A análise dos desenhos busca, de acordo com Figueiredo (2018), em nota de orientação, a relação entre sentidos, percepções e significados e, desse modo, pretende-se buscar qual contribuição para as categorias da Práxis e do “ser mais”.
Figura 43 – Texto/desenho de uma das crianças (Azul-piscina). UD III (6º ano).
Fonte: acervo da pesquisa (2017).
Antes da análise dos desenhos, gostaríamos de enfatizar que, de acordo com Darido (2005), a Educação Física é alvo de críticas ao longo de sua história. A autora destaca que a mesma, em suas diferentes constituições – higienista, militaristas, esportivista, progressista –, reflete o contexto histórico e cultural de nossa sociedade.
Desse modo, pensamos que, devido ao contexto em que vivemos, buscamos avançar em nossas práticas refletidas dialogando com outras áreas de conhecimento e, por
isso, buscamos os desenhos, onde o educando pode expressar suas ideias, seus sentimentos, dando sentido e significado ao que faz e sente durante as práticas refletidas.
Gonzáles e Fensterseifer (2010, p. 12) nos mostram, como vimos anteriormente, que temos trabalhado com a noção de que a “Educação Física, tradicionalmente, pouco tem sido pensada dentro de um projeto educacional pautada pela ideia da ‘leitura do mundo’” e ainda acrescentam que “[...] diversos estudos em nossa área têm revelado que originalmente a EF entra na escola com o claro propósito de preparação do corpo e/ou, por meio do corpo, do caráter”.
Buscamos, portanto, uma leitura maior do mundo e de sociedade apontando, nas Unidades Didáticas, para uma visão mais dialética, subjetiva, que possa avançar para além dos aspectos higienista, militarista, esportivista, pautados em uma educação bancária de ensino em que o estudante reproduz e não pensa e, muito menos, reflete sobre si e o que faz.
Ao analisar o desenho anterior, observa-se que a criança desenvolve um movimento crítico-reflexivo. Na figura, onde ela está no centro, é como se ela estivesse se procurando, em seguida, ela aparece bem grande, pensando, refletindo sobre suas ações ou sobre como agir nos planos, mais acima, ela já aparece apontando para uma direção e, por último, agindo.
Acredita-se que a criança passou por um processo de reflexão. Práxis (ação- reflexão-ação), pela compreensão que tem do corpo em ação, avançando, neste sentido, para a perspectiva do “ser mais”. Freire (2011) nos coloca, em Pedagogia da Autonomia, que o inacabamento do ser ou a sua inconclusão é próprio do ser humano, mas somente entre os homens e as mulheres o inacabamento se tornou consciente; neste sentido, vemos a criança em sua ação-reflexão-ação, numa busca permanente de compreender as suas ações, no desenho que reflete seu pensamento e suas ações, nesta busca inquietante de ser mais no mundo e com o mundo.
Figura 44 – Texto/desenho de uma das crianças (Azul). UD III (6º ano).
Fonte: acervo da pesquisa (2017).
O desenho acima, da figura 44, nos remete a uma perspectiva mais dialética surgida no saber parceiro, em que um aprende com o outro na integração das crianças para produção de novos aprendizados. Na parte inferior do desenho, observa-se uma relação de liderança e de autonomia, em que uma criança, em um plano maior, comanda uma situação como se estivesse direcionando as demais crianças, contribuindo para a amorosidade, o diálogo. No plano superior, observamos esta dimensão mais dialética em comunhão com a natureza, o sol, o céu, que fazem parte dos cenários das brincadeiras e, neste momento, todos interagem igualmente.
Poderíamos dizer que houve um processo de mudança, onde existiu uma crítica reflexiva antes, de orientação, e, em seguida, uma ação. Caracterizando-se, assim, a mudança e a transformação do plano da organização, do juntar para o agir, interagir em uma dimensão dialética com e no mundo. E, para isso, trazemos Freire (2011, p. 51):
liberação das mãos. Mãos que em alguma medida nos fizeram. Quanto maior se foi tornando a solidariedade entre mente e mãos, tanto mais o suporte foi virando foi virando mundo e a vida existência. O suporte veio fazendo-se mundo e a vida,
existência, na proporção que o corpo humano vira corpo consciente, captador,
apreendedor, transformador, criador de beleza e não ‘espaço’ vazio a ser enchido por conteúdos.
Acreditamos que estas crianças estão em seus corpos conscientes, abrindo-se para novas possibilidades, aprendendo umas com as outras através de uma prática refletida que busca um corpo consciente de sua vida – de si mesmo, de sua existência no mundo, onde aprende e transforma a si, ao seu meio e ao seu aprendizado.
Figura 45 – Texto/desenho de uma das crianças (Laranja). UD III (6º ano).
Fonte: acervo da pesquisa (2017).
Aparece aí uma práxis corporal visível. A criança pensa, reflete, o corpo está tenso inseguro, expressando a fala do balão, que se mostra como uma afirmação, mas o corpo parece perguntar “será que eu consigo?”. Ela faz um processo aproximativo do que realmente deseja, realiza a estrelinha e, finalmente, ao encher-se de segurança da sua capacidade de “ser mais”, faz o “mortal” tão desejado. Observamos, na análise dos textos, que a criança diz que
vai conseguir fazer o mortal na aula seguinte e este desejo, no entanto, é realizado a partir do desenho. Caracterizando-o como uma Práxis ação-reflexão-ação na perspectiva do “ser mais”
Este é, portanto, em nosso entendimento, o saber, nesta práxis reflexiva que conduz ao “ser mais”, que produz uma postura de ação transformadora de si e, quiçá, do mundo. Um saber molhado de autonomia, criticidade, de liberdade e de ação, fruto de uma ação tecida no interior de uma criança em busca do “ser mais” no mundo.
O “ser mais” se manifesta no que Freire (2005, 2011) chama de ação transformadora de sua realidade, pois, para ser válida, a educação precisa levar em conta a vocação ontológica do homem de “ser mais”, vocação de ser o sujeito de sua história.
4.4 Quadros de análise das Unidades Didáticas
Nos quadros a seguir, apresentamos os trechos das falas das crianças no material produzido nas aulas, em todas as Unidades Didáticas. Observamos que as crianças estão apresentadas com o codinome de cores e que, quando não conseguimos identificar o que a criança estava querendo dizer, expressamos a fala através de vários x juntos, como, por exemplo: “O nosso momento de escolhe a atividade foi legal, mas xxxxx”.
Quadro 2 – Análise da Unidade Didática I. Tema: Busca do conteúdo programático.
SUJEITOS TRECHO DA FALA CATEGORIAS INTERPRETAÇÃO
LARANJA O nosso momento de escolher as atividades foi legal, eu escolhi o handebol porque é uma atividade legal que mexe o corpo, de refletir quando você pegar [...] Eu me senti feliz e alegre.
“Ser mais” Autonomia ao escolher.
Dialogicidade Diálogo no momento de escolher, reflexão, atividade, e uma compreensão dessa atividade em relação ao corpo que se faz como corpo.
Práxis PINK Meu relaxamento foi muito bom, teve
muito barulho, mas eu gostei, meu relaxamento, eu estava quase dormindo, mas eu consegui relaxar os braços, pés, tornozelo, cabelo, os ombros, só, eu estava voando.
Práxis Reflexão, consciência do corpo no momento da ação, isto é, de relaxar.
VERMELHO Nessa aula, a professora começou um votação entre handebol e atletismo, bom, eu queria handebol, mas a maioria dos votos foram para o atletismo fazer o quê, né?!
Dialogicidade No diálogo proferido na aula houve um processo democrático em que foi problematizada a questão da escolha da temática. Problematização
Saber parceiro Aprender uns com os outros na construção de novos saberes. CINZA Foi muito legal, todos nós brincamos,
totalmente [...] educação Física é 10, relaxamento e ginástica.
Amorosidade Expressa sentimento de prazer e gosto pelo brincar nas aulas. AZUL Eu entendi que os jogos não têm só pra Práxis Refletir buscando, consciência