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2.2.2.1 Levin e Rappaport-Hovav (1995)

O trabalho de Levin e Rappaport-Hovav (1995), utilizando a alternância causativa como um instrumento de análise para a inacusatividade15, apresenta uma proposta sobre as propriedades dos verbos alternantes, especialmente sua diátese básica ou representação semântico-lexical e os elementos de significado que os separam dos verbos não alternantes.

Em primeiro lugar, Levin e Rappaport-Hovav adotam uma análise causativa para os verbos alternantes, assumindo a representação transitiva como básica. Em outras palavras, elas assumem que os verbos alternantes possuem uma única representação semântico-lexical, a causativa, mas podem se associar a duas estruturas argumentais diferentes: uma estrutura argumental transitiva, básica, que permite a expressão do argumento causador, e outra intransitiva, derivada, em que houve a vinculação prévia do argumento causador na representação semântico-lexical. Para sustentar sua análise

15 Segundo a Hipótese Inacusativa (Perlmutter e Rosen, 1984), os verbos intransitivos são divididos em duas subclasses, segundo propriedades sintáticas: os inergativos, com sujeito em estrutura profunda, como correr; e os inacusativos, cujo sujeito é superficial, como começar. Ambos aparecem numa forma sintática intransitiva, mas apenas aqueles com características de inacusatividade alternam com a forma transitiva, ou, em termos semânticos, causativa. Levin e Rappaport-Hovav utilizam a alternância causativa como diagnóstico de inacusatividade.

da representação causativa para os verbos alternantes, as autoras utilizam diversos argumentos, com base nas restrições selecionais dos verbos analisados e na proposta de Chierchia (1989)16 sobre o comportamento instável dos verbos inacusativos.

Tendo estabelecido a divisão de que verbos alternantes como quebrar possuem uma representação semântico-lexical diádica, ou seja, transitiva, e verbos não alternantes como sorrir possuem representação semântico-lexical monádica, ou seja, intransitiva, Levin e Rappaport-Hovav passam a explicar por que nem todo verbo alterna. Para isso, elas introduzem a distinção entre “eventos internamente causados” e “eventos externamente causados”. Os primeiros são aqueles em que uma propriedade inerente do argumento do verbo é responsável pela realização do evento. Por exemplo, para o verbo falar, essa propriedade seria a volição do agente. Para o verbo corar, essa propriedade seria alguma reação emocional, uma propriedade interna do participante do verbo. Esses verbos, chamados abreviadamente de internamente causados, não participam da alternância causativa e possuem uma representação semântico-lexical basicamente intransitiva, explicitada pelas autoras da seguinte maneira:

(16) [X PREDICATE]

Portanto, segundo as autoras, a noção de evento internamente causado explica por que nem todo verbo que denota uma afetação, como corar ou enrubescer, alterna, mostrando que a propriedade de afetação não é por si só suficiente para explicar a alternância.

Já os verbos que descrevem eventos externamente causados são aqueles cujo sentido implica na existência de uma causa externa responsável pela realização do evento. Essa causa externa pode ser um agente, um instrumento, uma força natural ou uma circunstância (ou evento). Esses verbos participam da alternância causativa e possuem representação semântico-lexical basicamente transitiva, explicitada pelas autoras da seguinte maneira:

(17) [[X DO-SOMETHING] CAUSE [Y BECOME STATE]]

A estrutura inteira representa a contraparte causativa dos verbos alternantes e a estrutura encaixada, [Y BECOME STATE], representa a contraparte incoativa desses verbos. DO-SOMETHING, CAUSE e BECOME são predicados primitivos e X e Y são os argumentos de cada um desses predicados, o “agente” e o “paciente” respectivamente. Até o momento, segundo a análise de Levin e Rappaport-Hovav, todo verbo que denota um evento externamente causado apresenta a forma transitiva como básica e pode, em tese, participar da alternância causativa. Entretanto, nem todos os verbos classificados como externamente causados alternam, ou seja, nem todos apresentam a forma intransitiva da alternância, codificada pela construção incoativa:

(18) a. The baker cut the bread. 17 ‘O padeiro cortou o pão.’ b. * The bread cut.

‘*O pão cortou.’

(19) a. The assassin murdered the senator.

‘O assassino/homicida assassinou o senador.’ b. * The senator murdered.

‘*O senador assassinou.’

Para abordar essa questão, as autoras se apoiam no trabalho de Smith (1970) e observam que verbos causativos alternantes são verbos cujas descrições de evento podem ocorrer sem a intervenção direta de um agente volitivo. Segundo as autoras, a intervenção de um agente volitivo em um evento externamente causado impede que a causa externa seja vinculada lexicalmente, impossibilitando a expressão do verbo em uma construção incoativa. Como evidência, as autoras apontam o fato de que verbos

estritamente agentivos, ou seja, que requerem um agente necessariamente, nunca aparecem na construção incoativa:

(20) a. Pat wrote a letter to the editor of the local newspaper. 18 ‘Pat escreveu uma carta para o editor do jornal local.’

b. *My anger wrote a letter to the editor of the local newspaper. ‘Minha raiva escreveu uma carta para o editor do jornal local.’

Levin e Rappaport-Hovav refinam essa restrição explicando que a causa externa de um verbo causativo pode deixar de ser expressa na sintaxe, dando origem a uma construção intransitiva incoativa, apenas se a natureza do subevento causador não é lexicalmente especificada. Esse é o caso de break, que, como mostra o exemplo abaixo, não apresenta especificação lexical para o subevento causador:

(21) The vandals/the rocks/the storm broke the windows.19 ‘Os vândalos/as pedras/a tempestade quebrou as janelas.’

Por fim, a alternância causativa, ou seja, a possibilidade de um verbo basicamente causativo transitivo aparecer numa construção intransitiva incoativa, é explicada pelas autoras da seguinte maneira: “a forma intransitiva de verbos externamente causados emerge da vinculação da causa externa dentro da representação semântico-lexical dos verbos”20. Essa vinculação só ocorre se o verbo não especifica a natureza da causa externa e se realiza através do mapeamento da representação semântico-lexical na estrutura argumental, do modo como mostra o esquema abaixo, proposto pelas autoras:

18 Exemplos de Levin e Rappaport-Hovav, 1995, p. 102-103, (46 a, b). 19 Exemplo de Levin e Rappaport-Hovav, 1995, p. 102-103, (48).

(22) Intransitive break

LSR [[X DO-SOMETHING] CAUSE [Y BECOME STATE]]

Lexical binding Ø

Linking rules ↓ Argument structure <y>

(23) Transitive break

LSR [[X DO-SOMETHING] CAUSE [Y BECOME STATE]] Linking rules ↓ ↓

Argument structure x <y>

Trata-se, portanto, de uma regra lexical, chamada lexical binding (ou, vinculação lexical) que, sob determinadas restrições semânticas, dá origem ao break intransitivo.

2.2.2.2 Conclusões

Levin e Rappaport-Hovav apresentam uma proposta mais completa para o tratamento da alternância causativa, pois não apenas descrevem as propriedades semânticas envolvidas na alternância, mas também explicitam o mecanismo que permite que um verbo causativo apareça numa construção incoativa. A utilização da linguagem de decomposição dos sentidos dos verbos em predicados primitivos também significa um avanço em relação às propostas que utilizam papéis temáticos, porque permitem derivar os papéis temáticos dos argumentos de um verbo sem que seja necessário dar definições para conceitos como agente, paciente, etc. Por exemplo, o argumento de uma função BECOME terá sempre o sentido de mudança associado ao seu papel no evento descrito pelo verbo, não importando se esse papel for rotulado de paciente, afetado, etc. Por outro lado, Levin e Rappaport-Hovav também utilizam uma análise lexical derivacional, assumindo a forma causativa do verbo como a mais

“básica”. Essa é uma opção analítica que será evitada nesta tese, não apenas porque parte de uma hipótese pouco interessante do ponto de vista da aquisição da língua, mas também porque, como mostrado no capítulo 1, há indícios de que as construções aqui estudadas são independentes, dispensando uma análise derivacional.

A explicação de Levin e Rappaport-Hovav para a alternância causativa contribui para esta pesquisa da seguinte maneira: a construção incoativa expressa uma conceptualização de evento que não envolve a intervenção direta de um agente. Em outras palavras, seria o que Haspelmath (1987) afirma ao dizer que em construções incoativas, o processo ou evento é apresentado como que ocorrendo espontaneamente. Sendo assim, em hipótese, apenas descrições de eventos que podem ser conceptualizadas como que ocorrendo sem a intervenção de um agente seriam compatíveis com a construção incoativa. Essa observação será útil para o estudo do significado da construção incoativa neste trabalho.

Por fim, a decomposição do significado dos verbos em predicados primitivos é uma ferramenta que também será incorporada nesta pesquisa, pois oferece um modo de se estudar os sentidos verbais compatíveis com a construção e até a semântica da própria construção. Entretanto, da maneira como se apresentam em Levin e Rappaport- Hovav (1995), essas representações semânticas não permitem precisar o significado de várias outras classes de verbos. Apenas em estudos posteriores, com a adoção da noção de raiz, é que essas representações semânticas são aprimoradas.

Benzer Belgeler