No Brasil, há diferentes desenhos institucionais dos órgãos periciais, que originam estruturas organizacionais distintas, as quais determinam a organização do serviço de perícia. Os principais pontos são: se o órgão é autônomo ou não; se é de natureza policial ou não; se inclui a identificação ou não; se o laboratório é um instituto próprio, ou se é um órgão subalterno do Instituto de Criminalística; se há o cargo de auxiliar de perícia (ou técnico de perícia, ou outros servidores de apoio), ou não. A tabela 5 resume esses pontos. O ponto em comum é que a criminalística e a medicina legal sempre fazem parte da mesma estrutura.
Tabela 5 – Resumo dos desenhos institucionais e estruturas organizacionais dos órgãos periciais analisados
Ente
Federado Nome Órgão Natureza Subordinação Vinculação Identificação Servidores de Apoio Laboratório
Amapá POLITEC/AP Adm. Direta Autônomo. Policial Governador Segurança Pública Inclui Sim Separado do IC
Mato
Grosso POLITEC/MT
Autônomo. Adm. Direta
Desconcentrada Civil SEJUSP/MT
Segurança
Pública Inclui Sim Separado do IC
Rio Grande
do Sul
IGP/RS Autônomo de Seg. Pública Civil SSP/RS Segurança Pública Inclui Sim Separado do IC
Pará Científicas Renato Centro de Perícias Chaves (CPC)
Autônomo:
Autarquia Civil SSP/PA Segurança Pública Não Inclui Sim Parte do IC
Ceará PEFOCE Autônomo de Seg. Pública Civil SSPDS Segurança Pública Inclui Sim Separada do IC
São
Paulo SPTC/SP Autônomo Policial Civil SSP/SP Segurança Pública Não inclui Sim Parte do IC
Polícia
Federal DITEC Subalterno da PF
Policial
Federal Diretor da PF Segurança Pública Inclui Não Parte do INC
Minas Gerais SPTC/MG Subalterno da Polícia Civil Policial Civil Chefe de Polícia Civil Segurança
Pública Não inclui Não Parte do IC Fonte: Dados da pesquisa
Talvez, esta diversidade de desenhos institucionais seja uma das razões para que o Plano Nacional de Direitos Humanos 3 (BRASIL, 2009a) proponha a criação de uma legislação nacional para a Perícia Oficial, da mesma forma que o estudo sobre a estruturação e modernização da perícia (MOTA et al, 2004).
A estrutura organizacional predominante é a funcional, comum na administração pública (CAULLIRAUX et al, 2004b, p. 64; HATCH; CUNLIFFE, 2006). Há, também, a presença de estruturas territoriais, principalmente no interior. Em alguns entes federados há a presença da estrutura matricial, em que prepondera a autoridade local. A estrutura matricial é mais difícil de ser gerida quando a Perícia Oficial está inserida na Polícia Judiciária. Nesse caso, normalmente há uma subordinação ao órgão central de perícia e outra local ao delegado de polícia que comanda a área onde se localiza a instalação de perícia.
Nas sedes, a criminalística em si, via de regra, obedece a uma estrutura funcional, em que há uma forma de organizar o serviço em função das especialidades ou naturezas periciais: crimes contra a pessoa, crimes contra o patrimônio, acidentes de trânsito, documentoscopia, engenharia legal, etc. Assim, as unidades que abrigam tais especialidades só mudam de nomenclatura: Seção, Serviço, Núcleo, etc. O laboratório da perícia, não importa se como órgão no mesmo nível do Instituto de Criminalística ou como órgão subalterno deste, também segue uma estrutura funcional que organiza o serviço em função das especialidades laboratoriais: Química, Toxicologia, Biologia (geralmente inclui o DNA), Física, e Balística. Há casos em que a balística não está entre as seções do laboratório, e sim como uma seção do Instituto de Criminalística. No interior, predomina a estrutura territorial e matricial.
Um fato comum observado foi que os órgãos periciais, mesmo os autônomos, estão vinculados às respectivas Secretarias de Segurança Pública ou congênere. A exceção foi observada no Estado do Amapá, em que a Polícia Científica é subordinada ao Governador, mas, operacionalmente, também está vinculada à SEJUSP/AP.
Observou-se que há unidades periciais centralizadas e descentralizadas distribuídas em regionais, que concentram um determinado número de peritos criminais, que atendem a vários municípios. Em algumas estruturas funcionais há o Instituto de Criminalística na capital, uma unidade intermediária (geralmente núcleos) que gere várias seções regionais, as quais atendem a um grupo de municípios. Nestas unidades intermediárias há alguns serviços especializados e laboratoriais, evitando a sobrecarga do Instituto de Criminalística e, ao mesmo tempo, melhorando a responsividade do serviço.
Nas unidades descentralizadas cada seção realiza tanto exames externos, quanto internos, exceto aqueles altamente especializados e os laboratoriais que exijam equipamentos tecnológicos não disponíveis na seção, ou seja, não há uma divisão do serviço em especialidades como na capital. Em alguns órgãos periciais havia este modelo mesmo na capital, onde a divisão do trabalho era em perícias internas, que são especializadas, e perícias externas ou localística. Nesse caso, a seção atende a mais de uma natureza pericial, a exemplo do que acontece nas unidades descentralizadas. São formas de racionalizar a produção do serviço e atender toda a área territorial de sua respectiva competência, enfim, universalizá-lo.
Essencialmente, o objetivo deste capítulo foi mostrar que há diferentes desenhos institucionais e estruturas organizacionais distintas para o serviço no país. O desenho das instituições públicas é um fator crítico para a entrega de valor à sociedade. Conhecidos alguns desenhos institucionais, estruturas organizacionais e formas de organização do serviço, discutir-se-á a perícia criminal sob uma perspectiva de operações de serviços, quando serão mapeados os seus principais stakeholders.
CAPÍTULO 3 – A PERÍCIA CRIMINAL COMO SERVIÇO: PRODUÇÃO, CARACTERÍSTICAS E STAKEHOLDERS
A partir do conhecimento de alguns desenhos institucionais, de algumas estruturas organizacionais e de algumas formas gerais de organização do serviço discutidos no capítulo anterior, mapearam-se os macroprocessos de produção do serviço, identificaram-se as suas características principais e, finalmente, foram mapeados e definidos os principais
stakeholders do serviço de perícia criminal.
Estas análises são fundamentais para compor o caso e, quando se analisar o valor do serviço, avaliar como o processo de produção e suas características impactam na entrega de valor do serviço público de perícia criminal, porque uma das formas de os governos criarem valor para a sociedade é por meio da prestação de serviços.