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Melucci (1989b, p. 5) explica que o sistema de ação que constitui o movimento social ocorre dentro de “[...] um sistema de oportunidade e coerções [ou] campo sistêmico de possibilidade e limites”. Logo, as relações entre os atores sociais se dão dentro de um dado ambiente sócio-histórico que favorece ou constrange a ação coletiva.

De acordo com Alonso (2009), Melucci concentra sua análise no nível microssocial das interações sociais, filiando-se assim à tradição do interacionismo simbólico.49 Por conseguinte, as “[...] oportunidades e constrangimentos objetivos à ação coletiva [...] são mediados pelas percepções dos agentes, por uma apreensão cognitiva das possibilidades e limites, produzida no próprio curso da ação” (ALONSO, 2009, p. 65).

49 O interacionismo simbólico é um dos fundamentos da teoria de Melucci (1996). O sociólogo norte-americano Herbert Blumer (1986, p. 2, tradução nossa) define-o com base em três premissas inter-relacionadas: “[...] os seres humanos agem em relação às coisas com base nos significados que as coisas têm para eles [...] o significado de tais coisas é derivado ou origina-se da interação social que se tem com um indivíduo [...] esses significados são manejados e modificados por meio de um processo interpretativo usado pela pessoa ao lidar com as coisas que ela encontra” (1986, p. 2, tradução nossa).

Tomadas do ponto de vista das interações sociais, as oportunidades e os limites sistêmicos não são especificados e analisados em termos das suas circunstâncias macro- históricas, sobretudo aquelas relativas às relações que o movimento social estabelece com o sistema político e as ações institucionais do Estado.

Segundo Brandão (2001, p. 155), tal apreensão do fenômeno social, embasada nas definições subjetivas dos atores sociais sobre as circunstâncias da sua ação, não propicia suficientes ajustes de foco para investigações sobre “[...] o caráter definidor de algumas circunstâncias macrossociais sobre interações microssociais”.

Todavia, a investigação empírica e a pesquisa bibliográfica têm oferecido indicações sobre a importância do contexto político mais amplo – como a redemocratização brasileira – e do papel do Estado – por exemplo, Corde – como fatores explicativos para a emergência e o desenvolvimento da ação coletiva do movimento surdo nas décadas de 1980-1990. Desse modo, a construção do objeto de pesquisa conduziu-nos à necessidade de combinarmos as perspectivas macro e micro50 na análise do fenômeno social estudado.

Decidimos então tomar a noção de “[...] campo sistêmico de possibilidades e limites [...]” (MELUCCI, 1989b, p. 5) sob a ótica do conceito de estrutura de oportunidades políticas, definido na produção do sociólogo norte-americano Tarrow (2009) dentro da Teoria do

Processo Político (TPP).51

A TPP “[...] enfatiza a importância crucial da expansão das oportunidades políticas como o impulso final para a ação coletiva” (McADAM; McCARTHY; ZALD, 1996, p. 7, tradução nossa). Para Tarrow (1996), quando o contexto político e institucional mais amplo muda com o tempo, altera-se o campo onde agem os atores sociais e, deste modo, são redimensionadas as restrições e oportunidades disponíveis ao surgimento e sustentação do movimento social. Este campo onde ocorre a ação dos atores sociais é definido conceitualmente como estrutura de oportunidades políticas:

50 Conforme a indicação de Brandão (2001, p. 164) sobre a “[...] necessidade de incluir tanto os aspectos subjetivos quanto os processos externos na elaboração, análise e interpretação das pesquisas em ciências sociais”.

51 A TPP marcou a produção norte-americana sobre movimento sociais das décadas de 1970-1980. Seu foco analítico é o campo político, tomado na sua dimensão macrossocial. Dentre suas premissas principais, destaca-se o argumento de que “[...] os ativistas não escolhem objetivos, estratégias e táticas em um vácuo. Em vez disso, o ambiente político – conceitualizado de modo bastante amplo – define as queixas em torno da qual os ativistas se mobilizam, priorizando algumas reivindicações em detrimento de outras” (MEYER, 2004, p. 127-128, tradução nossa).

Por estrutura de oportunidades políticas, refiro-me a sinais consistentes – mas não necessariamente formais, permanentes ou nacionais – para os atores sociais ou políticos, que podem tanto encorajá-los quanto desencorajá-los para o uso de seus recursos internos a fim de formar movimentos sociais (TARROW, 1996, p. 54, grifos do autor, tradução nossa).

As ações institucionais do Estado são descritas pela TPP como variáveis importantes na criação das oportunidades políticas para a ação coletiva dos atores. Segundo Tarrow (1996), existe uma série de diferentes mecanismos pelos quais o Estado pode favorecer a emergência e o desenvolvimento de um movimento social, tais como:

(a) Abrir canais de vocalização para que as suas demandas cheguem às agências estatais e possam então ser consideradas na formulação das políticas governamentais.

(b) Prover recursos materiais para manter tanto a sua mobilização quanto as suas estruturas organizacionais.

(c) Reconhecer a sua posição como representante e interlocutor legítimo dos interesses de um grupo social perante as instâncias do Estado.

Tais ações estatais diminuem os custos e aumentam as expectativas dos atores sociais quanto aos benefícios e ganhos da ação coletiva – sejam eles de ordem política, ideológica, financeira ou outros –, fomentando o movimento social. Por outro lado, conforme explica Tarrow (1996), o Estado, em vez de criar oportunidades políticas, pode atuar na direção oposta, impondo restrições e coerções para a ação coletiva do movimento social, dentre elas:

(a) Censurar, reprimir ou criminalizar suas ações. (b) Fechar o sistema político à sua participação.

(c) Estabelecer entraves burocráticos ao seu acesso às instâncias estatais.

Esses e outros mecanismos aumentam o custo da ação coletiva e, desta maneira, dificultam a mobilização de recursos para o movimento social. O fato é que a criação de oportunidades políticas pelo Estado não é um processo unidimensional. Os movimentos poderão perceber e utilizar com mais ou menos eficiência os recursos externos que estão disponíveis ao grupo para a sua organização e, sobretudo, mobilização para consolidar ou

ampliar a estrutura de oportunidades políticas existentes, ou seja, “[...] uma vez formados [...] os movimentos criam oportunidades [...]” (TARROW, 2009, p. 106, grifo do autor).

Na nossa pesquisa, constatamos que o Estado brasileiro criou condições de oportunidades políticas para a agência coletiva de ativistas surdos nas décadas de 1980-1990, dentro de uma conjuntura internacional e nacional de ampliação e consolidação das garantias dos direitos da pessoa com deficiência. Os recursos estatais então disponibilizados a esses ativistas foram fundamentais ao surgimento e à estruturação do movimento social surdo brasileiro que, como veremos no próximo capítulo, havia emergido do movimento social das pessoas com deficiência.

3 O MOVIMENTO SOCIAL DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA E A GÊNESE DO

Benzer Belgeler