De acordo com a Prefeitura de Belo Horizonte (2005/2006),34 a Educação de Jovens e Adultos na cidade era ofertada por meio de duas frentes de trabalho: na escola e fora da escola. Na primeira frente era oferecido o Ensino Regular Noturno e a Modalidade EJA nas escolas. A outra frente consistia no atendimento fora das escolas, composta pelo Brasil Alfabetizado e pelo Projeto EJA/BH. Esse Projeto funcionava em espaços não escolares, mas eventualmente alocava-se também em escolas.
A EJA na Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) tem suas origens com a criação do curso regular de suplência de primeira a quarta série em 1971, na Escola Municipal Maria das Neves. Só a partir da década de 1990 é observado um processo de expansão da EJA nesta rede municipal de educação, proveniente da emergência de movimentos populares durante o processo de redemocratização da sociedade e do Estado brasileiros, culminando na promulgação da Constituição Federal de 1988 (CONSELHO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE BELO HORIZONTE, 2003). Neste sentido, houve, portanto, demanda pela ampliação da oferta de vagas.
Soares e Venâncio (2007) acrescentam que após o Conselho Nacional de Educação ter homologado as Diretrizes Curriculares Nacionais para a EJA, a Secretaria Municipal de Educação (SMED) de BH encaminhou ao CME a solicitação de regulamentação da EJA em suas escolas, processo que envolveu tanto os trabalhadores em EJA das escolas municipais quanto alunos e representantes de gestores.
Esses autores relembram que antes da elaboração do Parecer foram realizados encontros com representantes dos segmentos e sujeitos envolvidos com a EJA e trocas de experiências com escolas que tinham experiências significativas. Soares e Venâncio (2007) afirmam que a intenção do parecer era instituir as diretrizes para a EJA sob a forma presencial nos estabelecimentos de ensino da RME de BH, no âmbito do ensino fundamental e médio.
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Artigo intitulado “Política de atendimento à Educação de Jovens e Adultos” publicado no periódico “Revista Pensar BH”, editada pela PBH.
Segundo o Parecer 093/02, o aumento das matrículas foi significativo até 1997, quando se verificou uma tendência na Rede Municipal de Educação (RME) de BH a não ampliar com novos cursos, acrescida por um movimento paralelo de transformação de antigos cursos dessa modalidade em ensino fundamental regular. Dessa forma, a demanda não atendida passou a ser absorvida na rede regular de ensino, por meio da ampliação de vagas no ensino noturno.
De acordo com o Parecer 093/02, a Escola Plural foi um marco significativo na história da EJA na cidade, que provocou um olhar mais atento às múltiplas dimensões da formação dos sujeitos da EJA por meio de reflexões coletivas que se constituíram em referências para se repensar a prática pedagógica desta modalidade.
Tratando do histórico da EJA na cidade de Belo Horizonte, o Parecer 093/02 registra que o poder público desenvolve um projeto de alfabetização cujas atividades são desenvolvidas por professoras da rede junto a mães de alunos do Programa Bolsa Escola, e que este projeto também atenderia a outras pessoas que não estavam vinculadas ao Programa. O referido Projeto de Alfabetização é o Projeto EJA/BH, abordado no próximo item.
O Parecer 093/02 traz uma concepção que parte do reconhecimento de que a EJA é uma educação que não se restringe aos espaços e tempos escolares, constituindo-se, portanto, de sujeitos que possuem uma relação próxima com o mundo do trabalho. É explicitado o caráter de ações educativas fundamentadas no legado da Educação Popular, na qual todos têm acesso e, sobretudo, participam da sua construção. A noção de educação “para toda a vida” é apontada e justifica o fato de que a educação de jovens e adultos não se limita à alfabetização e ao letramento. Pensando-se em práticas pedagógicas, é mencionada a não instituição de exames supletivos na Rede Municipal, uma vez que a oferta da EJA se realizaria de forma inteiramente presencial, de acordo com o parecer.
Sobre a questão da permanência nos estudos, o Parecer 093/02 acrescenta que a rigidez da organização escolar, a ênfase dada à frequência, tem inviabilizado o direito à educação. Dessa forma, a organização dos tempos, dos espaços e do trabalho do educando necessitam estar articulados para atender às especificidades dos sujeitos jovens, adultos e idosos que buscam a escola. É sugerido no Parecer e na Proposta Político Pedagógica do Projeto EJA/BH que o educador tenha uma atitude investigativa em relação à frequência de seus estudantes. A iniciativa é a de
buscar os motivos que levam esse sujeito a se afastar ou se ausentar da vida escolar, as implicações que esse afastamento pode ter na vida do educando e o significado da escola para ele. De acordo com esses documentos, a apuração da frequência possibilitaria uma reorganização por parte da escola com o objetivo de acolher novas possibilidades educativas para o aluno, sendo considerados os motivos da presença e da ausência como significativos, uma vez que estes podem desencadear ações da escola e do poder público para facilitar a permanência do educando na escola.
Em relação à frequência, o Parecer registra, em forma de nota de rodapé, uma contribuição do Projeto de Educação de Trabalhadores – Escola Municipal União Comunitária/Escola Sindical 7 de Outubro:
As idas e vindas, as faltas, os afastamentos temporários e indefinidos, seja por quais motivos forem [...] não caracterizam abandono. O risco de perder a vaga na escola inexiste, a não ser em caso de desistência formal. O aluno sempre volta à escola e sabe que pode voltar. [...] A formação humana continua em outros âmbitos sociais [...]. Nos tempos de ausência da escola, o trabalhador permanece sujeito de sua aprendizagem. A escola, então, constitui- se num espaço em que cada um amplia suas possibilidades formativas, em que a liberdade e a autonomia implicam responsabilidade (CME, 2002, p. 29).
A resolução 001/2003 destaca que cabe ao poder público a adoção de medidas que visem a diminuir a distância entre os educandos e a escola e à inserção desses educandos nas unidades escolares municipais. É reafirmado, assim, como no Parecer citado anteriormente, que a frequência deve ser apurada, possibilitando ao processo educativo uma atitude investigativa em relação aos motivos da ausência do educando e um redimensionamento do tempo e da organização escolar do trabalho pedagógico para abarcar as possibilidades formativas do estudante. É citada a instituição de mecanismos formais a que o educando possa recorrer para descrever e justificar afastamentos temporários das atividades escolares. Compete também à escola a viabilização do acesso e a permanência do educando, sem distinção de experiência escolar anterior, podendo o educando estar ou não alfabetizado. Assim, acesso e permanência, segundo a Resolução, terão de ser assegurados independentemente de documentação acerca de situação escolar anterior.
No que tange à formação dos educadores, é solicitado que as propostas pedagógicas tragam uma reflexão acerca do perfil docente para a EJA, que abarquem a flexibilidade na organização do processo de trabalho. É assegurado um tempo coletivo da jornada semanal de trabalho para a formação continuada.
Sobre as práticas pedagógicas, a Resolução, quarto documento analisado, registra que a proposta pedagógica da escola deve abranger estratégias específicas para atendimento da diversidade etária que caracteriza o público da EJA, além de abranger os processos formativos desenvolvidos na família, na convivência humana, no trabalho, nos movimentos sociais, nas organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais e artísticas.
De acordo com Nunes e Cunha (2008), a Secretaria Municipal de Educação – SMED – tem debatido a EJA desde a implantação do Projeto Político-Pedagógico da Escola Plural em 1994. No ano de 2003, ocorreu uma redução do número de escolas que ofereciam vagas para jovens, adultos e idosos, fato justificado pela SMED, de acordo com os autores, em virtude de metade dos estudantes já ter concluído o curso e, sobretudo, pelo corte de gastos do município.
Segundo os dados publicados por Nunes e Cunha (2008), a PBH possuía, então, cerca de 200 escolas funcionando nos turnos da manhã e da tarde, atendendo crianças e adolescentes. Destas 200 escolas, aproximadamente 50 funcionavam no noturno ofertando EJA. Acrescenta-se a este número outras escolas que ofertavam o extinto Ensino Regular Noturno, com turmas fixas, que funcionavam com séries regulares em tempo equivalente a um ano (800 horas/ano e 200 dias letivos).