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maior da prática dessas entidades, muitas das quais abriam escolas noturnas. Além de denunciar o “preconceito” e incentivar a comunidade a se unir para lutar contra ele, os periódicos da imprensa negra se propunham e cumpriam, eles mesmos, um papel educativo.

Com a finalidade de destacar a imprensa negra paulista do início do século XX, veja-se uma lista de nomes de jornais que dão a ideia de quão produtivo foi esse período para a imprensa negra no interior e na capital desse estado:

O Bandeirante (1910), A União (1918), A Protectora (1919), O Getulino ( 1919), Escravos (1935), O Patrocínio (1925), O Menelike (1915), O Alfinete (1918), A Liberdade (1919), O Kosmos (1924), O Elite (1924), O Auriverde (1928), O Clarim (1923), que se tornou depois O Clarim d’ Alvorada (NASCIMENTO, 2003,p.226).

Com base nas informações apresentadas acima, pode-se inferir que há uma ampliação acentuada de publicações da imprensa negra, pois, se Pinto (2010) arrola oito jornais publicados pelo país (ainda que possam ter existido mais), Nascimento (2003) especifica um rol de 13 impressos, somente no Estado de São Paulo. Constata- se desta maneira que o incremento da produção da imprensa negra vem a corroborar registros e manifestações da memória coletiva em prol de uma proposta educativa por intermédio do aumento das organizações negras.

Esses periódicos publicados nas primeiras décadas do século passado antecederam o jornal Quilombo, periódico do TEN, e foram importantes para a difusão das experiências dos negros e da luta contra a discriminação racial.

3.2. O jornal Quilombo

O jornal Quilombo, órgão oficial do TEN, circulou na cidade do Rio de Janeiro, entre dezembro de 1948 e julho de 1950, sob a direção de Abdias do Nascimento, tendo como subtítulo “Vida, Problemas e Aspirações do Negro”. Registre-se que em todos os seus números foi exibido o programa do Quilombo, transcrito integralmente a seguir, porque os pontos nele incluídos justificam a relação do jornal com a formação do negro:

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NOSSO PROGRAMA

Trabalhar pela valorização e valoração do negro brasileiro em todos os setores: social, cultural, educacional, político, econômico e artístico. Para atingir esses objetivos QUILOMBO, propõe-se:

1. Colaborar na formação da consciência de que não existem raças superiores e nem servidão natural, conforme nos ensina a teologia, a filosofia e a ciência;

2. Esclarecer ao negro que a escravidão significa um fenômeno histórico completamente superado, não devendo, por isso, constituir motivo para ódios ou ressentimentos e nem para inibições motivadas pela côr da epiderme que lhe recorda sempre o passado ignominioso;

3. Lutar para que, enquanto não for tornado gratuito o ensino em todos os graus, sejam admitidos estudantes negros, como pensionistas do Estado, em todos os estabelecimentos particulares e oficiais de ensino secundário e superior do país, inclusive nos estabelecimentos militares; 4. Combater os preconceitos de côr e de raça e as discriminações que por esses motivos se praticam, atentando contra a civilização cristã, as leis e a nossa constituição;

5. Pleitear para que seja previsto e definido o crime de discriminação racial e de côr em nossos códigos, tal como se fez em alguns estados da Norte- América e na Constituição Cubana de 1940 (NASCIMENTO, 2003, p. 253).

Esse programa deixa claro a preocupação do Quilombo com a formação do negro através da educação, pois apresenta em seus pontos a importância do ensino, da consciência, da autovalorização para transformação do negro através de integração a uma sociedade onde é marginalizado e que só pode ser transformada a seu favor através da educação.

Ao longo do curto período de dois anos, o jornal Quilombo divulgou os feitos do TEN e promoveu debates sobre as relações raciais, com participação de intelectuais da época, mediante a publicação de artigos originais de Arthur Ramos, Gilberto Freyre, Di Cavalcanti, Murilo Mendes, Roger Bastide, Raquel de Queiroz, Nelson Rodrigues, entre outros.

Visando descortinar o projeto educacional do Quilombo, procuramos analisar as dez edições do jornal, uma a uma, objetivando, ao final, fazer uma síntese articulada de conjunto de todas elas.

Número 1. No primeiro número do jornal, de 9 de dezembro de 1948, Abdias Nascimento apresenta em seu editorial uma reflexão acerca dos verdadeiros objetivos do Quilombo, em defende que o foco principal é a formação do negro: “Porém a luta

47 de QUILOMBO não é especificamente contra os que negam os nossos direitos, sinão em especial para fazer lembrar ou conhecer ao próprio negro os seus direitos a vida e a cultura” (QUILOMBO, p.19, 2003). Vê-se aí uma preocupação com a formação dos negros no sentido de reconhecimento do seu valor e direito.

Uma das principais tônicas do jornal também focaliza as diferenças raciais provocadas pelo racismo contra o negro que se revelam na forma de exclusão do negro em determinados espaços sociais, como aparece em artigo assinado por Raquel de Queiroz denominado “Linha de Cor” (QUILOMBO, 2003, p.20), no qual a escritora pontua a existência do preconceito no Brasil, contrapondo-se a um escritor que afirma não existir esse problema. Destacam-se no referido artigo fragmentos sobre o preconceito em espaços escolares:

“E que os colégios grã-finos não aceitam alunos ou alunas de côr?”

“Recorda o caso denunciado pela minha cara amiga e grande escritora Lia Correia Dutra, a respeito de dois alunos seus que não foram admitidos em certa escola oficial – porque eram mulatos?”.

“E por falar em escolas, sabe, o meu distinto confrade, que a Fundação Rio Branco, escola de preparação de rapazes para a carreira diplomática, igualmente recusa alunos de cor?”(QUILOMBO, 2003, p.20)

Na página 4 do jornal também se encontra uma discussão sobre educação escolar em artigo assinada por Haroldo Costa, apresentado como ex-vice-presidente da Associação Metropolitana de Estudantes Secundários, denominado “Queremos Estudar”. Costa reflete sobre a ausência dos negros nos espaços escolares, problematizando que a questão não está somente relacionada a problemas econômicos e que parte dessas escolas pertencem à igreja:

É comum, quando se diz que em determinados educandários não é permitido ao jovem de cor se matricular, surgirem os acomodados dizendo enfaticamente: “ – A questão é simplesmente econômica. Se o negro tiver dinheiro poderá estudar onde aprouver”. No entanto a questão verdadeiramente não se reduz a isto. Aí está o colégio Notre Dame de Sion, que não aceita alunas negras, mesmo que elas se sujeitem a pagar as pesadas mensalidades. No mesmo caso se encontram os colégios Andrews Benett, Santo Inácio, N.S de Lourdes e tantos outros, para citar apenas estabelecimentos secundários. O mais estranhável é que determinados educandários dirigidos por padres católicos e freiras também se destaquem

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nessa frente constituída para impedir a formação intelectual da gente de cor (QUILOMBO, 2003, p.22).

No mesmo artigo, Costa também discutiu o problema da exclusão do negro no ensino em instituições oficiais e militares, discorrendo sobre a dificuldade dos negros em ingressar no Instituto Rio Branco e nas escolas de oficiais militares.

Ainda na mesma página, aparece matéria sobre a Escola de samba “Sem Você eu Vivo Bem”, cujo presidente Rodrigues Alves cogita em criar aulas de alfabetização no âmbito da associação, iniciativa enaltecida pelo jornal:

O programa de Rodrigues Alves precisa ser executado apesar das dificuldades inerentes a realizações dessa natureza. Os poderes públicos, a Secretaria de Educação da Prefeitura deviam colaborar na iniciativa dessa Escola de Samba. Mas desde que não o façam, o Rodrigues Alves não deve esmorecer. Seu trabalho ficará como um exemplo a ser seguido pelas demais escolas de samba que mantendo também um curso de alfabetização só estarão aumentando seu credito diante do publico e aos olhos do governo (QUILOMBO, 2003, p.22).

Estes artigos sobre educação escolar mostram que as relações da educação formal do negro nas matérias do jornal Quilombo eram de certo distanciamento em relação ao ensino público, haja vista que as matérias que retrataram tal assunto não abordaram as relações de educação formal pungentes neste período.

Sobre a educação e a formação do negro, a primeira edição de Quilombo relata também a história do TEN, valorizando as suas iniciativas tanto na educação através da alfabetização de adultos, quanto as da dramaturgia.

É Iiportante observar que no número inicial do Quilombo, as demais matérias procuram enfatizar a valorização da cultura negra através das manifestações culturais, nas formas de arte e religião e do enaltecimento de sujeitos negros em suas áreas de atuação, como as matérias sobre os escritores Lima Barreto e Cruz e Souza (p.2 e 3); a poesia negra, na análise de Efrain Tomás Bó (p. 5); a valorização religiosa, no artigo “Como se desenrola uma festa de Candomblé”, assinado por Edson Carneiro (p. 4 e 5); a orquestra Afro-brasileira e seu destaque na musica (p. 6); assim como o destaque dado ao cantor e radialista Blackout (p. 6) e à atriz Ruth de Souza (p.6).

49 Na página 8 encontra-se uma coluna permanente, cujo nome é “Fala a Mulher”, assinada por Maria Nascimento, uma das principais colaboradoras do TEN , que em todas as edições do Quilombo está presente, dando voz às mulheres negras. Na matéria deste primeiro número do jornal, que recebe o título de “Crianças Racistas”, vale destacar um trecho em que Nascimento convida as mulheres para escrever para a sua coluna: “Solicito a minhas amigas que me escrevam. Sem se importar com os erros de gramática, que isto aqui não é Academia de Letras e sim uma tribuna democrática para a discussão de ideias e problemas nossos” (QUILOMBO,2003, p.26).

Vê-se nessa chamada proferida por Nascimento o perfil ao qual é destinada essa parte do jornal, direcionada a mulheres que de uma forma ou de outra estão inseridas no mundo da escrita e da leitura, logo, com alguma formação educacional.

A primeira edição do jornal teve 8 páginas.

Número 2. O segundo número do jornal, de 9 maio de 1949, ressalta o heroísmo negro em relação à luta pela abolição, evocada por Abdias Nascimento no editorial que lembra as ações de Luiz Gama, um ícone negro abolicionista. Destaca-se o seu espírito guerreiro por liberdade, assim como de outros sujeitos que igualmente lutaram contra a escravidão, estabelece-se uma ponte entre aquela luta e a da época, salientando formas perversas e subreptícias de subjugação da população negra:

Pela permanência desse sentimento de liberdade e dignidade nos nossos negros encaminhamos nossa luta e nos colocamos contra aqueles que ainda hoje conservam o escravagismo psicológico e procuram impedi-los de ocupar o lugar que moral e humanamente lhes corresponde no seio da sociedade brasileira (QUILOMBO, 2003, p.27).

Essa ponderação reflete o potencial do jornal, no aspecto de o seu caráter educativo procurar ter um caráter formativo para o negro, que precisa reconhecer o seu valor a partir de suas referências históricas.

A exemplo do primeiro número do jornal, este dá amplo destaque à importância da contribuição cultural do negro em relação a manifestações culturais como o teatro e o cinema, além de promover o debate político a respeito da participação negra e da sua dignidade até então negada.

50 Entretanto, não foram encontradas nas oito paginas desse número matérias que se relacionassem mais diretamente à educação, motivo da presente pesquisa.

Número 3. Na edição de número, de junho de 1949, na página 2 encontra-se uma seção intitulada “Sociais” que apresenta matéria sobre a Sociedade Recreativa Floresta Aurora, entidade negra de Porto Alegre. Transcreve-se a fala de seu representante, Heitor Nunes Fraga, no subtítulo “O negro gaúcho quer estudar e progredir”, que destaca a necessidade de formação escolar dos negros gaúchos:

– A sociedade que tenho a honra de, neste momento, representar, – iniciou o snr Heitor Nunes Fraga – atravessa atualmente uma fase de grandes empreendimentos, o que aliás, vem se fazendo sentir desde algumas administrações passadas. Seu quadro social congrega elevado numero de homens de cor e suas respectivas famílias todos procurando, harmoniosamente, trabalhar pelo melhoramento do nível cultural de nossa gente. A Floresta Aurora, consciente do seu papel, procurou e procura sempre viver em boas relações com as sociedades co-irmãs. Sempre entendeu suas diretorias que somente com a aproximação e restabelecimentos de fortes vínculos entre os homens de cor, poderemos ver frutificados nossos ideais de progresso e valorização. O esclarecimento, a inteligência e a cultura de uns aliada à solidariedade, ao estimulo e esforço de outros, conseguirão os frutos desejados. Convem destacar – e isso faço com satisfação – que o negro de Porto Alegre está sendo atacado de uma sede de elevação cultural que muito nos anima. Não é muito raro encontrar- se jovens pretos cursando as escolas superiores. E isso é indicio muito significativo, uma recomendação para os negros da cidade (QUILOMBO, 2003, p.36).

Esse posicionamento do representante da Sociedade Recreativa Floresta Aurora, do Rio Grande do Sul, contribui para uma ideia recorrente no jornal Quilombo que é a de conceber o progresso dos negros através da sua formação cultural e intelectual, adquirida pela formação escolar e do reconhecimento da possibilidade que ela oferece como forma de mobilidade social.

Na página 5 do jornal, em matéria intitulada “1º Congresso do Negro Brasileiro de 1949”, o jornal apresenta o temário aprovado na Conferência Nacional do Negro, que se desenrolou entre os dias 9e 13 de maio de 1949, sob a coordenação de Abdias Nascimento, Guerreiro Ramos e Edson Carneiro, cuja chamada tinha como proposta preparar o referido Congresso, dando as bases para os temas que seriam discutidos:

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A Conferência Nacional do Negro convida os escritores, os historiadores, os antropólogos, os folcloristas, os musicistas, os sociólogos e os intelectuais em geral a prestigiar, com a sua colaboração, a realização do Congresso, e pede a cooperação de negros e mulatos, homens do povo, para que o Congresso possa ser representativo das aspirações e tendências gerais da população de cor (QUILOMBO, 2003, p.39).

O temário do 1º Congresso do Negro foi aprovado no encerramento da Conferência Nacional do Negro, no dia 13 de maio, e ficou dividido nos seguintes temas:

– “História”, que contemplaria as referencias históricas da presença negra no Brasil desde a escravidão, a formação de quilombos, as lutas por abolição, a participação do negro nas lutas em defesa do Brasil e os sujeitos históricos negros;

– “Vida Social”, que congregaria temas as “condições gerais de vida da população de cor”;

– “Sobrevivências Religiosas”, que reuniria trabalhos sobre as religiões de matiz africana na sua forma espiritual e cultural;

– “Sobrevivências Folclóricas”, que englobaria as referências da cultura popular construídas pelos negros;

– “Línguas”, em que se discutiria a contribuição das línguas trazidas pelos negros para o português do Brasil; e o ultimo tema.

– “Estética”, em que se abordaria a relação do negro com as artes e a filosofia.

Segundo o jornal, esses temas mostrariam um avanço nos estudos sobre o negro no Brasil, pois permitiriam uma inserção profícua no debate sobre a presença negra no país.

Nas páginas 6 e 7, o Quilombo apresenta um panorama da Conferência Nacional do Negro e oferece um resumo dos debates e discussões por ela levantadas.

Na página 11, o jornal apresenta o discurso de abertura da Conferência Nacional, no qual Abdias traça a história do TEN e focaliza principalmente a característica formativa do coletivo, para além da atividade teatral. No discurso, intitulado “Espirito e Fisionomia do Teatro Experimental do Negro”, afirma:

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O Teatro Experimental do Negro não é, apesar do nome, apenas uma entidade de objetivos artísticos. A necessidade da fundação deste movimento foi inspirada pelo imperativo da organização social da gente de cor, tendo em vista a elevação de seu nível cultural e seus valores individuais. Entretanto, o espírito associativo é atributo da massa esclarecida e de elevado padrão cultural. Daí ser quase impossível, como se pode depreender da observação da vida brasileira, associar homens e mulheres em função, apenas, de objetivos sociais (QUILOMBO, 2003, p.45).

A última página do terceiro número do Quilombo é dedicada a uma coluna social voltada para o concurso “Rainha das Mulatas” e “Boneca de Piche”, que segundo os seus organizadores é uma forma de elevação das mulheres negras, Pela qual “as garotas bonitas, côr de canela ou de jaboticaba madura, terão assim uma oportunidade única de mostrar seus dotes de beleza, elegância, “charme” e distinção social” (QUILOMBO, 2003, p.46).

Número 4. O Quilombo de número quatro, de julho de 1949, foi o mais voltado para as questões políticas e culturais de valorização dos negros, apresentando referências a ícones negros na poesia, como o poeta Solano Trindade (QUILOMBO, 2003, p.46); na música, como o musico Padre José Mauricio (QUILOMBO, 2003, p.47); e no cinema, onde homenageia-se a atriz Ruth de Souza (QUILOMBO, 2003, p.47).

Na coluna “Fala a Mulher”, Maria Nascimento faz uma reflexão sobre o Congresso Nacional de Mulheres, em matéria intitulada “O Congresso Nacional de Mulheres e a regulamentação do trabalho doméstico” (QUILOMBO, 2003, p.47). Ela enfatiza a importância do Congresso:

Merece toda atenção as resoluções votadas em maio ultimo pelas mulheres do Brasil inteiro que aqui se reuniram em congresso nacional. Todos os itens abordados pelas congressistas são de importância básica para a existência, a felicidade e o progresso da mulher, e, consequentemente do povo brasileiro da qual ela é mãe dedicada e sacrificada...).

É inacreditável que numa época em que tanto se fala em justiça social possa existir milhares de trabalhadoras como as empregadas domésticas, sem horário de entrar e sair no serviço, sem amparo na doença e na velhice, sem proteção no período de gestação e post-parto sem maternidade, sem creche

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para abrigar seus filhos durante as horas de trabalho QUILOMBO, 2003, p.47

Nascimento também reflete sobre como as mulheres negras estão reagindo contra a opressão que historicamente sofrem. Em suas palavras:

Acontece porém, que a mulher negra está abrindo os olhos. Durante a escravidão e mesmo agora na Republica, ela existiu passiva, amamentando “sinhosinhos” e aos filhos do “seu dotô”. Subjugada diminuída, refugiava- se na sua doçura e mansidão natural, sem armas para lutar e resistir aos mais vis assaltos a sua honra e dignidade pessoal. Felizmente esse tempo está passando. Empregada doméstica funcionaria pública, comerciária, industriária, médica, advogada ou mãe de família, a mulher negra está aprendendo a andar de cabeça erguida e impor a sua personalidade (QUILOMBO, 2003, p.47).

Nas frases de Nascimento, percebe-se que há uma transformação nas vidas das mulheres, ocasionada pela inserção no mercado de trabalho, e que isso decorre da formação pela educação, que faz com que elas ocupem vários postos na sociedade.

Na página 4, encontra-se uma matéria sobre o lançamento de uma revista voltada para a cultura afro-brasileira, publicada em Porto Alegre, mostrando que as informações sobre o negro estão se difundindo, o que sugere uma relação de formação pela educação, a partir da língua escrita. Intitulada de “Letras –uma revista Afro- Brasileira”, a matéria refere-se a esse empreendimento, onde se lê:

A fundação do “Centro Literário de Estudos Afro-Brasileiros” em janeiro deste ano em Porto Alegre, é por si só motivo de satisfação entre negros e brancos interessados no conhecimento da cultura que os prêtos trouxeram da África para o Brasil. Partindo dêsse conhecimento vem a compreensão do Homem Negro e de seus problemas, base de onde se assenta um trabalho objeto, sincero e patriótico para o melhoramento das condições sociais desfrutadas pelo grupo mais pigmentado da nossa etnia. Centros com essa finalidade deveriam se multiplicar por todas as cidades brasileiras, levando até aos nossos mais humildes pretos das vilas e fazendas o esclarecimento indispensável á sua evolução e progresso (QUILOMBO,2003, p.50).

Nesta citação outra vez se desdobra o tema da necessidade da formação para o negro, visando o seu progresso e melhoria de vida.

54 À pagina 7. em matéria assinada por Guerreiro Ramos intitulada “Uma experiência de grupoterapia”, e publicada em em uma seção denominada “Arquivo”, o sociólogo reflete sobre a Conferência Nacional do Negro, enaltecendo os objetivos do TEN em sua empreitada para formação dos negros:

Muitos resultados serão colhidos deste certame de construtiva influência na vida brasileira. Nesta oportunidade porém, desejo assinalar apenas um aspecto, que julgo de capital importância e que caracteriza o movimento do Teatro Experimental do Negro como uma das iniciativas de maior gravidade e profundidade na vida cultural do país.

Com efeito, quem se der ao trabalho de ler o discurso com o qual o Sr Abdias Nascimento, instalou aquele conclave verificará que o conhecido líder descobriu uma pista jamais suspeitada entre nós, ou seja, o de pelo teatro adestrar o homem de côr nos estilos de comportamento de classe média e superior. Retoma assim este negro a significação original do teatro como processo catártico, numa poderosa intuição artística e sociológica. (QUILOMBO,2003, p.53).

Na página 11, a matéria “ Uma Artista Negra” fala sobre “a pintora Cleoo Novarro, brasileira educada na África – expôs na Europa e vai aos Estados Unidos retratar Ralph Bunche”, como explica o subtítulo. Nesta entrevista ao Quilombo, a referida artista, perguntada sobre racismo, dá uma resposta que é muito semelhante à visão

Belgede HALK SAĞLIĞI ANABİLİM DALI (sayfa 75-86)

Benzer Belgeler