As comunidades tradicionais formam a diversidade de populações que habitaram e habitam historicamente o território. Nesta mescla, caiçaras, indígenas, caboclos, ribeirinhos e quilombolas são os respondáveis pela conservação da grande riqueza biológica da região (PINTO, 2014, p. 82).
Desde o litoral, os caiçaras surgem da mescla dos colonizadores com negros e indígenas e continuam na busca por reconhecimento e ocupam toda a costa litorânea do território e suas lutas e resistência em garantir sua reprodução do modo de vida, onde são proibidos de fazer suas roças de coivara, utilizar madeiras para casas e barcos. A atividade principal continua a pesca artesanal nos braços de mar, porém dependem do escoamento de atravessadores em estruturas como Ceasas locais, que distribuem o produto para os grandes centros, principalmente São Paulo. Sendo assim vêem parte de sua relação com a natureza ser quebrada, porém ainda praticando uma pesca artesanal, utilizando o conhecimento tradicional
e mantendo suas formas diversas de relação com o mar.
Os indígenas são o grupo que mais sofreram e sofrem com as pressões sociais desde o período da colonização. Com a chegada dos parques são obrigados a conviver nestas áreas com todas suas restrições. Calcula-se uma população de aproximadamente 400 indígenas sobreviventes, distribuídos em 10 aldeias69 da etnia Guarani, pertencentes aos subgrupos Mbyá e Ñandeva. Hoje praticam uma agricultura mais voltada à questão religiosa e de pouca subsistência onde têm uma alta dependência de políticas de órgãos públicos e de setores da igreja. Algumas iniciativas de artesanato para geração de renda são encontradas, porém o extrativismo (principalmente de palmito) continua sendo uma fonte de renda para alguns indivíduos dentro dessas aldeias.
Segundo estudo do Instituto Sociambiental (INSTITUTO SOCIAMBIENTAL, 2013), hoje existem 63 comunidades quilombolas na região (em detrimento de 45 conforme levantamento do Itesp) em diversos estágios de reconhecimento jurídico, desde apenas ainda apontadas70, outras em estágio de identificação (já com ato normativo por parte do Estado e/ou certificado da Fundação Palmares), além de outras já reconhecidas, com registro ou título parcial ou integral. Estas comunidades sobrevivem também em diversos estágios organizativos, algumas com associação forte e processos de venda da produção (banana e olerícolas em geral) mais avançados e outras ainda buscam condições básicas para viabilizar uma forma digna de sobrevivência.
Por exemplo, a comunidade do Ivaporunduva, primeiro quilombo reconhecido e com um grau [intermediário-avançado] de organização permitiu a certificação orgânica de sua produção e hoje têm uma boa comercialização do produto, porém ainda dependente de atravessadores em alguns momentos. Também conseguiram uma ponte de concreto para acesso á comunidade, o que melhora o aspecto tanto do acesso á comunidade quanto ao escoamento da produção, que antes dependia de balsa71 para atravessar o rio. Segundo membros da associação a segunda maior renda da comunidade vem do turismo comunitário, onde a comunidade conta com uma estrutura para recepção de turistas com espaço para alojamento e refeição. Recebem principalmente grupos escolares e universitários.
69
Esses números variam com o passar do tempo, devido a algumas mudanças de localização das aldeias pelo território.
70
Primeira sinalização de existência do Território Quilombola, ainda sem nenhum ato normativo jurídico vinculado. Considerando apontamento feito pelo Estado ou Movimento Social.
71
Vale destacar que essa ponte foi a única implantada até hoje apesar de outras tantas comunidades Rio Ribeira acima ainda dependem das balsas para chegarem às cidades.
Ao mesmo tempo, comunidades, como a de Bombas, já citada, ainda luta por ter acesso a energia elétrica e uma estrada de acesso à comunidade. Também cabe destaque para a iniciativa da Cooperquivale que, apesar de toda a dificuldade de gestão da cooperativa e de logística (desde buscar produtos nas comunidades até a entrega), vem buscando sobreviver como forma organizativa das comunidades, porém hoje depende de apenas um projeto de PAA recém aprovado. A produção em sua maioria não advém mais das coivaras, onde algumas experiências de áreas liberadas de roça não deram muito resultado, mas sim dos quintais ou algumas áreas abertas que permaneceram.
Os caboclos de Iporanga hoje lutam pela criação de uma RDS (Reserva de Desenvolvimento Sustentável) do bairro Ribeirão dos Camargo, onde veem na criação desta reserva uma oportunidade de poder usufruir da natureza, na sua forma tradicional de uso e convivência, porém, apesar de alguns avanços, não há uma solução clara. O pedido de criação já foi protocolado na Fundação Florestal, com os estudos antropológicos e demais documentos demandandos pela instituição, porém a Associação local ainda cobra uma resposta do governo. A comunidade viu seu território ser sobreposto pelo PETAR e com todas suas restrições, vem buscando modos de sobreviver. No ano de 2015 conseguiram a liberação de algumas roças, porém por ser um ano muito chuvoso, muito pouco foi plantado. Ou seja, a produção de subsistência, embora comercializem parte de sua produção, ainda é a principal luta e forma de sobrevivência da comunidade.
Foto 15 - Roça de coivara da Sra. Dirce, na comunidade cabocla do bairro Ribeirão dos Camargo em Iporanga São Paulo.
Fonte: Cedido por Maria Dolores Rubio
Sendo assim, pode-se dizer que o sistema de coivara vive uma crise que vem se alongando desde a década de 1990 e apenas resiste por reproduzir um modo de vida das comunidades e a relação destas com a natureza. Alguns estudos vêm demonstrando a viabilidade dessas roças, enquanto espaço de convivência e sobrevivências das comunidades, mas também em seu aspecto produtivo na diversidade biológica e agrobiodiversidade. Levantamento recente feito pelo Instituto Socioambiental, em parceria com a Associação Brasileira de Agricultura Biodinâmica, diagnosticou em 11 comunidades, a presença de dez variedades de milho, oito de feijão, oito de arroz e 14 variedades de mandioca atualmente cultivadas72. Ou seja, estas roças têm um apreço para além da cultura e sobrevivência das comunidades, mas também pela agrobiodiversidade e para a agroecologia no território.
Estudos também buscam apontar que o uso do fogo também não prejudica a biodiversidade do solo, por ser manejado de forma consciente e controlada. Porém, até o momento, não há uma solução que aponte caminhos de convivência entre parques, leis ambientais e sistemas de coivara adotados pelas comunidades tradicionais.
Outra questão percebida pela pesquisa, foi que com a chegada de estradas e uma
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certa infraestrutura nas comunidades, a possibilidade de entrada no mercado agrícola se torna real. Sendo assim, algumas comunidades vêm conseguindo estruturar agroindústrias artesanais, viabilizar caminhões para entrega da produção (como no caso da comunidade São Pedro, em Eldorado, que conseguiu um caminhão em 2015 pelo projeto Microbacias em parceria com o Governo do Estado de São Paulo) e acessar políticas de compra pública como o PAA e PNAE. Porém ao mesmo tempo vê-se claramente que a hegemonia do processo capitalista de mercado e suas determinantes (expressadas na Revolução Verde) criam processos que os levam, por exemplo, a acentuar a implantação de monoculturas como a do palmito pupunha e a utilizar o pacote de insumos sintéticos, práticas até então muito pouco utilizadas nas áreas de cultivo das comunidades.