A forma como se deu o desenvolvimento da agricultura no Brasil trouxe consigo a permanente tendência à concentração da propriedade da terra e dos meios de produção, tais como máquinas, equipamentos, insumos, entre outros.
A apropriação privada e concentrada da terra como uma das formas concretas de acumulação patrimonial da riqueza capitalista é marcante em nosso país desde 1850, data da Lei de Terras, tornando-se perene na dinâmica capitalista nacional, mediante a exploração predatória dos recursos naturais, a expulsão e a incorporação de populações locais e imigradas, submetidas à constante exploração (TAVARES, 2000, p. 137). Isto acaba por ratificar o caráter paradoxal da modernização rural iniciada em 1960. Em outras palavras, o progresso trazido pela expansão das atividades rurais exportadoras foi acompanhado pela geração de miséria, reproduzindo bolsões de pobreza rural e urbana, maior concen- tração fundiária e novos espaços para serem explorados (CANO, 2010). Para Tavares (2000, p. 136), existem fundadas razões para atribuir importância fundamental às dimensões econômicas e políticas da ocu- pação e do domínio privado e político do território. Entre as dimensões econômicas mais importantes para o processo de acumulação de capital, a expansão da fronteira agrícola pelos negócios de produção e expor- tação do agrobusiness e da exploração de recursos naturais mantém-se ao longo de toda a história econômica brasileira.
Isto fica claro na medida em que a difusão do progresso tecno- lógico e a consequente inserção comercial dos países subdesenvolvidos, como o Brasil, estão sujeitas a esquemas mutáveis de concorrência e de estratégias de grandes empresas internacionais (TAVARES, 2000).
Cabe, como ilustração, o fato de dentre as 20 maiores empresas do agronegócio, em 2008, presentes no Brasil, 12 serem transnacionais e representarem 63% de toda a receita líquida do setor (Tabela 11.6).
Economia Agrária | Notas sobre o uso e a ocupação do solo no Brasil
CEDERJ
156
Outra característica do desenvolvimento agrícola em nosso país está presente nas relações patrimonialistas entre as oligarquias regionais e o poder central na distribuição e apropriação dos fundos públicos (TAVARES, 2000). Neste sentido, o melhor exemplo que pode ser dado é a Bancada Ruralista, uma agremiação tão antiga quanto conservadora no Congresso Nacional e que não conta com status jurídico definido.
Em sua roupagem mais recente, converteu-se na Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), tendo como objetivo “estimular a ampliação de políticas públicas para o desenvolvimento do agronegócio nacional”; atualmente conta com 162 deputados federais e 11 senadores ou, res- pectivamente, 31% e 13% do total dos membros da casa.
Apenas como ilustração, em seu Relatório de Atividades 2009/2010, a FPA arrogava-se ter contribuído para a revisão de demarcações de terras quilombolas, sustação de demarcação de terras indígenas, mobilização contra revisão de índices de produtividade, entre outras ações de igual teor político. Tabela 11.6: Principais agroindústrias que atuam no Brasil, controlando a agricultura (2008).
Ranking * Empresa Sede Origem do capital Receita líquida (R$ milhões) Lucro líquido (R$ milhões) líquida (%)Margem
1 BUNGE ALIMENTOS SC Holanda 21.669 2,1 0,0
2 CARGILL SP EUA 12.996 − 383,2 − 2,9
3 PERDIGÃO SP Brasil 11.393 54,4 0,5
4 SADIA SC Brasil 9.987 − 2493,7 − 25,0
5 BENGE FERTILIZANTES SP Holanda 7.798 118,9 2,4
6 BERTIN SP Brasil 5.310 − 681,8 − 12,8
7 LDC BRASIL SP França 5.251 65,2 1,2
8 SOUZA CRUZ RJ Grã-Bretanha 5.199 1212,1 23,3
9 JBS-FRIBOI SP Brasil 4.866 25,9 0,5 10 BASF SP Alemanha 4.462 252,8 5,7 11 COAMO PR Brasil 4.296 − 434,8 7,3 12 AMAGGI MT Brasil 3.433 66,9 1,9 13 BAYER SP Alemanha 3.399 183,1 5,4 14 SYNGENTA SP Suíça/Holanda 2.996 162,6 5,4
15 ADUBOS TREVO RS Noruega 2.952 − 356,9 − 12,1
16 SEARA SC EUA 2.887 − 72,5 − 2,5
17 IMCOPA PR Brasil 2.649 − 141,6 − 5,3
18 DU PONT SP EUA 2.584 - -
19 AURORA SC Brasil 2.427 − 111,7 − 4,6
20 KRAFT FOODS PR EUA 2.212 273,4 12,4
TOTAL 118.765
* O número da classificação refere-se ao posto em relação as 1.000 maiores empresas que atuam no Brasil, por receita. Alte- rado do original pelo autor apud CARVALHO (2011).
CEDERJ 157
AULA
11
Se tiver interesse em saber mais sobre a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), acesse o site: http://www.fpagropecuaria.com. br. Lá você terá conhecimento da sua história, composição e estatuto.
Por fim, o avanço do agronegócio sobre antigas áreas gerenciadas pela ótica patriarcal-patrimonialista foi e é ambígua, pois “atendidos os interesses desse capital moderno, o possível antagonismo entre o antigo e este é contido, e, assim, abre-se novo campo conciliatório entre eles” (CANO, 2010, p. 11). O que, por sua vez, seculariza e ratifica a terra como muito mais que um fator de produção, e sua posse, um signo de poder extra- econômico que sobrevive, amiúde, a ciclos de crise e expansão econômica.
Faça uma análise crítica do desenvolvimento agrícola brasileiro.
Resposta Comentada
Em síntese, como características mais gerais do processo de desenvolvimento agrícola no Brasil, pode-se dizer que houve êxodo rural e redução do número absoluto de trabalhadores no campo; crescente aumento na produtividade do trabalho no meio rural, dadas as constantes inovações tecnológicas, tanto em máquinas quanto em insumos e um aumento da integração e subordinação de pequenos produtores ao agronegócio, como aconteceu com a criação de aves, por exemplo. Manteve-se, no desenvolvimento de nosso setor agrícola, uma apropriação privada e excludente do território e relações patrimonialistas entre as oligarquias regionais e o poder central.
Atividade 2
Economia Agrária | Notas sobre o uso e a ocupação do solo no Brasil
CEDERJ
158
O Brasil tem quase 330 milhões de hectares ocupados por pastagens, matas e lavouras. A maioria das lavouras é temporária, ou seja, de ciclo curto, em especial a soja, o milho e a cana-de-açúcar. Nas culturas permanentes, o destaque recai no café e na laranja. No que tange à criação de animais, excluindo as aves que são criadas na sua maioria em confinamento, os bovinos são a maioria, com mais de 170 milhões de cabeças, espalhadas em uma vasta área do território nacional dedicada às pastagens. A partir destas referências, podemos dizer que temos uma agropecuária extensiva e com pouca utilização de mão de obra, haja vista a constante redução do pessoal ocupado no meio rural.
R E S U M O
INFORMAÇÃO SOBRE A PRÓXIMA AULA
A partir das diversas implicações sugeridas até aqui, a próxima aula terá como foco a luta pela terra e os conflitos no campo. Começaremos, a partir da próxima aula, a investigar a luta pela terra, a reforma agrária e, mais à frente, a formação de assentamentos rurais no Brasil.
objetivos
Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de:
compreender a historicidade da luta pela terra