• Sonuç bulunamadı

A constituição de uma cultura comum, ou seja, de um habitus para a enfermeira, implica admitir que, num determinado momento, indivíduos com trajetórias pessoais e sociais diferenciadas encontram-se num determinado locus do mundo social, no caso, o subcampo da ESF, e constroem para si uma forma própria de ser e de ser percebido. Sendo o habitus uma relação social e não uma coisa, o lugar ocupado pelos agentes numa determinada estrutura de relações vai depender de suas propriedades intrínsecas, de suas características particulares. Conforme Domingos Sobrinho (2000, p. 120), toda condição social é demarcada por suas

“[...] propriedades intrínsecas, particulares e, ao mesmo tempo, pelas propriedades relacionais

que cada uma deve à sua posição dentro do sistema das diferentes condições sociais que é também sistema de diferença.”

O tornar-se enfermeira, nesta óptica, exige necessariamente fazer referência ao campo social da Saúde, locus da construção e das disputas pela afirmação desse ser social, a enfermeira. Por esta razão, antes de apresentarmos os resultados obtidos por meio do questionário e da entrevista, referentes aos elementos caracterizadores do habitus em questão, vamos abordar o espaço social em que este se concretiza e ganha visibilidade.

1.3.1 Sobre o conceito de campo social.

O conceito de campo social, segundo Domingos Sobrinho (2002), é um dos aspectos inovadores da sociologia de Bourdieu (2007b), devido à analogia que este autor faz entre a economia e os mercados de bens simbólicos. Para ele, não são exclusivas do campo

econômico as estratégias desenvolvidas nele pelos agentes, mas também comuns aos demais espaços sociais. Um campo social é, portanto, um mercado de bens simbólicos, mas um

campo de forças e de lutas “[...] no interior do qual os agentes se enfrentam, com meios e fins

diferenciados conforme sua posição na estrutura do campo de forças, contribuindo assim para a conservação ou a transformação de sua estrutura.” (BOURDIEU (2007b, p. 50).

Bourdieu (2004a, p. 20) afirma que um campo social é um “[...] universo no qual estão

inseridos os agentes e as instituições que produzem, reproduzem ou difundem a arte, a literatura ou a ciência.” É um mundo social como os outros; obedece, porém, a leis sociais mais ou menos exclusivas. Dito de outra forma: é um espaço relativamente autônomo, um microcosmo dotado de leis próprias.

Uma das manifestações mais evidentes da autonomia de um campo é sua capacidade de produzir refração, sob determinada forma, às pressões ou às demandas externas:

O grau de autonomia de um campo tem por indicador principal seu poder de refração, de retradução. Inversamente, a heteronomia de um campo manifesta-se, essencialmente, pelo fato de que os problemas exteriores, em especial os problemas políticos, aí se exprimem diretamente (BOURDIEU, 2004a, p. 22).

O funcionamento de um campo, defende Bourdieu (1983c, p. 89), depende de “[...]

objetos de disputas e pessoas prontas para disputar o jogo, dotadas de habitus que impliquem no conhecimento e no reconhecimento das leis imanentes do jogo, dos objetos de disputas.” Nesse entendimento, o campo passa a ser considerado um locus onde disputas concorrenciais

são travadas entre aqueles que o compõem. Agentes e instituições empregam “[...] forças

diferentes e segundo as regras constitutivas deste espaço de jogo, para se apropriar dos lucros específicos que estão em jogo neste jogo.” (BOURDIEU, 1983b, p. 106).

No caso específico deste trabalho, o conceito de campo contribui para alguns propósitos, tais como: compreender como se manifestam as relações entre o subcampo da Enfermagem e o campo geral da Saúde na cidade de João Pessoa, particularmente, no âmbito da ESF; e compreender qual o lugar aí ocupado pela enfermeira e a repercussão dessa condição social sobre o ser do grupo e suas práticas.

1.3.2 O campo da Saúde e as práticas de enfermagem.

Discorrer sobre o campo da Saúde visa tão somente a situar o espaço social das práticas de enfermagem como subsistema desse campo, a partir da explicitação de algumas de suas particularidades, visto que faremos maior aprofundamento mais adiante.

O campo da Saúde, sob a óptica da praxiologia de Bourdieu (1976), deve ser entendido como um espaço em que são construídos saberes e desenvolvidas práticas acerca dos objetos que justificam a sua existência, mas, ao mesmo tempo, como um espaço de lutas pelo controle dos enjeux que fazem mover esse campo. Nesse contexto, para que um campo funcione, é necessário que nele existam tanto os enjeux como pessoas preparadas para jogar o jogo, dotadas de habitus que permite o conhecimento e reconhecimento das leis permanentes do jogo e dos enjeux (BOURDIEU, 1976).6

Os agentes que se encontram inseridos num campo específico possuem em comum um

conjunto de interesses essenciais, isto é, “[...] tudo o que está ligado à existência mesma do

campo. Isto leva à construção de uma cumplicidade objetiva que permanece subjacente a todos os conflitos e antagonismos existentes.” (DOMINGOS SOBRINHO, 2002, p. 51). Essa conivência, ressaltamos, não se expressa formalmente, mas de forma tácita e consentida por todos os agentes. Assim, apesar de as relações entre os agentes integrantes do campo da Saúde serem permeadas de cooperação, nelas coexistem o conflito e as disputas pela autoridade para falar e agir em nome do campo.

Exemplo desses conflitos e disputas pelo monopólio do poder são as relações que se estabelecem entre duas categorias profissionais fundamentais no campo da Saúde: o médico e o enfermeiro. Historicamente, o médico tem exercido o poder da autoridade legítima para falar e agir em nome do campo. D´Oliveira (2000) atribui esse monopólio ao acúmulo de conhecimentos científicos e saberes técnicos desse agente, o que lhe tem propiciado igual poder econômico, cultural e social. O médico é a categoria profissional da Saúde que mais ocupa altos cargos de direção nessa área, além de ter maior representação nos espaços legislativos e de decisão sobre as políticas de saúde para o país.

Segundo Silva et al. (2006), em estudo sobre a relação entre enfermeiros e médicos, estes últimos, por ocuparem posição de destaque e prestígio social, usufruem certa supremacia em relação aos demais agentes da Saúde, inclusive em relação aos enfermeiros. Esses autores

6

Um enjeux é um valor que se atribui a uma ação. Ganhar a estima dos outros ao conseguir realizar uma ação difícil é um enjeux. Num conflito, há sempre des enjeux mais ou menos ocultos (de poder) por trás dos objetivos declarados (BERNOUX, 1985).

apontam a hegemonia da Medicina sobre a Enfermagem como o principal fator de conflito entre estas duas categorias de profissionais, acarretando obstáculos à excelência na produção dos serviços em saúde e à qualidade da assistência prestada aos usuários.

Os autores acrescentam que os enfermeiros, mesmo usufruindo certa representatividade e possuindo formação de nível superior, não têm autonomia para discutir, questionar e deliberar, junto ao médico, sobre o andamento dos serviços prestados ao paciente. Em outros termos: não possuem poder de decisão sobre seu próprio trabalho. Dessa forma, os enfermeiros sentem-se desestimulados ao ver sua atuação limitada às prescrições

médicas ― o que desvirtua o objeto-fim da Enfermagem: o cuidado do paciente. As lutas pela

ocupação de espaços e posições, autonomia profissional e aquisição de poder permeiam, igualmente, esse campo.

Conforme vimos discutindo, o médico usufrui um poder instituído socialmente, que o distingue das demais categorias de agentes e o coloca em posição privilegiada, na hierarquização do campo e nas relações com a sociedade em geral. Diante do exposto, passamos a indagar: Quais as particularidades do ser enfermeira, na cidade de João Pessoa? Qual a posição que esta categoria ocupa no campo da Saúde, tal como este se estrutura nesta cidade? Qual a repercussão dessa posição para as práticas na ESF?

Passemos, a seguir, à identificação dos mais evidentes elementos constitutivos da construção do habitus da enfermeira em João Pessoa, alertando que faremos movimentos de idas e vindas sobre a relação campo social e habitus, sempre que a apresentação dos resultados o exigir.

Benzer Belgeler