Tanto Machado de Assis quanto Pirandello pontuam o trágico, nos respectivos romances, em situações diversas que marcam todo o processo de infelicidade dos protagonistas a partir de ações ou da ausência das mesmas que estagnam o percurso da vida: a obediência às leis impostas pela sociedade; a negação que as personagens fazem de si mesmos ao camuflar sua essência; a ostentação de uma aparência fictícia que leva à resignação; a acomodação originária da condição financeira que leva à ociosidade; a luta diária por se encaixarem, cada um de acordo com sua necessidade, na forma social a qual pode ser vista como uma máquina esmagadora da consciência humana; a condenação à vida ainda que por meio da memória, como no caso de Brás Cubas, ou por meio da perda da sanidade mental, como no caso de Moscarda, enfim, a o te ue se epete a ada te tati a f ust ada de se e il pa a B s Cu as, e de se u pa a Mos a da, de t o de u a so iedade ue dita o as e ue cobra do sujeito uma posição. Raymond Williams explica que
A consciência social transformou-se de maneira decisiva. A sociedade não é meramente um sistema falso que o libertador pode desafiar. Ela é ativamente má e destrutiva e reivindica suas vítimas simplesmente por estarem vivas. A sociedade ainda é vista como uma instância falsa que pode ser alterada, mas o simples fato de viver nela é suficiente para tornar-se a sua vítima (Williams, 2002, p. 140).
Percebe-se, em toda a pesquisa, que, tanto em Machado quanto em Pirandello, as crises se repetem, seja na prisão das máscaras, na alienação, seja na loucura ou na tragédia, as personagens experimentam as consequências dessas crises consigo mesmo e com o seu entorno. Nesse sentido, tanto Vitangelo Moscarda quanto Brás Cubas são vítimas da desarmonia existente entre o pessoal e o social. No tocante a Moscarda entre sua condição física e o olhar do outro:
Mi credevo un uomo nella vita, un uomo qualunque, che vivesse così alla giornata una scioperata vita in fondo, benché piena di pensieri vagabondi; e no, e no; potevo essere per me uno qualunque, ma per gli altri no; per gli altri avevo tante so a ie dete i azio i, h’io o ’e o date fatte e a ui
o a e o ai adato (Libro terzo, p. 101).71
A condição física de Moscarda é um recurso usado por Pirandello, como metáfora, para mostrar a forma que esconde a alma do protagonista. A sociedade não alcança o que há por trás de um nariz que pende para a direita, olha-o e vê apenas o que foge aos modelos padronizados pela coletividade. Daí a dissociação entre o homem e o que há fora dele. O olhar do outro é pesado e forte, Dida é um exemplo dessa força ao desencadear no marido uma crise existencial mórbida apontando o defeito que ele carregava no nariz a vida inteira sem perceber até aquele momento. Moscarda não consegue conviver com tal descoberta, também não sabe contorná-la e seguir adiante. Ao se curvar diante desse olhar, ou seja, dessa forma, entra em um processo de resignação e definhamento.
Machado de Assis, ao contrário de Pirandello, não se apropria de elementos corporais para compor Brás Cubas, mas o coloca em uma posição oposta à de Moscarda. O coloca como integrante da coletividade, como aquele que aponta o defeito, tal fez Dida, como aquele que cobra um modelo semelhante aos demais, aquele que julga com o olhar. Na posição de Moscarda encontra-se Eugênia que, por meio do olhar de Brás Cubas, ao perceber que esta era coxa, passa pelo crivo do julgamento social e é reprovada.
Mas aquele que julga e cobra do outro um encaixe na forma social também é, de certa forma, escravo da opinião pública, por estar enredado na forma, portanto um mascarado que busca um ajuste nos padrões sociais preconcebidos. Para Daniela Soa es: o o po a po ta de e t ada pa a uma viagem ao mundo da subjetividade ue e ol e a pe so age e a uest o da ide tidade 72. O pensamento de Daniela Soares vem de uma análise sobre o corpo de Moscarda, mas podemos estendê-lo a Brás Cubas por considerarmos que tanto quem é olhado quanto quem olha sofre o processo de desintegração da identidade. E Brás Cubas é um desintegrado a partir do momento que se coloca na posição de quem exige do outro um encaixe na forma
71 Eu a ha a ue e a u ho e a ida, u ho e ual ue , que vivia sem preocupações uma vida no fundo desocupada, embora repleta de curiosos pensamentos vagabundos. Mas não, não; para mim eu podia ser um qualquer, mas, para os outros, não. Para os outros eu tinha várias determinações
ele a tes ue eu o e at i ui a ou ia a e o as uais u a e i po tei Li o III, p. 81). 72 SILVA, Daniele Soares da. O corpo em Um, nenhum e cem mil de Luigi Pirandello. Disponível em
social, pois exigir de alguém uma posição significa estar preso ao mesmo modelo exigido.
Moscarda e Eugênia representam o desvio da forma social. Brás Cubas representa a resposta da sociedade a quem foge aos seus padrões. Ele confessa sentir- se e ao p da uela V us a a , as Eug ia diferente da coletividade, passa ao largo do alto g au de apu o da eleza de Vi g lia. Nota-se, nesse contexto, mais um paradoxo que envolve o protagonista, ao mesmo tempo em que olha e julga ele sofre o peso do olhar e do julgamento alheio. Assumir seus sentimentos por Eugênia seria fugir da forma de pequeno burguês à qual pertence. Ele escolhe a forma. São as aç es suge idas po A ist teles ue o defi i a t ag dia das pe so age s a pa ti de suas escolhas. Entre ficar bem ao lado de Eugênia e se manter na forma ele prefere ede s fo ças ue o do i a , ue o agita e ue o iguala ao odelo de sociedade na qual cresceu.
B s Cu as e a o ido po fo ças ue, segu do ele, o pelia - o a to a a ida agitada do ostu e (Cap. CXVII, p. 118). A primeira força é Sabina, sua irmã, que o impulsiona a casar-se com Nhã-lol : Qua do dei po i esta a o a oça uase os aços p. 18). A segunda força é Quincas Borba que ao mostrar-lhe o Humanitismo o coloca diante da expansão e da dispersão do homem. A desarmonia entre o pessoal e o social nasce do que ele define como a terceira força:
A terceira força que me chamava ao bulício era o gosto de luzir, e, sobretudo, a incapacidade de viver só. A multidão atraía-me, o aplauso namorava-me. Se a ideia do emplasto me tem aparecido nesse tempo, quem sabe? Não teria morrido logo e estaria célebre. Mas o emplasto não veio. Veio o desejo de agitar-me em alguma coisa, com alguma coisa e por alguma coisa (Cap. CXVIII, p. 120).
O pensamento de Brás Cubas nos mostra o peso da vaidade que o move e nos reporta ao pensamento de Francisco Maciel Silveira, ao analisar a obra de Pirandello:
O homem vive impulsionado por forças contraditórias que emanam de sua natureza. Enquanto animal arrasta-o a coleira dos impulsos vitais e instintivos. Por ser racional, procura fixar, frear, ordenar e eternizar a fluidez evanescente e desordenada da vida através da forma: os preceitos, normas, leis e costumes. Por sua vez, as
instituições sociais e os sistemas de pensamento não passam de máscaras que, escondendo o verdadeiro rosto e o verdadeiro ser de todas as coisas, instauram o reino da aparência e ilusão (Silveira, 1999, p. 37).
As personagens demonstram com seus pensamentos a interferência da sociedade na vida de cada um. A moderação de um e a agitação do outro convergem para o isolamento gerador da sensação de impotência que leva à consciência do nada. A impotência dos protagonistas sugere a ausência de ações que impede o homem de administrar sua existência. O trágico que acompanha as personagens vem mesclado a um sentimento de pessimismo que coloca em evidência certa descrença na humanidade.