Em Muito Barulho por Nada, a caracterização do príncipe de Aragão, Dom Pedro, surge diametralmente oposta à do príncipe de Aragão de O Mercador de Veneza. A mudança na composição desses personagens sob mesmo título, escritos com o intervalo de aproximadamente dois anos entre um e outro, provavelmente se deve às mudanças políticas e ao surgimento da possibilidade de paz discutida acima. Se o primeiro Aragão reflete caricaturalmente a euforia da audiência depois de suposta vitória em Cádiz, o segundo sugere o anseio pela tranquilidade que viria com o fim da Guerra Anglo-Espanhola. Não parece coincidência o fato de que Muito Barulho por
Nada comece com a chegada do exército de Aragão após o estabelecimento da paz em
alguma batalha importante. Dom Pedro de Aragão não é um idiota prateado, como seu antecessor, e sim um personagem digno, amigável, companheiro de seus soldados e generoso com os subordinados.
Primeira Parte da Novela (1554), de Matteo Bandello (1490-1560).277 Nesta obra, Bandello localiza a ação em Messina no ano de 1282, durante as Vésperas Sicilianas, revolta em que os sicilianos se levantaram contra o domínio de Carlos de Anjou (1226- 1285), preferindo como monarca Dom Pedro III de Aragão (1239-1285), casado com a filha do rei anterior a Carlos e considerado possível herdeiro da Coroa siciliana.278 Porém, Bandello, ao tomar este evento como pano de fundo para sua estória, mal mencionou Dom Pedro, deu-lhe uma parte ínfima no enredo. Em seu texto, chega aos ouvidos do aclamado monarca aragonês em Messina a história de Timbreo e Fenícia (na peça, Claudio e Hero), após o desenlace feliz. Ele pede para conhecê-los, ouvir a história dos próprios lábios do casal, e concede à noiva um dote como se fosse sua própria filha. Como podemos ver, Dom Pedro na versão de Bandello ganha importância apenas após a resolução do conflito entre o noivo ludibriado e a noiva injustamente caluniada. É sintomático o fato de que, durante a discussão sobre guerra e paz na Corte inglesa, Shakespeare tenha retomado essa história e expandido consideravelmente o papel, na verdade o tornou um dos protagonistas de sua peça.279
A segunda fonte que Shakespeare parece ter usado para a composição é Orlando
Furioso (c. 1516), de Ludovico Ariosto (1474-1533), traduzido para o inglês em
1591.280 Deste romance, Shakespeare pode ter retirado a subtrama em que a criada veste as roupas da heroína e é vista com o amante, o que motiva o cancelamento do casamento pelo noivo pretensamente ultrajado. 281 É interessante o dado de que no poema épico de Ariosto, o Duque inglês Astolfo ouve a profecia de que uma união feliz surgiria entre as casas de Áustria e Aragão – uma clara referência a Carlos V (1500- 1558) – e que o ramo único destas casas traria Astraea de volta à Terra. 282 Astraea era a exilada deusa da antiguidade que em seu retorno a este mundo conduziria de volta a justiça. O poema foi uma das obras mais lidas durante a renascença inglesa, influenciou diretamente o maior épico inglês do período, A Rainha das Fadas, epíteto que o autor
277 Matteo Bandello. La Prima Parte de Le Novelle Del Bandello. Lucca, Il Busdrago, 1554. 278 Estas informações são encontradas no site da Enciclopédia Britânica:
http://www.britannica.com/event/Sicilian-Vespers consultado em 03 de agosto de 2015.
279 A crítica Claire McEachern chama atenção para o fato de que Dom Pedro é um dos personagens com
maior número de falas. Claire McEachern. ‘Introduction’. In.: William Shakespeare. Much Ado About
Nothing. Edited by Calire McEachern. London, Bloomsbury, 2014. pp. 1-144. p.118.
280 Ludovico Ariosto. Orlando Furioso in English Heroical Verse. Edited by John Haringtõ [translator].
London, published by Richard Field, 1591.
281 Geoffrey Bullough. Narrative and Dramatic Sources of Shakespeare. London, Routledge, 8 volumes,
1966. Volume II. p. 82.
Edmund Spenser (1552-1599) deu à Rainha.283 Neste, Spenser se apropria da ideia de união dinástica para narrar a história de Elisabete, cuja coroação de seu avô Henrique VII (1457-1509) em 1485 estabeleceu o fim da Guerra das Duas Rosas (1455-1485) através da união entre as casas de Lancaster e York. Outro epíteto comum à Rainha louvado nesta época era justamente o de Astraea.284 É possível que durante a guerra Anglo-Espanhola o poema de Ariosto fosse lido, e se encarasse certa ironia no fato de que o ramo das casas de Áustria e de Aragão, Felipe II, guerreava contra aquela retratada pelos artistas ingleses como Astraea, Elisabete, ao invés de amistosamente recebê-la como deusa da justiça, como o poema predizia. Ao utilizar a obra de Ariosto como fonte para a peça e nomear o monarca que a todos rege como príncipe de Aragão, paralelos reconhecíveis por cortesãos eruditos, Shakespeare poderia tentar fazer com que rememorassem que ainda era possível o crescimento em conjunto entre os ramos advindos das casas de Áustria e Aragão, e de York e Lancaster. Através do estabelecimento da paz, Astraea não mais seria mantida em exílio (seja comercial, diplomático etc.) pelo monarca nascido da união entre as casas de Áustria e Aragão. A justiça retornaria para viver entre os homens.
Como ancestral e representante dramático de uma das casas que compunham a Monarquia Hispânica, Dom Pedro de Aragão parece trazer consigo um séquito e referências que simbolizariam o império de Felipe II. A primeira fala da peça, dita pelo governador de Messina, indica a abrangência dos domínios de Aragão: “Estou sabendo por esta carta que Dom Pedro de Aragão chegará, esta noite, a Messina” (I, i, 1-2). Seu amigo e subordinado Benedito faz gracejos que indicam seu passado em embaixadas do príncipe. Quando Dom Pedro lhe pede para dar um recado ao anfitrião Leonato, Benedito diz que tem o “desempenho necessário para esta embaixada” (I, i, 260-261). Em outro momento, ao testemunhar a chegada da antagonista em disputas verbais, Beatriz, ele pede para que Dom Pedro o envie como encarregado de alguma missão nos locais mais distantes imagináveis:
Não poderia Vossa Graça mandar-me fazer alguma coisa no fim do mundo? Estou pronto a partir imediatamente para os antípodas com a incumbência de menor importância que possa ser confiada a alguém. Irei procurar para Vossa Graça, agora mesmo, um palito no lugar mais
283 Edmund Spenser. The Faerie Queene... Op. cit. 284 Frances A. Yates. Astraea: The imperial … Op. cit.
longínquo da Ásia, poderia também trazer o tamanho do pé do Prestes João; conseguiria um cabelo da barba do Grão-Mogol; desempenharia qualquer embaixada entre os Pirineus, mas não quero trocar três palavras com essa harpia. Não tendes qualquer emprego para mim?
(Muito Barulho por Nada, Ato II, cena i, ref. versos 241-249).
Claire McEachern mostra que estas menções a lugares e povos se referem a mitos da Antiguidade e Idade Medieval, presentes nas descrições de Homero, Ovídio e Marco Polo.285 Como veremos, Shakespeare sobrepõe durante toda a peça referências medievais e de seu próprio tempo. Nesse trecho, a exploração das Índias e dos domínios espanhóis projetados no imaginário social elisabetano é indicada pelo fato de que Benedito está pedindo uma missão diplomática ao príncipe de Aragão, que naquela época realmente comercializava com algumas das regiões e povos descritos - ou os dominava. Outro aspecto dessa espécie de cosmopolitismo diplomático-militar de Benedito é o uso de roupas estrangeiras. Dom Pedro critica com bom humor o hábito do subordinado de vestir peças de modas de outras regiões da Europa, vestuário que poderia sugerir sua passagem por estes lugares, seja como embaixador ou como soldado a serviço de Aragão:
Não parece que esteja apaixonado, a não ser que seja uma paixão pelos trajes estranhos; por exemplo, hoje, é holandês; amanhã, será francês; ou então, usando ao mesmo tempo as roupas de ambos os países, será alemão da cintura para baixo, todo em calções largos e espanhol da cintura para cima, sem gibão. A não ser que esteja com mania destas loucuras, como parece que esteja, não está louco por mania, como quereis supor.
(Muito Barulho por Nada, Ato III, cena ii, ref. versos 29-36)
Pela alusão ao uso de trajes franceses, alemães, holandeses e espanhóis, nos parece uma referência ao exército de Flandres e lugares em que este atuava na época em que a peça foi escrita. Como vimos, o grande temor em relação aos espanhóis se dirigia às tropas lideradas pelo Duque de Parma. A semelhança entre o temível exército de Flandres e o de Dom Pedro outra vez remeteria à guerra Anglo-Espanhola.
Pela euforia nas discussões no Conselho Privado, Corte e sociedade, assim como
pelas notícias enviadas pelos agentes secretos de Essex e Robert Cecil no exterior, não é difícil supor que era cogitada a visita de alguma embaixada espanhola em curto período de tempo para início da retomada diplomática entre as duas Coroas. Possivelmente se esperava que o agente seria enviado justamente de Flandres, já que o Arquiduque Alberto agia como mediador. Na verdade, por volta da época que Shakespeare escrevia a engraçada cena em que Benedito se propõe para a descrita embaixada, referenciando indiretamente o exército de Flandres, uma comissão realmente nascia em Bruxelas para estabelecer os primeiros contatos com a Coroa inglesa. Poucas semanas após o dramaturgo ter concluído o texto, provavelmente em fins de 1598, o agente enviado por Bruxelas foi recebido amigavelmente por Elisabete, em janeiro de 1599, para tratar de negociações pela paz.286
Após o ataque da Invencível Armada em 1588, espalhou-se entre os ingleses a ideia de que os soldados de Felipe II eram intragáveis no trato com os marinheiros. Segundo afirmação de G. M. Trevelyan, podemos concluir que havia certo fundamento para o rumor, pois os espanhóis “enchiam os navios de soldados, que desprezavam os marinheiros e os tratavam como se fossem vulgares condenados às galés. ‘Os embarcadiços’, disse um entendido da época, ‘não passam de escravos perante os demais, obrigados a trabalhar dia e noite [...]”.287 O próprio Duque de Alba (1507-1582) teria afirmado: “Em nossa nação, nada é mais importante que introduzir na infantaria cavalheiros e homens de posses, a fim de que não seja deixada aos trabalhadores e lacaios”.288 O comentário sugere a intensificação do sentimento hierárquico na infantaria espanhola, a mais poderosa da Europa nesta época.289 Laughton afirma que a força deste sentimento entre soldados e comandantes espanhóis resultava no desprezo de marinheiros. 290 Os ingleses usavam este elemento para diferenciarem-se, vangloriavam-se de que seus comandantes, soldados e marinheiros tratavam-se com igualdade em alto mar na defesa contra a Invencível Armada.291 Na visão desses
286 Wallace T. MacCaffrey.Elizabeth I... Op. cit., pp. 224-240. Alexandra Gajda. 'Debating War and Peace
in Late Elizabethan England' In.: The Historical... Op. cit. pp. 857-858.
287 G. M. Trevelyan. História Concisa da Inglaterra. Lisboa, Mem Martins Europa-América, 2 vol., 1942.
Volume 1. p. 250.
288 Apud: Perry Anderson. Linhagens... Op. cit. p. 72.
289 Garett Mattingly afirma que o ponto mais importante da arte militar europeia, no início da era moderna,
havia deixado de ser a cavalaria para se tornar a infantaria, e que isso teria favorecido a liderança militar da Espanha no continente. Garret Mattingly. ‘International Diplomacy and International Law’. In: The
New Cambridge… Op. cit. pp. 150-151.
290 J. K. Laughton.‘The Elizabethan Naval War with Spain’. In: The Cambridge… Op. cit. pp. 308. 291 Trevelyan aponta para o fato de que a partir de 1588, os marinheiros protestantes e seus comandantes,
ingleses, seus comandantes eram os primeiros a colocarem-se em pé de igualdade com seus subordinados.
Shakespeare parece ter aproveitado a discussão sobre a possibilidade de paz com a Espanha para inverter a fama de soberbos que possuíam os comandantes espanhóis, fama que teria influenciado a composição do príncipe de Aragão em O Mercador de
Veneza. Em Muito Barulho por Nada, o novo príncipe de Aragão possui o mesmo senso
de respeito e valorização de seus subordinados que os ingleses acreditavam possuir em oposição aos espanhóis. Dom Pedro aparenta ser um comandante militar exemplar - seu exército inicia a peça vitorioso -, é extremamente gentil com seus subalternos, inclusive dois deles são seus melhores amigos. Embora não haja cena em que ele tenha que lidar com um soldado comum, é geralmente simpático com quem o cerca, nada sugere que agiria com empáfia em relação a alguém socialmente inferior. As únicas cenas em que é deselegante, excepcionalmente com o governador de Messina e sua filha, Dom Pedro o faz enganado por seu irmão, comete injustiças no momento em que os outros personagens também cometem, revelando todos seus piores aspectos. Desde o início, o príncipe se revela afetuoso, assim que chega em Messina recusa-se a seguir o protocolo de entrar solenemente na casa do governador, insiste em entrar de braços dados com ele. Dom Pedro se mostra também gentil com os amantes da peça. Quando Claudio, seu comandante mais íntimo, pede-lhe opinião sobre um possível casamento com Hero, o príncipe mostra-se bom conselheiro e aprova o matrimônio, se dispõe a cortejá-la em nome do conde, para depois entregar-lhe a mão da heroína e então permanecer em Messina até a realização do rito. A corte a Hero em nome de Claudio obtém sucesso e a trama se encaminha para a celebração das bodas. No momento em que a felicidade do casal atinge o ápice, Aragão se interessa por Beatriz. Após o baile de máscaras na casa de Leonato, Dom Pedro ouve-a gracejar por não ter um marido, ao que ele mostra certo interesse amoroso:
BEATRIZ – Meu Deus! Viva o casamento! Assim, todo o mundo se casa menos eu. Somente eu fico vendo navios. Só me falta assentar numa esquina e gritar: “Ah! Um marido, por favor!”
como Frances Drake, se tornaram verdadeiros heróis na Inglaterra. G. M. Trevelyan. História Concisa… Op. cit. pp. 248-249. Como vimos também em A Mascarada Espanhola, Robert Greene enaltece Lorde Almirante Charles Howard por permanecer no convés de seu navio fortalecendo o ânimo de seus homens contra a Invencível Armada, enquanto os comandantes Medina Sidonia e Recalde se escondiam na parte de baixo de seu navio ou na cama. Ver páginas 34-35.
DOM PEDRO – Senhorita, posso arranjar-vos um.
BEATRIZ - Preferiria um que fosse arranjado por vosso pai. Vossa Graça não tem um irmão que se pareça convosco? Vosso pai gerou excelentes maridos, se uma donzela pudesse conquistá-los.
DOM PEDRO – Será que me aceitareis, senhorita?
BEATRIZ – Não, meu senhor, a não ser que me seja permitido ter outro para os dias de trabalho. Vossa Graça é muito suntuoso para ser usado diariamente... Mas suplico que Vossa Graça me perdoe. Nasci para estar sempre risonha e só falar de coisas alegres.
DOM PEDRO – Vosso silêncio é que me causaria desprazer e a alegria é o que melhor vos assenta, pois, não há dúvida, deveis ter nascido numa hora de alegria.
(Muito Barulho por Nada, Ato II, cena i, ref. versos 292-307)
Percebemos neste diálogo que Dom Pedro é cortesmente descartado como pretendente por Beatriz, ainda assim continua a ser gentil com ela e mostra alegria apenas por tê-la como companhia. Em outro momento, ao saber que o alvo do amor da donzela, seu amigo Benedito, está escondido no jardim, fala em bom som para que este o ouça: “Quem me dera que fosse o objeto de seu amor! Teria posto de lado quaisquer considerações e teria feito dela a minha cara metade” (II, iii, 165-167).
Como todo comandante militar associado à Península Ibérica na obra do poeta, Dom Pedro é um amante frustrado. Depois de cortejar Hero para Claudio, ser descartado por Beatriz, e ver as duas se dirigirem para o casamento com seus melhores comandantes, o melancólico Dom Pedro ouve de Benedito em uma das últimas falas da peça: “Príncipe, estais triste. Arranjai uma esposa, arranjai uma esposa!” (V, iv, 120). Sua frustração amorosa é tão notável que chega a ser apontada pelo subordinado. Antes que a peça se encerre, chegam notícias de que o irmão bastardo do monarca foi capturado, acompanhado de homens armados. Benedito, após perceber a tristeza de Aragão, encerra o texto com uma última fala, não à toa, sobre o destino de Dom João: “Não pensemos nele antes de amanhã. Eu sugerirei para ele um bom castigo... Tocai, flautistas” (V, iv, 125-126).