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4.1.1 Primeiras observações

Baseado em websites e depoimentos online sobre o tema, o “nomadismo digital” pode ser considerado um estilo de vida, uma nova maneira de viver e trabalhar que surgiu com a tecnologia digital. É possível encontrar, em redes sociais na internet, grupos com membros de diversas partes do mundo que discutem o tema: Irlanda, Croácia, Austrália, Brasil entre outros. Existem também grupos temáticos como o “Digital Nomadism for sailors”, outros focados em fotografia, e alguns mais específicos sobre troca de casas entre os “nômades digitais” do mundo. Todos trabalham em cima do trinômio: “web, work, travel” (rede, trabalho, viagem).

A descrição do grupo “Nômades Digitais – 360 meridianos” no Facebook justifica a criação da página na rede social como tendo sido “a partir da percepção, na caixa de comentários do blog de mesmo nome, de que existe um crescente interesse no nomadismo moderno e na flexibilização da rotina de trabalho.” E convida: “Vamos discutir a aplicabilidade deste estilo de vida na realidade brasileira.” As marcações da página são: “Digital Nomad”; “Viagem”; e “Tecnologia”14. O estudo deste grupo foi mais aprofundado, pois se trata da fanpage brasileira sobre o tema com maior número de seguidores, 4074 em junho de 2015.

Conhecer os membros do grupo virtual é desafiador, pois, em um perfil no Facebook, as pessoas não são obrigadas a preencher informações como país de origem, cidade onde mora e empresa onde trabalha. Muitos optam por “brincar” com os formulários de perfil do Facebook e se identificam como originários de países distantes ou de nomes diferentes. Sendo assim, baseada apenas nas informações ali disponíveis, que podem ser verdadeiras ou não, a pesquisadora relata as observações que se seguem.

Diferentes estados brasileiros estão representados no grupo: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Ceará, Paraná, Goiás, Santa Catarina, Tocantins, entre outros. A participação da região Sudeste é maior, com muito mais membros do que as outras regiões.

Participam indivíduos que trabalham na iniciativa privada e pública, sendo a maioria da iniciativa privada. As profissões são diversas: educadores, bancários, profissionais da moda, escritores, analistas de comunicação e marketing, farmacêuticos, médicos, supervisor

                                                                                                                         

14 Nômades Digitais - 360 meridianos. Facebook. Disponível em: https://www.facebook.com/groups/nomadesdigitais/?fref=ts. Acesso em: 29 jun. 2015.

de vendas, geógrafos, desenvolvedores de softwares, psicólogos, enfermeiros, e mesmo alguns sem emprego.

É possível classificar os “nômades digitais” de diversas formas, mas a mais comum nos sites e grupos de discussão gira em torno do estado civil das pessoas. Em geral, são identificados como homem solteiro; mulher solteira; casal sem filhos; e casal com filhos15.

Por outro lado, ao contrário do discurso, observa-se que muitos se consideram “nômades” apesar de possuírem residência fixa16, seja por terem um apartamento como base ou morando no mesmo local de maneira permanente para estudar ou trabalhar.

A pesquisadora também identifica claramente que, entre os membros da rede social, encontram-se indivíduos que parecem já praticar este estilo de vida e trabalho, mas também pessoas que ainda não o fazem e possuem esse desejo. São os “digital nomads wannabe”.

Na fanpage, as pessoas apresentam seus trabalhos e aqueles que ainda não adotaram o “nomadismo digital” tiram suas dúvidas. Rafael Sette Câmara, um dos criadores do “360 meridianos”, faz a apresentação da página na rede social:

Bem-vindo ao grupo “Nômades Digitais”. Antes de mais nada, vamos entender qual o nosso objetivo aqui? Este não é um grupo de dicas de viagem. Na realidade, queremos discutir o empreendedorismo digital, que permite a existência dos nômades digitais, e não viagens em si. Queremos falar sobre formas de ganhar dinheiro de maneira remota, o que possibilita viver e trabalhar de qualquer lugar do mundo.

Portanto, posts com dicas de viagem não cabem neste grupo. Nada contra, apenas não é o espaço apropriado, ok? Qualquer post fora do tópico será apagado.

Você tem um blog? Um site? Um canal do YouTube? Um portfólio online? Enfim, qualquer espaço na web cujo objetivo é ajudar a ganhar dinheiro e ser um nômade? Temos um espaço só para você divulgar seu trabalho, mesmo que não tenha a ver com o tema central do grupo: este post.

Coloque o link nesta postagem e explique para o grupo um pouco do seu trabalho. Quem sabe assim não inspiramos outros?17

Com base nas observações feitas do grupo, percebe-se que os formatos de trabalho resumem-se a quatro opções: o trabalho como freelancer para o Brasil ou exterior, a criação de negócios online e a oferta de serviços de consultoria online na área de formação ou atuação profissional anterior à mudança de estilo de vida. O quarto, que compreende a grande maioria daqueles que estão em viagem, é a monetização de blogs próprios sobre suas viagens, vida

                                                                                                                         

15

NEUTE, F. Nômades digitais: quem são e como eles ganham dinheiro e se sustentam na estrada. Fêliz com a vida. Disponível em: http://www.felizcomavida.com/nomades-digitais-quem-sao-eles. Acesso em: 29 jun. 2015.

16 Dicionário Michaelis Online. Disponível em:

http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=n%F4made. Acesso em: 28 ago. 2015.

17 CÂMARA, R. S. Nômades Digitais - 360 meridianos. Facebook. Disponível em: https://www.facebook.com/groups/nomadesdigitais/?fref=ts. Acesso em: 29 jun. 2015.

“nômade”, dicas e passeios, recebendo alguns tipos de patrocínio de empresas em troca de anúncios.

Eles afirmam trabalhar independente de sua localização, são “location independent

entrepreneurs”, termo utilizado frequentemente nos sites e blogs sobre o tema para designar

os “nômade digitais”. Porém, a viabilidade financeira desses modelos de trabalho são ponto de questionamento nesta pesquisa.

4.1.2 Algumas fontes de receita

Depoimentos encontrados ainda nestes primeiros contatos com o assunto em questão revelam que a maioria dos “blogueiros” parece não possuir receitas muito expressivas. Alguns dizem conseguir o suficiente para financiar suas viagens, outros nem isso.

Assim como todo novo negócio, o blog vem crescendo, mas não a ponto de nos sustentar por completo e, por mais que queiramos ele como nossa única fonte de renda, uma transição é necessária. Atualmente temos trabalhos esporádicos para algumas empresas e até mesmo alguns contratos de prestação de serviço para outras com maior frequência de demanda. Isto é, blog e freelances se complementam.18

Sustentar a viagem apenas por meio de monetização de blogs não é fácil. Muitos “nômades digitais” os possuem mesmo assim, alguns dizem que serve apenas para compartilhar as experiências de viagens, já outros esperam transformá-los em uma fonte de renda. Aproveitar o dia-a-dia para criar um blog sobre viagens e “nomadismo” parece ser uma iniciativa óbvia e comum entre “nômades digitais” brasileiros, o que pode gerar uma grande concorrência entre eles.

TER UM BLOG - É uma das sugestões que mais aparecem por aí. Claro que, se você tiver um blog de sucesso que te dá dinheiro, dá tranquilamente pra cuidar dele remotamente e ser nômade digital. Fácil né? Fora pela parte do “ter um blog de sucesso que te dá dinheiro”. Quantos novos blogs surgem todo santo dia? Quantos dele realmente “dão certo” e geram uma renda legal? Não sabemos a resposta, mas a porcentagem deve ser minúscula.

                                                                                                                         

18 CASTRO, A. Como os nômades digitais ganham dinheiro? Viajei Bonito. Disponível em:

Mesmo os blogs que começaram a ganhar dinheiro em algum momento com certeza demoraram bastante pra chegar lá, e isso era outro balde de água fria, já que queríamos ser nômades digitais o mais rápido possível.19

Com base nos discursos encontrados, a monetização de blogs ocorre por meio de venda de espaços publicitários, marketing de afiliados20, venda de serviços ou e-products21. Para obter uma renda relevante dessa forma, seriam necessárias grandes quantidades de visitantes por mês na página e também um alto número de conversões, ou seja, seria preciso que os visitantes efetuassem compras ao clicarem nos anúncios para que o dono do blog recebesse um percentual sobre a venda.

A partir da pesquisa realizada, foram identificados casos considerados de sucesso pelos “nômades digitais” como o dos paulistanos Emerson Viegas, publicitário, e Jaqueline Barbosa, tradutora, criadores dos blogs Nômades Digitais, Hypeness e Casal Sem Vergonha. Juntos, o Hypeness e o Casal Sem Vergonha teriam faturado 2,5 milhões de reais em 201422.

Seus artigos circulam por diferentes países de língua portuguesa. O site Casal Sem Vergonha teria recebido, em 2013, 2,5 milhões de visitas mensais23. Já a fanpage do Hypeness no Facebook tem 774 mil curtidas24.

Em entrevista para o site Draft, sobre inovação disruptiva, Emerson e Jaqueline afirmam que 60% do que faturam pela internet são provenientes do site Hypeness, 30% do Casal Sem Vergonha e 10% do site Nômades Digitais, que teve patrocínio da companhia aérea KLM e do site de aluguel de imóveis Airbnb durante os três primeiros meses de existência. A receita do casal viria de três tipos de fontes: a venda de publicidade online; serviços de consultoria digital para marcas e agências de publicidade; e elaboração e venda de relatórios de inovação e tendências para marcas25.

                                                                                                                         

19

Todo mundo pode ser nômade digital? Na Palma do Mundo. Disponível em: http://napalmadomundo.com/todo-mundo-pode-ser-nomade-digital. Acesso em: 17 jun. 2015.

20 No marketing de afiliados a divulgação de um produto na internet é feita por meio de uma rede de afiliados. O “blogueiro” parceiro, por exemplo, divulga o produto de uma empresa vendedora e recebe uma comissão quando ele conseguir promover uma venda deste mesmo produto.

21 Produtos em formato eletrônico vendidos pela internet.

22 REPS, R. É possível lucrar com conteúdo: conheça os fundadores e o modelo de negócios do Hypeness. Draft. Disponível em: http://projetodraft.com/e-possivel-lucrar-com-conteudo-conheca-os-fundadores-e-o- modelo-de-negocios-do-hypeness. Acesso em: 29 jun. 2015.

23

HENRIQUES, A. M. Hypeness, o site feito por um “casal sem vergonha”. P3. Disponível em: http://p3.publico.pt/actualidade/media/7874/hypeness-o-site-feito-por-um-quotcasal-sem-vergonhaquot. Acesso em: 29 jun. 2015.

24

Dados de 28 de junho de 2015.

25 REPS, R. É possível lucrar com conteúdo: conheça os fundadores e o modelo de negócios do Hypeness. Draft. Disponível em: http://projetodraft.com/e-possivel-lucrar-com-conteudo-conheca-os-fundadores-e-o- modelo-de-negocios-do-hypeness. Acesso em: 29 jun. 2015.

Esta dupla parece ter reduzido seu risco ao diversificar criando mais de um blog, cada um com tema diferente. O Hypeness foca em inovação e criatividade; o Casal Sem Vergonha trata de comportamento sexual; e o Nômades Digitais tornou-se um dos sites brasileiros mais completos sobre “nomadismo digital”.

Para manter os blogs atrativos, existe um trabalho intenso de produção de conteúdo, o que demanda uma rede de colaboradores. Com o intuito de conseguirem a liberdade que buscavam, os negócios para a internet teriam sido estruturados para funcionar online.

Hoje nossa empresa conta com uma média de 10 pessoas na equipe, cada um em um canto do mundo. Tem gente em Portugal, Berlim, Curitiba, Rio de Janeiro, Londres, São Paulo. A gente gostou tanto desse estilo de vida que achamos justo que as pessoas do time pudessem viver isso também (Jaqueline Barbosa26).

Benzer Belgeler