BÖLÜM 4 BULGULAR VE TARTIŞMA
4.2 TARTIŞMA
O grupo que tem vindo a gerar maior polémica é o Anonymous110, um conjunto de
hacktivistas que protagonizou ataques mediáticos. Este grupo não tem nenhum líder,
organizam-se, recrutam e coordenam as suas ações em fóruns de conversação, como o
4chan111, e em redes sociais (Imperva, 2012). Embora sejam, maioritariamente, jovens e
adolescentes, sobretudo nos EUA, as suas campanhas são suportadas por pessoas de todas as idades e em vários países. Tornaram-se famosos devido ao ataque à Igreja da Cientologia em 2008112, começando a protagonizar com regularidade campanhas e ataques noutros domínios (Aguilar, 2010).
De acordo com o relatório da Imperva (2012), uma empresa de segurança informática, conclui-se que os Anonymous realizam dois tipos de ataques. Em primeiro lugar temos os reativos, quando a motivação para o ataque está noutro incidente, por exemplo, quando o MasterCard e Visa negaram apoio à Wikileaks, os Anonymous
109 Conforme análise de recortes de imprensa em Apêndice J.
110 Site oficial https://anonops.com/ (consultados em 28 de fevereiro de 2015).
111 Fórum norte-americano de discussão e partilha de imagens. Disponível em https://www.4chan.org/ (consultado em 28 de fevereiro de 2015).
112 Em janeiro de 2008 é feita a primeira aparição pública dos Anonymous, com a publicação de um vídeo no
youtube intitulado “Message to Scientology” (Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=
JCbKv9yiLiQ). Tudo começou quando foi divulgado um vídeo de Tom Cruise no Youtube sobre a Igreja da Cientologia. Alegando violação de direitos de autor, a igreja solicitou ao Youtube que retirasse o vídeo, contudo, esta atitude não colheu concordância entre a comunidade hacker, defensores da liberdade de acesso à informação. Fruto desta situação teve início o projeto Chanalogy, foram desenvolvidos ataques cibernéticos, mas também ações de protesto no mundo físico contra a Igreja da Cientologia (Gutiérrez, 2012).
iniciaram a operação Payback113. Em segundo lugar, os pró-ativos, que se desenvolvem
quando o grupo afirma que irá desencadear um ataque, sendo estes menos comuns.
No relatório acima indicado, a Imperva, fazendo uma análise de um ataque desenvolvido durante 25 dias no ano de 2011, descreve as três fases de desenvolvimento do ataque: a primeira fase (dia 1 a 18) é a do recrutamento e comunicação através das redes sociais e divulgação de vídeos no youtube, na qual tentam de algum modo justificar o ataque e convencer as pessoas; a segunda fase (dia 19 a 22) é a do reconhecimento e aplicação do ataque, em que cerca de 10 a 15 hackers exploram as vulnerabilidades do site, de maneira a tentar obter dados; quando a segunda fase não é bem conseguida, passam à terceira fase (dia 23 a 25), na qual tem lugar o DDoS, um ataque desencadeado com a ajuda das pessoas sem competências técnicas.
Os Anonymous utilizam métodos convencionais de hacking como Havij114 e SQL
Injection, sendo a sua principal inovação a criação de sites que realizam ataques DoS.
Neste grupo estão envolvidos dois grupos de pessoas: um de hackers especializados, normalmente em menor número e com competências técnicas elevadas; outro de leigos, que pode já envolver dezenas ou centenas de voluntários, constituído por pessoas sem grande capacidade técnica, cujo papel é realizar DDoS (Imperva, 2012).
O seu lema é “nós não perdoamos, nós não esquecemos, esperem-nos”. Utilizam simbolicamente a máscara do filme V de Vingança, produzido pelos irmãos Wachowski, em 2006, inspirando-se em Guy Fawkes, que conspirou para explodir o Parlamento britânico no ano 1605 (Gutiérrez, 2012). Este grupo globalizou-se e hoje desenvolvem ações em todo o mundo. Em Portugal, por exemplo, este grupo já tem alguma representação115 e é talvez o mais mediático. Os grupos no facebook relativos aos
Anonymous são imensos, parece que é uma tendência que se multiplicou. A título de
exemplo, ficam algumas páginas de facebook relacionadas com este grupo, concretamente
113 Em dezembro de 2010, a operação foi desenvolvida com recurso a DDoS, que incidiram sobre a PayPal,
Visa, MasterCard, entre outros.
114 Ferramenta de exploração de vulnerabilidades dos sistemas do tipo SQL.
115 Blog oficial http://Anonymouspt.Blogspot.pt/ e facebook https://www.facebook.com/AnonymousPOR TUGAL (consultados em 7 de março de 2015).
os AnonymousPTHackers116, os Shadow Elite_ Anonymous117 e os Anonymous Legion
Portugal118.
4.2.2. “Operações” coordenadas
As operações desencadeadas, no ambiente informático, pelos grupos de hacktivistas têm vindo a desenvolver-se nos últimos anos. A questão que se coloca neste momento é perceber qual a capacidade que têm estes grupos para concretizar um ataque que desencadeie consequências nas FS. As ferramentas para a realização de ataques encontram-se online e acessíveis a qualquer pessoa, havendo mesmo tutoriais que explicam e ensinam os mais inexperientes. De acordo com Vitor Costa119, “este tipo de ataques está ao dispor de qualquer cidadão. É só a pessoa procurar na internet, as ferramentas, os métodos, os grupos e começar a participar. Estes grupos (…) [fazem] workshops de como fazer os ataques”, o que nos leva a considerar que a ideia de um ataque não seja assim tão inexequível e longínqua quanto se julga.
Contudo, de acordo com o Dirigente do SIS as capacidades globais são baixas, sendo que por vezes existem algumas pessoas que dão nas vistas pela sua competência, mas o que acontece é que “a perceção e o impacto da ameaça é claramente superior à efetiva capacidade que eles têm”120. No caso português, os hacktivistas recorrem sobretudo
à exploração de vulnerabilidades básicas dos sistemas, o que, de acordo com o mesmo entrevistado, não demonstra grande capacidade técnica por parte dos mesmos.
Neste sentido, para que o ataque produza os efeitos desejados é necessário muitas vezes haver uma coordenação entre as pessoas envolvidas, recorrendo à propaganda feita para operações que se pretendem desenvolver. Embora as novas tecnologias tenham afastado as pessoas e a sua forma de interação se tenha alterado, não podemos dizer que não exista organização nestes grupos. Estes estruturam-se através de redes sociais, como o
facebook ou twitter121, e utilizam-nos para divulgarem as ações perpetradas.
116 Facebook disponível em https://www.facebook.com/AnonymousPTHackers (consultado em 28 de fevereiro de 2015).
117
Facebook disponível em https://www.facebook.com/pages/Shadow-elite_-Anonymous-Portugal/276532
535857658?fref=ts (consultado em 28 de fevereiro de 2015)
118 Facebook disponível em https://www.facebook.com/AnonymousLegionPt?fref=ts (consultado em 28 de fevereiro de 2015).
119 Conforme entrevista em Apêndice C.
120 Conforme entrevista a Dirigente do SIS em Apêndice F.
De acordo com os dados disponibilizados pelo COSI da SGMAI, tiveram lugar em 2014 algumas operações que foram acompanhadas por este organismo. A Operação “Valquíria”, promovida pelos Anonymous Portugal e pelo Shadow Elite onde apelavam à não votação nas eleições legislativas de 2015. Os motivos prendem-se com o protesto contra o sistema democrático português, a corrupção e a constituição de elites políticas, a favor de uma maior representatividade e participação do povo. Esta operação foi acompanhada por alguns vídeos de propaganda122.
A operação “Stop Corruption Part 1” foi uma operação promovida em fevereiro por elementos do Team Whit3 Portugal contra sites do Governo através de DDoS123.
“RiosAoCarmo” foi uma operação promovida pelos AnonymousLegionPt124 para o
dia 24 de abril de 2014, que previa um ataque DDoS125. Na lista de alvos disponibilizada na rede126 é feita referência a sites de partidos políticos como o PS e PSD.
Por último, a operação “System Failed”, promovida em junho de 2014 por
AnonymousLegionPt e SUD0H4K3RS127 contra bancos portugueses e entidades políticas
relacionadas. Esta operação foi acompanhada por um vídeo de propaganda128.