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O conjunto de áreas protegidas do Eixo Sul vem sendo constituído – por meio de ampliações, supressões, sobreposições e substituições – desde a criação da capital mineira, e, de forma mais pronunciada, ao longo das três últimas décadas. Essa dinâmica de construção do conjunto remete à reflexão de Milton Santos (1996) sobre a composição da paisagem:

A paisagem não se cria de uma só vez, mas por acréscimos, substituições; a lógica pela qual se fez um objeto no passado era a lógica da produção daquele momento. Uma paisagem é uma escrita sobre a outra, é um conjunto de objetos que têm idades diferentes, é uma herança de muitos diferentes momentos (SANTOS, 1996, p. 66).

O autor compara a paisagem a um palimpsesto – um manuscrito cuja grafia foi removida para dar lugar a novo texto, conservando marcas da escrita passada –, explicitando que a leitura dessa paisagem deve considerar as condições políticas, econômicas e culturais da sociedade que a produz(iu). Nessa perspectiva, sopesando as sucessivas normas que criam, sobrepõem, afetam e desafetam UCs no Eixo Sul, faz-se pertinente a utilização da metáfora

82 O levantamento das UCs existentes na área teve por base dados: do Ministério do Meio Ambiente (ICMBIO, s/

data), no caso das RPPNs Poço Fundo, Inhotim, Sítio Grimpas e dos Feixos; da Associação de RPPNs e reservas privadas de Minas Gerais (ARPEMG, s/data), para a RPPN Fazenda Serra da Moeda e Mata do Jequitibá; do IEF (AMDA/IEF/SERE, 2008), para as RPPNs Mata do Jequitibá, Capitão do Mato e Vale dos Cristais; e da Semad (2011), no caso das RPPNs Mata do Jambreiro e Samuel de Paula. Já as informações sobre a RPPN Topo do Mundo foram obtidas a partir de folheto recebido no Restaurante Topo do Mundo, que indicam que se trata de UC registrada junto ao IEF. Porém, a UC não consta no cadastro do órgão ambiental mineiro (SEMAD, 2011).

do palimpsesto para pensar esse conjunto de áreas protegidas83, como se propõe a seguir. Nos primeiros anos da década de 1980, em decorrência da notável expansão da mineração ao sul da capital, relacionada ao “milagre brasileiro” dos anos 1970, e de uma incipiente incorporação dos temas ecológicos ao aparelho de Estado, ocorreu um primeiro momento de intensa criação de áreas protegidas na região, com a instituição das APEs, a abertura do Parque das Mangabeiras e a criação do Parque da Baleia. Essas áreas protegidas tiveram motivações distintas, sendo as APEs destinadas à garantia do abastecimento público de água e os parques voltados à proteção da biodiversidade, com importante destaque para o lazer no caso do Parque das Mangabeiras.

Em meados da década seguinte, em razão de fatores como a retomada do crescimento (pós-recessão da década de 1980) do setor mineral, a intensa expansão das periferias metropolitanas e o início da conversão dos sítios de recreio do Eixo Sul em residências principais – e a associação de seus moradores para fazer frente aos loteamentos populares e à mineração, percebidos como ameaças ao equilíbrio ambiental da região –, o tema das áreas protegidas voltou à baila. Nesse período, à preocupação do poder público com o abastecimento público de água se somaram os novos ares do desenvolvimento sustentável, cuja influência se refletiu no acolhimento da inovadora categoria APA, instituída na década anterior. Assim, as (captações de água das) APEs foram superpostas pelo Parque Estadual da Serra do Rola Moça, pela Estação Ecológica de Fechos e pela APA Sul, enquanto, em Brumadinho, a APA Sul foi sobreposta por outras duas “camadas de UCs” – a UC sem categoria (1998), o Monumento Natural do Forte (2000) e a APA Serra da Moeda (2000).

Já em meados dos anos 2000, quando a APA Sul completava seu primeiro decênio sem interferir expressivamente no controle do uso do espaço e a mineração no Quadrilátero Ferrífero alcançava dimensões nunca antes registradas – o que se exemplifica com o notável crescimento da mineradora Vale, que, privatizada, incorporava empresas como a MBR e caminhava rumo ao seleto grupo das 40 maiores companhias do mundo –, a tônica da criação de UCs foi alterada. Nesse período, em que já se podia contar com o novo leque de modalidades de áreas protegidas instituído pelo Snuc, tiveram destaque na região as RPPNs – em especial, as pertencentes a mineradoras – e as categorias de proteção integral, como as Reservas Biológicas de Moeda e o Monumento Natural da Serra da Moeda, repetindo a

83 Contudo, como aludido, essas UCs são de difícil identificação em campo e pouco reconhecidas por parte dos

moradores da região. Essas características ressaltam o predomínio da dimensão das representações espaciais – conhecimentos e ideologias ligados ao ordenamento do espaço no sentido produtivo – dessas UCs com relação às suas dimensões relacionadas à percepção e à valoração do espaço. Desse modo, deve-se ter em conta, no emprego do termo palimpsesto de áreas protegidas do Eixo Sul, que se trata mais de um palimpsesto de representações de áreas protegidas que de um conjunto de objetos de base material.

dinâmica das sobreposições.

A Figura 27, que apresenta essas UCs conforme a década em que foram criadas, permite observar as tendências de localização dessas áreas protegidas, além de revelar o progressivo aumento de suas dimensões.

Figura 27: A criação, por década, de áreas protegidas no Eixo Sul da RMBH.

Ob.: Na figura não estão representados os tombamentos.

havendo pontos em que se pode contar até quatro “camadas84” de áreas protegidas – entre as reconhecidas como existentes e as consideradas revogadas –, o que aproxima o conjunto do

palimpsesto urbano. A representação permite observar também o avanço das UCs nos sentidos sul, sobre a Serra da Moeda, e oeste, sobre a Serra do Rola Moça, ao longo da Serra dos Três Irmãos. Trata-se justamente das paisagens montanhosas mais procuradas por empreendedores imobiliários na RMBH, onde se tem verificado expressiva valorização dos imóveis, como apreendido da Figura 6, apresentada em seção anterior deste capítulo. Além disso, essas são também áreas onde se encontram importantes reservas minerais do Quadrilátero Ferrífero, como se apreende da Figura 3, que ilustra a Introdução deste estudo.

Verificando que UCs e empreendimentos imobiliários e minerários se projetam sobre as mesmas áreas, evidencia-se o choque entre essas diferentes propostas de uso e apropriação do espaço. Nessa perspectiva, considerando que as demandas que deram origem às UCs se pautam justamente na contenção da urbanização e da mineração com vistas a conservar a biodiversidade, a paisagem e os espaços de uso público, essas áreas protegidas podem ser interpretadas como indicadores de conflitos entre esses diferentes tipos de uso.

Expandindo esse raciocínio, caberia inferir que a quantidade de “camadas” de UCs incidentes sobre uma determinada área seria proporcional às dimensões da ameaça percebida com relação à mineração/expansão urbana. Nessa linha, a Serra da Moeda poderia ser considerada uma zona de intenso conflito entre esses diferentes projetos de uso e apropriação do espaço, já que se podem contar quatro “camadas” de áreas protegidas em sua porção compreendida nos limites do Município de Brumadinho e também quatro nos de Moeda (considerando, nesse caso, o tombamento). Como se observará no Capítulo 4, essa proposição se confirma quando se consideram os atuais projetos de UC concebidos para a região.

Para avançar nesse entendimento de que as sobreposições estão diretamente relacionadas à percepção de ameaças a determinadas formas de uso e apropriação do espaço, cabe identificar quem são esses sujeitos/grupos que percebem as ameaças, e buscar avaliar como eles apreendem as sobreposições, o que demanda a reflexão histórica acerca de como a criação de determinada área protegida influenciou as demais, e de como elas se relacionam.

Em estudo realizado sobre as APEs do Eixo Sul (EUCLYDES, 2009), verificou-se que as leis que criaram a APA Sul, o Parque do Rola Moça e a Estação Ecológica de Fechos, em

84 Lefebvre (1991) alerta para os riscos da utilização de termos como “camada” para fazer referência ao espaço,

considerando que esse tipo de metáfora sugere que o espaço se limite aos objetos, não refletindo sua natureza dialética. Considerando que os lugares se interpõem, se compõem, se superpõem, e, às vezes, se chocam, cada fragmento selecionado para análise carrega uma multiplicidade de relações sociais. Nessa perspectiva, ao refletir sobre essas “camadas”, faz-se necessário considerar que não se trata de espaços homogêneos, monolíticos ou desprovidos de conflitos.

sobreposição a essas áreas, não fazem referência expressa às APEs enquanto áreas protegidas, mencionando apenas “áreas de mananciais”. Não obstante, essas sobreposições foram intencionais, sendo então percebidas como “uma forcinha a mais” para a proteção ambiental.

No âmbito do órgão ambiental estadual, do qual partiram as iniciativas de sobreposições, o parque e a estação ecológica eram considerados formas de proteção “mais rígida” aos mananciais (PEIXOTO, 2004). Também no âmbito da empresa de saneamento, que demandara a criação das APEs, a sobreposição era bem vista, satisfazendo o então diretor de meio ambiente, que via nas novas UCs medidas “mais fortes”, “mais garantidas” (EUCLYDES, 2009).

Como se observa, nesses casos, as sobreposições sinalizaram a permanência de preocupações com relação à integridade das áreas necessárias ao abastecimento público de água, o que revela a longevidade – e, portanto, a dimensão – do conflito entre usos/projetos.

Contudo, essas sobreposições podem ser vistas a partir de outro ângulo. Se havia o entendimento de que uma UC conferiria uma proteção “mais rígida” que uma APE, então esse tipo de área protegida foi avaliada como ineficiente ou insuficientemente efetivada. Esse juízo se confirma, por exemplo, na justificativa do projeto de lei estadual que visou sobrepor uma estação ecológica à APE do Cercadinho, em 2005. Naquele texto, a deputada afirmava que “informações preocupantes” sugeriam que a diretriz não estava sendo cumprida.

O raciocínio de que a sobreposição atesta a ineficiência de uma área protegida se verifica também quando se considera a terceira onda de criação de UCs no Eixo Sul, nos anos 2000. Considerando as experiências daquele momento, pode-se dizer que a sobreposição já não era considerada uma “proteção a mais” aos instrumentos vigentes, mas sim a busca de algum instrumento novo capaz de concretizar o que as iniciativas anteriores não lograram. É o que se nota na proposta da RBSE, pensada como alternativa à “problemática” APA Sul, ou no caso da intenção de se criar nova UC na Serra da Moeda, em Brumadinho – desde que não fosse da categoria APA, “pois ali já é APA Sul”.

A partir dessas reflexões, verifica-se que, além de indicarem a permanência dos conflitos entre diferentes projetos de uso e apropriação do espaço, as sobreposições de UCs no Eixo Sul sinalizam um amplo processo de ressignificação das áreas protegidas em face desses conflitos. De uma grande conquista, as APEs passaram a pouco eficientes, para mais tarde, serem simplesmente esquecidas/ocultadas (EUCLYDES, 2009). O mesmo parece estar ocorrendo com a APA Sul: à vitória da união das associações de moradores seguiu-se a burocracia, e a existência da UC se limitou ao seu conselho, que tem servido, desde sua criação, apenas para reproduzir e legitimar as relações sociais que ali já tomavam lugar

(FREITAS, 2004). Em Brumadinho, ignorou-se a existência de uma UC, e, mais tarde, aceitou-se a duvidosa anulação de outras duas. Também em Moeda essa situação se repetiu, sendo as leis municipais consideradas insuficientes.

Nessa perspectiva, a ressignificação das áreas protegidas, em meio ao avanço da urbanização e da mineração na região, poderia ser interpretada como um processo de

obsolescência das UCs que, diante das transformações da sociedade e de seu espaço, teriam se tornado insuficientes para atender às demandas sociais. Tal obsolescência se aproxima do processo de envelhecimento social das formas espaciais a que se refere Milton Santos (1996). Para o geógrafo, enquanto o envelhecimento físico dos objetos diz respeito ao desgaste dos materiais que o constituem, o envelhecimento social corresponde a seu desuso ou desvalorização, decorrentes da preferência social por outras formas:

Às vezes, o movimento corresponde a uma moda, como a construção de suítes em habitações; aqui há um envelhecimento moral. Às vezes, o envelhecimento das formas permite que haja uma mudança brutal de seu uso – grandes casas viram cortiços, mudam de moradias ricas para pobres. O envelhecimento físico das formas é previsível, pela duração dos materiais, o envelhecimento moral não é tão previsível, muda de acordo com o quadro político, econômico, social e cultural. (SANTOS, 1996, p. 70).

Essa obsolescência – ressignificação, envelhecimento moral –, aliada à percepção da inserção das UCs nas dinâmicas produtivas regionais, aproxima o processo de criação das áreas protegidas metropolitanas do processo capitalista de produção de mercadorias – o que, por seu turno, se relaciona ao conceito de produção do espaço proposto por Lefebvre (1991). Mas, para que se possa avançar nessa aproximação, é preciso, ainda, refletir sobre alguns aspectos desse palimpsesto de UCs.

Um desses aspectos é a ponderação sobre as categorias de áreas protegidas que (ainda) não são consideradas obsoletas, ou, nos termos de Santos, as modalidades que constituem a

moda contemporânea. Apreciando as UCs discutidas neste capítulo, verifica-se que, nas últimas “camadas” do conjunto, as RPPNs e os monumentos naturais têm se destacado.

Tendo isso em conta, e almejando compreender a inserção dessas UCs nas dinâmicas produtivas regionais, essas categorias e as diferentes formas como são acionadas pelos principais agentes da produção do espaço do Eixo Sul merecerão atenção especial nos próximos capítulos. Esse é um dos propósitos do Capítulo 3, no qual, a partir de interpretação de mapas produzidos por/para empresas dos setores mineral e imobiliário, busca-se identificar formas pelas quais esses agentes se utilizam das UCs com fins comerciais.

Capítulo 3 – Mapas de UCs produzidos por/para empresas: o

discurso ideológico da proteção ambiental a serviço da proteção do

Benzer Belgeler