As falas acima demonstram a visão dos entrevistados sobre a proposta de núcleo comum, a ideia de aproximar as áreas de Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia do ponto de vista formativo. Outros entrevistados preferem destacar a experiência vivida na implementação desta proposta e buscam demonstrar os problemas vivenciados pelos docentes neste momento.
A implementação de algumas disciplinas comuns aos três cursos foi problemática levando a separação por curso. Como cita o entrevistado 2 B:
O que efetivamente aconteceu é que, na prática, em determinadas disciplinas esta conversa comum foi caótica. Ela se mostrou impossível. Eu acho que uma boa disciplina para dar este exemplo é ‘Introdução a Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia, que todos os professores que trabalharam com ela chegaram a conclusão de que não dava para ser uma disciplina única e ela foi separada, cada curso tem a sua introdução especifica (Entrevistado 2 B).
170 O entrevistado 3 C entende que o currículo novo deu muitos incêndios e destaca a disciplina “Introdução Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia” como problemática pois:
Na hora que você vai dar a disciplina acaba que você não consegue dar uma introdução consistente, que realmente mostre para o aluno a área dos três cursos ao mesmo tempo. E então isto é uma coisa que a gente vai tirar do núcleo comum, os três cursos já estão tirando. Os outros professores dos novos cursos também não concordam que ela seja um núcleo comum. Então o que eu percebo nesta questão do núcleo comum é que as três áreas têm percepções muito diferenciadas do que seria o núcleo comum para os três cursos (Entrevistado 3 C).
Outra disciplina citada como problemática é “Bibliotecas, arquivos e museus digitais”. O entrevistado 3 C “entende que os ambientes (arquivo, biblioteca e museu) são muito diferenciados, que têm especificidades muito gritantes e quando a disciplina foi proposta, ela foi proposta por um grupo de professores ligados a tecnologia.” Isto é problema, pois segundo o entrevistado os professores que propuseram esta disciplina têm se recusado a ministrá-la e ela fica a cargo de professores que não são da área de tecnologia.
Algumas disciplinas do núcleo comum são tradicionais da Biblioteconomia e quando programadas para os outros dois cursos causaram estranhamento entre os docentes. É o caso das disciplinas Análise de Assunto, Indexação e Competência Informacional.
O entrevistado 2 A destaca o estranhamento dos professores de Arquivologia com certas disciplinas tradicionais da Biblioteconomia que estavam no Núcleo comum. Ele destaca as disciplinas que ministra no curso “Indexação” e “Competência Informacional” como de difícil entendimento para os docentes da Arquivologia.
Não é um tema tradicional na Arquivologia, muita gente vê com certo preconceito, dizendo, isso não é Arquivologia, então eu dou esta disciplina, dou a disciplina de Competência Informacional, outra disciplina que é típica de Biblioteconomia e que nesta escola está no núcleo comum. Por de minha formação ser em Biblioteconomia e Ciência da Informação eu tenho ficado com estas disciplinas fronteiriças (Entrevistado 2 A).
171 Segundo o entrevistado 2 A, a maioria dos professores da Arquivologia vê estas disciplinas como “aberração com o argumento de que Arquivologia não tem indexação, competência Informacional não é coisa de Arquivologia”.
A maioria dos docentes achou a princípio, com estas palavras, isto não é Arquivologia, indexação, um absurdo, tanto é que eu acabei ficando com essas disciplinas até por rejeição dos outros professores. Não é um procedimento tradicional de Arquivologia, o procedimento tradicional é avaliação de documentos, classificação de documentos, como a indexação ainda não está nos manuais de Arquivologia ainda, então parece que é uma aberração, então é tratado assim (Entrevistado 2 A).
Ele observa que percebe este preconceito somente entre os professores, quanto aos alunos eles têm tido boa receptividade das disciplinas e entendem a importância deste conteúdo.
Para os alunos, até que eles tenham preconceito colocado por algum professor ou lido em algum lugar, se eles não têm isso, eles acham a disciplina interessante, porque todos eles sabem que quando precisam fazer uma pesquisa em qualquer ambiente, virtual principalmente, ele quer pesquisar, ele vê que controle de vocabulário implica num resultado ruim ou bom desta pesquisa, então ele vê a pertinência. Na competência informacional também é uma disciplina que tem dado relativamente certo porque eu não passo conteúdo sobre competência informacional de Biblioteconomia eu faço o contrário, eu faço com que eles busquem desenvolver as suas competências informacionais para serem pesquisadores e serem profissionais no futuro (Entrevistado 2 A).
O entrevistado 4 A é um dos docentes citados acima que sentiram estranhamento com as disciplinas propostas no currículo: Ele destaca:
Quando eu cheguei aqui que eu fui ver na primeira distribuição de disciplinas. Eu pensei, nossa, tem algumas coisas que são complicadas para a Arquivologia. Tipo indexação e analise de assunto. Assunto é uma coisa complicada na Arquivologia. E organização da informação. E então algumas coisas foram complicadas. E o que eu tenho percebido é o seguinte, só ficou o nome. Porque dentro de sala de aula a maioria dos professores, o nome é este e a ementa é esta, mas eu vou ensinar o que eu acho que eu tenho que ensinar (Entrevistado 4 A).
A disciplina “Fundamentos da organização e tratamento da informação” também é citada como de difícil implantação para os três cursos.
Ela foi concebida para ser um núcleo comum, mas acaba que nem sempre tem professores com a responsabilidade de dar esta disciplina para os três cursos e acaba que as pessoas que estão destinadas a cada área assumem a disciplina e cada curso tem a disciplina de forma separada. Tem acontecido assim, sendo ela logo no primeiro período, a gente tenta dar este histórico de como tem se conformado a área. Mas há uma necessidade muito grande, os alunos demandam que eles tenham conceitos específicos da área para a qual eles fizeram vestibular (Entrevistado 2 D).
172 O entrevistado 4 A tem ressalvas sobre esta disciplina quanto a sua distribuição ao longo do currículo. Ele cita a disciplina chamada Fundamentos da Organização da Informação que é dada no primeiro período. Ele entende que o aluno de Arquivologia precisa primeiro estudar Introdução a Arquivologia para depois ter esta disciplina.
O aluno não entende a área dele. Se ele não entende a área dele, de forma que ele vai saber como é que a área dele se relaciona com aquela outra. Então primeiro ele tem que aprender Fundamentos de Arquivologia, depois sim ele vai aprender os fundamentos das outras áreas que podem ter uma relação interdisciplinar, uma relação transdisciplinar com a dele (Entrevistado 4 A).
O entrevistado 2 B observa que “para cada disciplina houve uma reação diferente o que deixa cada vez mais claro como estes pontos de contato eles precisam ser trabalhados sem o apagamento da especificidade de cada área” (Entrevistado 2 B).
Outro problema citado por um dos entrevistados foi o tamanho das turmas quando a disciplina é ministrada de forma comum para os cursos. Ele cita o caso da disciplina “Gestão de Unidades de Informação” ministrada para a Arquivologia e para a Biblioteconomia. Segundo este entrevistado é um desafio metodológico lidar com uma turma de 80 alunos. Ele observa:
A turma grande dá um desafio metodológico, mas foi razoável. Foi a primeira vez que eu peguei uma turma grande assim e se eu fosse pegar de novo eu acho que ia tomar mais cuidado porque e difícil lidar com uma turma de 80 alunos. Especialmente uma turma diversificada, mas deu certo, na parte final na apresentação de trabalhos o negócio ficou um pouco complicado porque era muita gente para apresentar trabalho então uma metodologia para uma turma grande tem que ser diferente (Entrevistado 3 D).
Ele destaca que a diversidade da turma também influencia neste desafio metodológico.” Um pouco a diferença de formação também, como era a primeira turma de Arquivologia eu acho que tem um impacto cultural entre as duas turmas”
Eu percebi um pouco isso, exemplo, os estudantes querendo fazer grupos de trabalho entre as suas próprias turmas, não mesclando o que seria ideal para ter uma troca de experiência e de visão entre os estudantes, mas eu acredito que como foi a primeira turma essa situação já deve ter mudado com o tempo. Eu não tenho como confirmar isso. Naturalmente os grupos vão trocando experiências e isso vai aproximar os alunos dos dois cursos (Entrevistado 3 D).
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