Como antecipado no item anterior, a política proibicionista em relação às drogas no Brasil teve uma origem bastante ligada à gestão da população negra. No mesmo sentido, a própria origem do poder policial surgiu para controlar essa mesma população, que cada vez mais se via livre circulando nos centros urbanos.
Nesse contexto, é importante mostrar como se desenvolveu o pensamento político- institucional dessa política de controle, em especial na questão jurídica. Para isso, escolheu-se três autores que foram fundamentais para a construção do pensamento racial brasileiro e sua relação com o Estado, de modo a construir uma genealogia desse pensamento. São eles o psiquiatra e político Nina Rodrigues (1862-1906), o jurista Oliveira Vianna (1883-1951), e o sociólogo (polímata) Gilberto Freyre (1900-1987).
Nina Rodrigues foi um importante expoente na “cientifização” da estrutura racista existente em sua época. Com forte influência da criminologia de Lombroso, a ciência de Nina Rodrigues confirmava a violência institucional e a segregação racial de seu tempo. Criava, inclusive, novos mecanismos de controle para o fim da escravidão. Nesse sentido, não buscava exatamente criar uma hierarquia de raças e instituir uma nova segregação racial no Brasil. Ele queria apenas dar um respaldo científico à segregação e inferiorização já existente nas instituições político-jurídicas (DUARTE, 2011, p. 592).
O trabalho de Nina Rodrigues consistiu basicamente em desarticular a subjetividade e a identidade dos indivíduos negros, tornando seu “sequestro” uma ferramenta dispensável. Nesse sentido, fez Nina Rodrigues a conciliação das ideias de indivíduo e de grupo social. Como alternativa a uma sociedade escravocrata, pensou o desenvolvimento de uma sociedade de mercado liberal em que os negros ocupavam posições de utilidade. Contudo, o controle do povo negro ainda existente deveria se dar pelo tratamento diferenciado a partir do controle penal. O modelo de Nina Rodrigues, nesse sentido, ao contrário do que pode parecer, não era contrário à política de embranquecimento do país. Sua filosofia não se opunha, mas complementava o pensamento majoritário de embranquecimento da nação. A mestiçagem continuava como uma tecnologia social de “desenvolvimento” da nação (DUARTE, 2011, p. 593-594).
No entanto, Nina Rodrigues manteve a noção de que havia a necessidade de uma elite burocrática branca para o gerenciamento das instituições. Como alternativa a uma sociedade teoricamente livre e igual, o que dizia ser uma invenção teórica do direito moderno, pretendia uma sociedade baseada em uma hierarquia racial.
A política científica inaugurada por Nina Rodrigues nunca se ateve ao mero reconhecimento da diversidade de nosso povo, mas direcionou-se para a administração e sujeição dessa diversidade. O primeiro direito que a ciência brasileira conferiu à intelectualidade e a branquitude brasileiras foi o direito ao espaço público, nele incluído o espaço do discurso jurídico (DUARTE, 2011, p. 507-508).
No entanto, a ciência que explicitamente segregava hierarquicamente as pessoas por raça perdeu espaço. Contudo, esse pensamento se manteve “disfarçado” nas ideologias legitimadoras do Estado brasileiro. Dentre os principais construtores dessa visão institucional de nação está Oliveira Vianna.
Oliveira Vianna foi um dos principais juristas brasileiros que acompanhou a ditadura de Getúlio Vargas. Também influenciou na legitimação da ditadura militar de 1964, a quem os golpistas frequentemente faziam referências. Tratou-se, portanto, de um teórico do autoritarismo, fortalecendo a ideia de necessidade de um poder elitista, conservador e centralizado. Nesse sentido, foi uma verdadeira força contrária ao pensamento liberal encabeçado por juristas como Ruy Barbosa. Alegava, ainda, ser impossível o Brasil ser liberal, justificando isso na falta de sentimento de nação particulares dos ingleses e dos alemães.
Justificava, portanto, que o país fosse governado por uma elite branca que conseguisse efetivar um Estado baseado em um racionalismo burocrático. Era um crítico do sufrágio universal, e defendia que, para uma verdadeira democracia, era preciso que apenas uma elite governasse. Do contrário, as classes “subalternas”, sem o espírito democrático, tornariam o país em verdadeira anarquia, ainda que pelo exercício do voto.
A respeito da explicação do porquê dessa diferença na capacidade do povo brasileiro realizar-se democraticamente, Oliveira Vianna busca uma explicação racial de um ponto de vista científico, indo na contramão de uma crescente análise culturalista de sociedade. O principal ponto é considerar que a proposta de Oliveira Vianna de mestiçagem é absolutamente racista. Pressupunha que a miscigenação era o mecanismo necessário para a aniquilação física e cultural dos negros.
Nesse ponto, era explícito no pensamento eugenista ao dizer que o sangue ariano, superior ao demais, acabaria por finalmente se sobrepor aos demais, de maneira que o negro passaria até mesmo a esquecer sua própria origem (VIANNA, 1991, p. 38). Somente assim poderia o Brasil poder desenvolver uma democracia liberal. Até lá, no entanto, cabia às classes dominantes exercer um poder centralizador a fim de que se evitasse um desenvolvimento anárquico, oriundo da condição inferior das populações negras e indígenas. Garantia que esse fenômeno se daria de forma natural, dependendo seu êxito de mera
evolução histórica, como produto da natureza. Nesse sentido, o governo se daria de forma autoritária a partir de uma elite branca, sem que o conflito racial se apresentasse como um perigo para o desenrolar das práticas institucionais.
Vianna apresentou um ideal civilizatório baseado no particularismo branco, na busca por um ideal nacional que tinha como objetivo ocultar o outro paulatinamente naquele universalismo particular. Para ele, isso consistia em dar uma oportunidade ao selvagem (índio) e ao bárbaro (negro) de construção de civilidade (DUARTE, 2011, p. 653).
Assim, num só golpe, Oliveira Vianna justificava a presença e a continuidade das oligarquias agrárias escravistas, sua apropriação do aparelho de Estado, sua ética patrimonialista como um produto do povo, da ausência de uma voz popular que, obviamente, tivesse os ditames adequados das raças evoluídas e das civilizações desenvolvidas, capaz de constituir a nacionalidade (DUARTE, 2011, p. 614).
Dessa forma, Oliveira Vianna não só se mostra bem próximo a Nina Rodrigues, como parece realmente dar continuidade e complemento ao seu pensamento. No entanto, enquanto Nina se preocupou mais em criar mecanismos de controle social das populações inferiores brasileiras a partir de um direito penal forte e diferenciador, Oliveira Vianna estava mais centrado na questão da organização institucional do Estado brasileiro (DUARTE, 2011, p. 640).
Neste ponto, é importante que se localize em que momento essa política racial e autoritária no Brasil deixou de ser explícita. Aí que entra Gilberto Freyre, com a consolidação do mito da democracia racial brasileira a partir de sua mais famosa obra Casa Grande e Senzala. Criou um novo modelo de representação nacional e deu a noção de um novo ethos brasileiro. Acabou por contribuir com a sedimentação de uma noção do negro enquanto um sujeito passivo, romantizado e sem voz, quase nunca sendo o responsável por sua própria história, e a quem foi destinatário de compaixão e adaptação (DUARTE, 2011, p. 665-667). Freyre propôs, portanto, uma nova dialética de senhor e de escravo. No lugar da violência e da brutalização da escravidão, cria-se um vínculo quase familiar, de devoção e de fidelidade, sempre ressaltando o açúcar como um instrumento de docilização e de adaptação do negro à civilização (DUARTE, 2011, p. 680).
Com Freyre, foi possível a criação de um paradigma teórico que se instaurou na classe intelectual brasileira e que se difundiu a ponto de caracterizar a própria noção de brasileiro. Seu pensamento acabou ocupando o vazio deixado pela geração anterior (Silvio Romero, Nina Rodrigues e Oliveira Vianna), que insistia em apontar os problemas do país,
substituindo-os agora por um encontro “agradável” e reconciliador com o passado, unidos brancos, índios e negros em uma história comum (DUARTE, 2011, p. 665).
Ana Flauzina (2006) utiliza o termo blindagem para explicar o efeito que o discurso da democracia racial gera sobre a compreensão acerca do racismo. Apesar de sua forte incidência e dos incontestes exemplos cotidianos e estatísticos, a negação ainda é a regra.
A democracia racial nos ensina que as imagens e as sensações que cercam o cotidiano do segmente negro são dados de um processo histórico a ser redimido. Impele-nos a agir com naturalidade diante da evidência de que há um recorte de fundo nas bases de todos os enclaves de exclusão no Brasil (FLAUZINA, 2006, p. 123).
Nesse sentido, a negação do racismo institucional passa necessariamente pela reafirmação do ideal de harmonia racial. A tentativa acaba sendo de considerar as práticas racistas como atitudes individuais e isoladas, nunca institucionalizadas. “A intenção subjacente é desvincular a imagem do institucional como espaço perpetuador do racismo” (FLAUZINA, 2006, p. 78).
Em poucas palavras, o mito da democracia racial contribuiu para rechaçar as teses de embranquecimento da nação e, ao mesmo tempo, tornar as políticas autoritárias e racistas de seus antecessores ainda mais invisíveis e efetivas123.