Quando Amanda conheceu seu atual marido, estava com 15 anos de idade e ele com 19 anos. Conheceu-o no empório de propriedade dos seus pais (os dela) onde ela também trabalhava. Apaixonou-se e, naquele período, conseguiu até enfrentar a mãe, que controlava seus encontros:
Ah! eu sentia, eu gostava muito dele (o marido), muito mesmo. às vezes, eu até brigava com minha mãe, porque ela falava que aquele não era namoro pra mim né. E às vezes eu brigava com ela. Eu queria ver todo dia, e todo dia ela não deixava.
Seguindo sua crença no ideal do amor romântico, Amanda interpretava o controle e as proibições do namorado como sendo “demonstração de amor”. Nas palavras dela: "o amor é cego". Apaixonada, não percebia a dominação e a opressão disfarçadas em amor e ciúmes:
Ele falava - que não era que ele não gostava de mim. Que ele tinha medo de me perder, por isso que ele discutia. Não queria que eu não conversasse com ninguém [...] Só com ele. Até quando eu saía com a minha mãe ele achava ruim... ele falava: “você vai é conversar com outra pessoa...”
Ele tinha muito ciúmes, não podia conversar com ninguém. No final de ano, meu pai fazia festa de final de ano, convidava o namorado da minha irmã e a gente conversava. Pra ele, aquilo lá era uma morte [...]
O desejo de casar-se e a ilusão de haver encontrado, o “homem ideal”, parece sobrepujar todo e qualquer dado de realidade sobre o namorado e a família
dele, pois, na família do namorado ocorriam, constantemente, brigas com agressões físicas, intensificadas pelo consumo de álcool. “Meu pai dizia: Fia, você vai casar
com um cara de uma família desse jeito? mais dizem que o amor é cego, né?” Mas
Amanda não desistiu da idéia de casar-se. Nem mesmo os conselhos de seu pai e da tia do marido a despertaram para a realidade dos fatos:
Brigavam (a família do marido), brigavam com os vizinhos, brigavam com um monte de gente [...] Tinha agressão, nossa uma agressão violenta [...] Até chamar a polícia!
[...] diz a minha tia, que é irmã do meu sogro, que eles (meu sogro e meu cunhado) brigavam muito. Esse filho (meu cunhado), quando ele morreu a mãe dele disse: “Graças a Deus que ele morreu!” Sem contar que, ou ele matava o pai ou o pai matava ele. Porque os dois bebiam e, depois, os outros filhos vieram a beber também.
Claro está a dificuldade de Amanda em refletir sobre os fatos e as conseqüências destas nas relações familiares.
Em um determinado momento do namoro, ele foi trabalhar em outra cidade e, mesmo de longe, continuava a exercer seu poder de controle por meio de cartas e de telefonemas. No entanto, devido à distância do namorado, Amanda cede aos conselhos de sua mãe e pensa em terminar o relacionamento:
Na época, teve uma época do namoro, que ele morava em Curitiba. Ele foi morar com o tio dele e com o primo dele pra fazer pamonha e não tinha um meio dele vir. Quando ele ligava, ele falava: o que você fez? Onde se foi? Queria me controlar a todo tempo [...]
[...] E aí, foi um dia, minha mãe falou assim: esse rapaz só fica brigando com você. A maioria do tempo discute com você porque você fica conversando. Porque nós tendo comércio, temos que conversar com as pessoas, e ele não aceitava. Aí eu pensei que não queria mais o namoro [...]
Contudo, abandonou esse pensamento seduzida pelas promessas dele para casarem-se, mobiliarem a casa e viverem felizes a possibilidade da realização do sonho de casar-se:
[...] Ai ele falou que lá em Curitiba ele já tinha comprado todas as coisas. “Não, vamos voltar que as coisas estão tudo lá compradinha... Nóis vai morar pra lá”. Aí eu acabei voltando o namoro. Eu falei: então tudo bem, então.
Esperava uma casa, tudo as coisas que precisa pra uma casa, a gente não discutir... Não assim, fazer tudo que eu quero mas, pelo menos, alguma coisa... (começou a chorar)... Que a gente pudesse sair no fim de semana, que a gente pudesse levar as crianças no parque todos juntos [...]
Assim, mesmo com todos os avisos de sua mãe e contra a vontade do pai, Amanda casou-se. Antes disso engravidou e não contou para ninguém. Dominada pelo namorado, sem amigos, não acreditava que poderia contar com ajuda ou compreensão da família:
Ah!... eu engravidei, eu não contei nem pra minha mãe, nem pro meu pai. Que eu penso que eu fiz errado, eu devia ter contado. Porque ela ainda perguntou: “você está grávida?” Um medo dela brigar comigo, né. Aí ele (o namorado) me levou no médico tal. E falou que o certo seria "nóis" casar. Ele queria era casar. Aí... ele... ele falou: Nem precisa contar pra sua mãe essas coisas, depois ela fica sabendo. E aí, acabei não contando. A minha mãe foi e falou: ”Você tá gravida, né? Se você estiver grávida você não vai casar, pra que casar só por que você tá grávida?”. Aí eu: não tô, não tô, não tô...
Ao casarem-se Amanda, grávida de três meses foram morar na casa da avó paterna dela, com o intuito de economizar com as despesas da casa. Entretanto, o marido nunca assumiu um compromisso real com o casamento, não contribuía para manter a casa, tampouco tinha comprado os móveis como havia prometido:
O acordo era para pagar água e luz...Depois a minha avó falou: “não, deixa que eu pago, mesmo porque é pouquinho mesmo. E a minha aposentadoria eu só gasto aqui em casa mesmo.” Aí ele se encostou, né... Nós ficamos na casa da minha avó uns 18 meses. Tínhamos um quarto só pra nós. Nessa época, ele falou que tinha comprado os móveis e ele não tinha comprado nada [...]
a partir da ordem patriarcal, que eleva a legitimidade dos direitos do homem sobre a mulher, direitos esses naturalizados pelas ideologias sexistas. No cotidiano das relações conjugais, a desigualdade se apresenta nos papéis desempenhados por cada um dos cônjuges. Por um lado, o marido dominador, explorador que circula pelos espaços públicos. Do outro, a mulher submissa e servidora, pertencente ao mundo privado (AZEVEDO, 1985; SAFFIOTI, 1984 ARAÚJO, MARTINS e SANTOS 2004):
Só que é assim: quando tem churrasco em casa, eu não posso ficar junto com o pessoal. eu só posso ficar na cozinha, lavando louça ou, então, no quarto.
A conformação com o papel de submissão era compartilhada com a mãe de Amanda, reflexo de suas próprias condições de mulheres dominadas:
[...] Até o dia que eu queria ir com ele vender pamonha na rua. Até que ele foi falar com minha mãe: “Dá um jeito na Amanda, porque onde eu vou, ela quer ir atrás.” Minha mãe falou: “qual o problema de você levar ela?” Ele falou: “Não, ela tem que ficar em casa, ela tem roupa pra lavar, ela tem casa pra limpar.” Minha mãe falou: “Amanda fica em casa, larga mão... Se você for com ele, é capaz dele fazer outras coisas com você...” Aí, acabei ficando.