART; RADICCHI, 2005, p. 196)
O equívoco apresenta-se já na introdução, uma vez que “por esses anos” entende-se 1750, data apresentada na frase que antecede a transcrição. Há anacronismo, pois por volta de 1750, Joaquim José da Silva Xavier, o futuro Tiradentes, contaria com menos de quatro anos, já que nasceu em 1746 45. A proposição de idealização do personagem como herói pelos autores é evidente. Caberia também indagar o que se entende pela expressão “povo” numa sociedade escravista.
A visão apresentada sobre quilombos também é mitificadora e equivocada, tanto na periodização quanto no conceito. Dizem os autores:
No Brasil Colônia, mais que um refúgio ou esconderijo, o quilombo foi a forma de resistência e ameaça ao sistema escravista. Ao fugir o escravo buscava sua humanidade, deixava de ser coisa, para ser dono de si [...]. A existência de quilombos demonstra o grau de organização e consciência dos negros e da luta pela liberdade. Nesses quilombos não viviam só negros fugidos, os elementos principais, mas também índios e ex-escravos. (RIBEIRO; GOULART; RADICCHI, 2005, p. 196)
O mesmo “Dicionário Histórico – Colônia e Império” contradiz esta interpretação:
Os quilombos existiram em todo o período em que vigorou o escravismo [e não apenas durante a Colônia] [...] Alguns
quilombos escondiam também criminosos e índios
perseguidos pela justiça. Os quilombolas viviam da caça, pesca, coleta de frutas, banditismo, agricultura e pecuária, o que não significa dizer que todos os quilombos praticassem todas estas atividades, que dependiam do local escolhido. [...] Ao contrário de um suposto isolamento, os quilombos mantinham relações comerciais e mesmo de amizade com indivíduos livres, muitos dos quais militares, que de alguma
45 Tiradentes teria nascido em 1746, na Fazenda do Pombal, próximo ao arraial de Santa
Rita do Rio Abaixo, entre a Vila de São José, hoje Tiradentes, e São João Del Rei. (NOVA ENCICLOPÉDIA BARSA, 2001)
forma, tiravam proveito da existência do quilombo. (BOTELHO; REIS, 2002, p. 146) (grifos nossos)
O texto aqui criticado, quando reporta-se à Revolução Liberal de 1842, faz uma interpretação destituída de qualquer contextualização histórica, sem que o leitor sequer avente sobre os motivos do movimento, quando da centralização política provocada pelos Saquaremas (conservadores) logo após o Golpe da Maioridade de D. Pedro II (1840), provocado pelos liberais:
Em 1842, estourou em São Paulo e Minas Gerais uma rebelião contra o governo federal, chamada de Revolução Liberal. Em Minas, os revoltosos chegaram a aclamar um novo presidente para a Província, mas foram derrotados pelas armas em Barbacena, Ouro Preto, Sabará e, numa batalha final, em Santa Luzia. (RIBEIRO; GOULART; RADICCHI, 2005, p. 196)
A construção das estradas de ferro também é apresentada sem qualquer contextualização histórica, como se os trilhos obedecessem a um ordenamento sucessivo de interligação entre os lugares, sem conflito ou disputas políticas:
A malha ferroviária iniciou-se com a Estrada de Ferro D. Pedro II, em 186946 [sic], e mais tarde várias outras também cortaram o estado. Ao longo do Rio das Velhas, o trem de ferro percorreu toda a sua extensão. Passava por todas as cidades importantes da época da construção como Ouro Preto, Itabirito, Rio Acima, Sabará, Santa Luzia, Sete Lagoas, [...] Curvelo, Corinto, Várzea da Palma e Pirapora. (RIBEIRO; GOULART; RADICCHI, 2005, p. 199) (grifos nossos)
O leitor fica por entender a que construção os autores referem-se. E ainda sem saber quais estradas de ferro faziam o trajeto ao longo do Rio das Velhas e se todas as estações foram inauguradas num mesmo período. Discorrendo sobre o segundo movimento minerário na bacia do rio das Velhas, o texto traz a informação: [...] “e, em 1917, instalou-se em
46 A Estrada de Ferro Pedro II inaugurou seu primeiro trecho em Minas em 1874, quando
se uniu à Estrada de Ferro União e Indústria, na cidade de Juiz de Fora. Disponível em: <http://www.estacoesferroviarias.com.br/efcb_rj_linha_centro/dpedro.htm>. Acesso em: 05 ago. 2009.
Sabará a Companhia Siderúrgica Belgo Mineira.” (RIBEIRO; GOULART; RADICCHI, 2005, p. 203)
Trata-se de um equívoco de data, de denominação e de contexto. A Companhia Belgo Mineira só surgiu em 11 de dezembro de 1921, alterando a antiga denominação da Companhia Siderúrgica Mineira, após a visita do rei da Bélgica, Alberto I, a Minas (ARCELOMITTAL, 2009)47. A atração do capital belga para Minas foi uma vitória do grupo interessado em trazer a siderurgia para o Estado, no governo de Arthur Bernardes (1918-1922).
Também de maneira simplista são apresentadas as razões da mudança da Capital do Estado. Jogo de diversas facções regionais que disputavam a hegemonia política em Minas Gerais após a proclamação da República (1889), o episódio é explicado no texto como decorrência da inviabilidade de Ouro Preto permanecer como capital em função de “seu terreno acidentado”. (RIBEIRO; GOULART; RADICCHI, 2005, p. 203)
Na década de 30, os autores destacam o Estado Novo, em 1937, que “imprimiu um corte nos direitos básicos de cidadania”. Cabe aqui também indagar sobre a pertinência de se usar o conceito de cidadania para este período da História do Brasil, quando os analfabetos eram proibidos de votar e o voto feminino havia sido conquistado há menos de cinco anos.
Os autores chegam ao Golpe de 1964, com as seguintes ponderações morais:
Nas cidades da bacia do [rio] Velhas também foram geradas idéias e atos dos quais não se deveria orgulhar. Na década de 1960, forças políticas conservadoras, insatisfeitas com os
47 No próprio livro, o texto de Friedrich Ewald Renger, professor do Departamento de
Geologia e do Instituto de Geociências da UFMG, intitulado “Recursos Minerais, Mineração e Siderurgia” traz a fundação da Companhia Siderúrgica Mineira, em 1918, em Sabará, [...] “a partir da qual surgiu, em 1921, a Cia. Siderúrgica Belgo-Mineira”. (RENGER, apud GOULART, 2005, p. 280)
rumos que o governo João Goulart dava ao país, iniciaram uma conspiração, orquestrada principalmente em Belo Horizonte, que resultou no golpe de 1964. (RIBEIRO; GOULART; RADICCHI, 2005, p. 203)
Sem citar datas, o texto prossegue:
Para interromper esse regime de força foram necessárias grandes mobilizações [...]. Nessas ações, Minas Gerais se fez presente de forma incisiva, redimindo-se de erros do passado. (RIBEIRO; GOULART; RADICCHI, 2005, p. 203)
Além de não saber “quem não deveria se orgulhar”, o leitor é surpreendido pelo tom ufanista da narrativa, e é levado a crer que o sujeito histórico do movimento da abertura política seria “Minas Gerais”, um arroubo literário de metonímia tão cara à idéia de história-nação. E fica sem saber o que aconteceu com “as forças conservadoras”.