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A partir da história das organizações em que foram feitas entrevistas pôde-se verificar que todas elas passaram por um “processo de autonomização” seja do governo ou ainda de instituições da própria sociedade civil.

Dessa forma, tanto o Instituto Geledés, em São Paulo, criado em 1987 e oficializado em 1988, quanto o Cfemea, fundado em 1989 em Brasília, ambas ONGs que atuam na defesa dos direitos da mulher, foram criadas em um processo de descolamento de suas lideranças da

máquina estatal. A formação do Geledés, por exemplo, é resultado do insucesso da proposta de criação de um Conselho Estadual da Condição Feminina, no governo Franco Montoro, em São Paulo, em 1983. Em razão da iniciativa deste governo foi criada, também no mesmo ano, a organização Coletivo das Mulheres Negras que foi responsável por assessorar a criação do conselho. No entanto, este conselho não teve o caráter democrático imaginado e, de acordo com a entrevistada do Geledés:

Acabou sendo um processo de completa cooptação. A causa era justa, mas objetivamente o que aconteceu foram que os principais quadros dessa organização [Coletivo das Mulheres Negras] foram para dentro do Estado sustentar as proposições políticas das mulheres negras. Fomos engulidas pela máquina.

Sendo assim, o Geledés surgiu a partir da idéia de recuperação de uma autonomia política do governo; “o coletivo não tinha mais condições porque estava absolutamente

contaminado. Foi necessária uma nova construção. Uma organização completamente autônoma, independente, desvinculada de plataforma governamental”. A história do Cfemea

também é similar com a do Instituto Geledés. As fundadoras daquela organização faziam parte da equipe técnica do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) durante o processo de redemocratização, e o Cfemea foi criado após o acordo de demissão coletiva entre as conselheiras e a equipe técnica. A falta de autonomia no processo de trabalho e as divergências com o Ministério da Justiça (onde ficava o conselho) foram os motivos para a decisão de pedir demissão do corpo político e técnico do CNDM, em 1988. Nas palavras da dirigente do Cfemea:

O ministro queria cortar recursos, não queria que a gente falasse sobre direitos reprodutivos, direitos da mulher decidir sobre o seu próprio corpo. E aquele organismo que era um organismo absolutamente anômalo dentro do Ministério da Justiça faz o que é normal para qualquer anomalia: o corpo todo político do conselho decide pedir demissão da condição de conselheiras. Fazem uma reunião com todo o corpo técnico que também

eram um bando de feministas e todo o corpo técnico decide pedir demissão das suas funções. E sai todo mundo. Porque não aceitávamos as restrições que estavam sendo colocadas pelo Ministro da Justiça. Isso foi exatamente na seqüência da promulgação da Constituição.

O Cfemea, portanto, foi criado pelas mulheres que faziam parte da equipe técnica do conselho residentes de Brasília que resolveram dar continuidade na articulação com o movimento de mulheres e no acompanhamento do processo de redemocratização, formalizando essa atuação em uma organização não governamental.

O Inesc, por exemplo, já nasceu em 1979 com uma atuação de assessoria aos parlamentares de oposição no Congresso. A criação da instituição passou a suprir uma demanda de assessoria desses parlamentares que não tinham essa estrutura disponível, isto porque muitos partidários do movimento esquerdista ainda se encontravam exilados fora do país. Segundo seu dirigente, “com o tempo, o Inesc sai desse patamar de assessoria e passa a

ser um sujeito político que atua dentro do espaço no Congresso, com perfil de defesa de direitos”. Assim, durante o processo da constituinte a entidade começa a ter um outro patamar de relação com o Parlamento. Há uma mudança na forma de atuação e o Inesc deixou de ser uma organização de assessoria aos parlamentares e passou a se constituir em uma organização com um perfil político definido.

O Instituto Pólis, a Fase e o Ibase, por outro lado, passaram por um processo de descolamento ou reestruturação em relação às instituições da própria sociedade civil. O Pólis, por exemplo, nasceu em 1987, em São Paulo, e sua origem está relacionada ao interesse de um grupo militante do PT sobre experiências locais que começavam a acontecer na década de 1980. Segundo seu dirigente, “apesar dos esforços de vários de nós em insistir na criação

partido não deu bola para isso. Então, nós começamos a pensar na criação de um instituto fora, na sociedade.” Assim, a criação do Instituto Pólis tem origem na dissidência de

militantes do próprio partido político em busca de autonomia para desenvolver estudos sobre um novo tema, pois, segundo o entrevistado, “o PT não era sensível para essa questão”.

A Fase, a mais antiga entre as ONGs entrevistadas, criada em 1961 no Rio de Janeiro, antes até do golpe militar, passou por seguidos “processos de autonomização”. Criada por um padre da Igreja Católica a partir de uma idéia fundamentalmente assistencial, a Fase ainda nos anos de 1960, conquistou autonomia em relação à Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Segundo seu dirigente, iniciou-se a partir de então uma etapa fortemente marcada pela educação popular e pelo Movimento de Educação de Base. Este período coincide com os anos de ditadura militar e a instituição passou a se envolver na rearticulação do movimento sindical e no apoio às oposições sindicais contra os sindicatos pelegos. A instituição passou a ter um papel ativo na articulação dos movimentos sociais, tendo papel de destaque na construção da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1984. Neste momento de luta contra o autoritarismo, as 13 equipes locais espalhadas pelo Brasil que compunham a Fase foram contratando pessoas oriundas da militância política de diferentes linhas ideológicas. Segundo o entrevistado, muitos desses militantes políticos que entraram na Fase neste período eram chamados de “aparelhistas”, pois queriam controlar a instituição e seus recursos para projetos políticos próprios.

Exemplo, tinha uma equipe da Fase, em São Luiz, que era quase que uma linha auxiliar de um líder lá do PC do B que se candidatou a deputado. Era um completo desvirtuamento, mas também não se sabia muito de que, ou seja, o que estava sendo desvirtuado. Porque nessa altura do campeonato, a identidade institucional estava praticamente diluída.(Fase2, entrevistado2).

Essa trajetória fez com que a organização enfrentasse problemas nos anos de 1980 para a construção de sua institucionalidade. Portanto, segundo seu dirigente, o período de democratização também foi um período de organização institucional. A Fase, passou, nos anos iniciais da década de 1980, por um processo de autonomização da própria sociedade civil tendo como marco a discussão a respeito da sua identidade, que foi consagrada na elaboração de uma carta de princípios, em 1982, em que era afirmada a autonomia em relação às Igrejas e aos partidos políticos. Pode-se verificar o processo de autonomização desta instituição em relação à própria sociedade civil a partir dos seguintes fragmentos:

A grande maioria conseguiu ficar, convivendo dentro de uma instituição que tinha um perfil próprio pela primeira vez em 10, 15 anos. Depois de 84, já com essa carta de princípios, com debates bastante intensos sobre a metodologia de trabalho, sobre as relações com os movimentos sociais, sobre a conjuntura política, começou a haver uma diferenciação na própria sociedade civil.(Fase2, entrevistado2).

Hoje, a Fase é da coordenação da Articulação Nacional de Agroecologia, atua em várias redes junto ao MST, a CUT, mas não tem mais aquela relação simbiótica que tinha nos anos 70 e início dos anos 80.(Fase2, entrevsitado2).

Assim como a Fase, também se pode verificar um processo de autonomização da sociedade civil a partir da história do Ibase, criado em 1981. Essa questão ficou evidenciada tanto por um movimento pessoal do entrevistado como também por um movimento seguido pela organização. Segundo o representante do Ibase, “eu fui filiado ao PT, mas eu saí quando

entrei no Ibase. Para exatamente manter essa separação porque com os outros partidos nunca foi uma tensão. Como ele se dizia expressão das várias entidades, associações, movimentos, também era considerado expressão da gente. Isso aqui não é do PT, o Ibase não é do PT”(Ibase2). O entrevistado conta, ainda, que houve um distanciamento consciente

da organização tanto de partidos políticos como também de movimentos como a CUT, como se pode ver nas suas falas destacadas:

Quando eu entrei no Ibase, a CUT ainda não tava consolidada. O principal escritório de apoio dela era o Ibase. Eu disse.... mas nós não somos serviço da CUT (...) Porque o Ibase também não se considera a serviço de movimento. Nós queremos ter autonomia de poder criticar os movimentos. (Ibase2).

O próprio Betinho sofreu muita pressão com o Brizola. Teve um momento de tomar distância sim. Lembra, durante a campanha da Fome deu aquele escândalo do jogo do bicho, etc. Era a expressão dessa proximidade com... no caso com aquele vice do Brizola, aquele advogado. Ele vivia aqui no Ibase. Lá culminou. Não tínhamos uma ligação orgânica assim, mas houve um distanciamento sim. Foi nesse processo de aprendizado da autonomia. Porque, vê, nasce contra o Estado, daí essas forças viram Estado, viram governo. Aí você tem que reaprender. Porque é aquela tensão grande. (Ibase2).

A partir da história das seis organizações em que foram feitas entrevistas observou-se que a questão da autonomia é um tema que perpassa a origem e o desenvolvimento de todas elas. Seja do próprio Estado, da Igreja, de partidos políticos ou ainda de movimentos, todas as ONGs passaram por um processo de desvinculação e descolamento para a construção da própria identidade. Apesar da literatura e, até mesmo, de alguns entrevistados enfatizarem como característica a autonomia das organizações não governamentais em seu período de criação o que se percebe, ao contrário, é que a história de todas as instituições contempla um processo de construção e aprendizagem de autonomia. Assim, a “autonomização das ONGs” se constitui em um processo de aprendizagem incessante. Isto porque, à medida que novos elementos e contextos surgem acabam por gerar novos padrões de relação entre Estado e sociedade e diferentes desafios a se enfrentar. Esse movimento dinâmico que acompanha a evolução das relações sociais é resumido pelo seguinte entrevistado:

Não existiam contratos até o período Itamar Franco e a gente não tinha muitas coisas em comum. No período Itamar Franco que abriu [um processo de trabalho em parceria, uma relação mais próxima], em função da campanha da fome a gente teve que começar a definir critérios, porque começou a se colocar o problema, né. E aí ao começar a definir é que apareceram alguns. Só que isso é uma novidade que a própria democracia cria. (Ibase2).

Benzer Belgeler