• Sonuç bulunamadı

inventa uma outra relação com a vida cotidiana, é o foco

da obra de Sophie Calle. Nela, os espectadores são testemunhas da excitação, da tensão e das descobertas que a artista faz durante o desenvolvimento de sua atividade lúdica. A ação de jogar, seria o próprio programa performático e, portanto, o tema de sua obra. A execução do jogo, aqui, gera imagens e textos imprevisíveis, que não estão submetidos a um julgamento clássico de obra de arte fotográica ou literária, exatamente por serem parte de um processo e, portanto, não possuírem um caráter de objeto artístico “acabado”, isto é, a de um resultado estético que vale por si só, independente do processo artístico que o gerou.

De fato, no cerne da noção de performance reside uma segunda consideração, a de que as obras performativas não são verdadeiras, nem falsas. Elas simplesmente sobrevêm. (…). A esse respeito, os textos falam de “eventness”. Ela coloca em cena, com esse im, o processo. Ela ampliica, portanto, o aspecto lúdico dos eventos bem como o aspecto lúdico daqueles que dele participam (performers, objetos ou máquinas).58

A mulher que caminha pelas ruas de Veneza, perseguindo seu protagonista, não se distancia do evento

em que está inserida, pelo contrário, está completamente submetida à duração do tempo presente – como uma criança durante o desenvolvimento de uma brincadeira. A cada respiração e a cada passo do homem que segue, sempre atenta para não ser percebida, ela desenvolve uma ação que só se conigura no tempo mesmo de sua realização. No processo encarnado de vivência, a artista perambula pelas ruas de Veneza em um presente contínuo, já que por se tratar de uma perseguição, ela percorre a cidade sem saber o que ocorrerá e⎜ou o local para onde está sendo levada. Em uma relação literalmente labiríntica, como o Teseu que segue o io de Ariadne, sua errância pela cidade italiana é diversa daquela de um turista ou de um fotógrafo tradicional. Ela se relaciona com a cidade sem um planejamento anterior, sem portar um mapa, nem ter objetivos claros,

58 Josette Féral “Por uma poética da performatividade: o teatro performativo” In: Revista Sala Preta. N 8. São Paulo, Programa de pós-graduação em Artes Cênicas, ECA/USP, 2008, pp. 197-210.

Sentia-me muito próxima do trabalho de Calle, como se de alguma maneira ele me dissesse respeito de uma forma muito direta. Ela manejava com maestria diversas linguagens e parecia tornar mais palpável o sonho da menina que eu fui ou sou - a menina que sonhava ser modelo, escritora, detetive particular, atriz, artista plástica, psicóloga, veterinária, poeta, aeromoça... Sophie Calle brinca, encarna e assume em sua igura de artistaçpersonagem a realidade de sermos tantos em um só, de sermos múltiplos UNOS, e de renascer a cada segundo, minuto e hora em cada projeto artístico como uma outra uma outra, no entanto, que sempre esteve ali e só precisava de uma oportunidade para se revelar.

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lançando-se em uma deriva59 e experimentando a cidade de uma maneira única.

Nessa experiência de deriva persecutória a artista encarna a igura do detetive clássico. Aquele que segue o suspeito pelas

ruas de uma cidade e camula-se entre seus transeuntes.

Junto com a multidão, uma igura aparece com freqüência no jogo de esconde-esconde, de se perder e se achar na multidão: o detetive, que em O homem das multidões seria o próprio narrador do conto, que tem como alvo de sua investigação o velho que ele segue. A ideia de supressão de rastros e vestígios dos indivíduos no meio da multidão é freqüente; a busca pelo anonimato a clássica imagem dos ilmes

noir, em que o criminoso

que está sendo perseguido some, se dissolve no meio da multidão.60

A igura de detetive que Calle encarna, portanto, busca o anonimato em meio à cidade e à multidão. Mas, para que um espião passe incógnito uma condição é indispensável: a solidão. Dissolver-se nas ruas e entre os passantes, confundir-se no meio dos transeuntes, virar a esquina e atravessar a rua sem ser percebida, são atos solitários por excelência. A própria natureza da ação escolhida pela artista, exclui, portanto, a

possibilidade do espectador de compartilhá-lo em tempo presente. E é aqui que a obra se diferencia da performance art.

59 “Entre os diversos procedimentos situacionistas, a deriva se apresenta como uma técnica de passagem rápida por ambiências variadas. O conceito de deriva está indissocialmente ligado ao reconhecimento de efeitos de natureza psicogeográicas e à airmação de um comportamento lúdico- construtivo, o que o torna absolutamente oposto às tradicionais noções de viagem e de passeio” Guy Debord apud Paola Berenstein Jacques, Elogio aos errantes, Salvador, Edufba, 2012, p. 213.

60 Paola Berenstein Jacques, Elogio aos errantes, Salvador, Edufba, 2012, p. 213.

Um leve arrepio percorre minha espinha, lembro-me de diversas histórias de desaparecimentos inexplicados. Corpos que simplesmente deixam de existir, sem deixar rastros. Homens-imagens, que não deixam vestígios de sua presença física no mundo... O homem sem sobra do qual fala Braudillard ou o vampiro sem relexo no espelho.

Lembro-me que no livro comprado em 2006, apaixonei-me, em especial, por uma história misteriosa, sobre a qual Calle construíra uma obra: a história de uma moça que havia desaparecido sem deixar vestígios. A mulher era vigia do Centre George Pompidou e no dia em que desapareceu seu apartamento tinha pegado fogo, inexplicavelmente. Quando os bombeiros chegaram no edifício em chamas, ela desceu as escadas do prédio, dobrou a esquina e nunca mais foi vista...

Relatos de desaparecimentos misteriosos nos suscitam profundo interesse, penso – enquanto escrevo sobre o assunto – porque colocam em cheque nossa própria materialidade. Como pode alguém simplesmente evaporar?

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Benzer Belgeler