Na análise do tratamento dado à notícia em cinco coleções didáticas atuais, buscamos também verificar se e em que medida o trabalho desenvolvido por cada obra contribui para a consecução dos objetivos de Língua Portuguesa previstos nos PCNLP para o ensino dessa disciplina. Para a análise a que procedemos, selecionamos um objetivo geral e dois objetivos específicos postulados nos PCNLP, os quais constituíram parâmetros para avaliarmos a adequação do trabalho proposto nesses livros didáticos ao que é preconizado nesse documento. Ressaltamos que tais objetivos orientam o ensino de língua materna em todo o território nacional e que as cinco obras analisadas também se norteiam pelas diretrizes neles explicitadas.
Reiteramos que a opção pelo objetivo geral citado a seguir é coerente com o ensino de leitura, aqui, defendido – aquele que tem como alvo a formação de leitores competentes capazes de interpretar os diferentes textos aos quais têm acesso dentro e fora da escola:
Frisamos o uso competente da língua(gem) fora da escola por entendermos que, aptos a tal uso, os alunos, consequentemente, serão também capazes de “responder a diferentes propósitos comunicativos e expressivos, e considerar as diferentes condições de produção do discurso” (BRASIL, 2001, p. 32) como previsto nos PCNLP. O alcance desse objetivo geral implica o alcance dos dois objetivos específicos selecionados: ser capaz de “selecionar textos segundo seu interesse e necessidade”; ler, “de maneira autônoma, textos de gêneros e temas com os quais tenha construído familiaridade” (BRASIL, 2001, p. 50).
O primeiro objetivo específico mencionado – ser capaz de “selecionar textos segundo seu interesse e necessidade” (BRASIL, 2001, p. 50) – está diretamente atrelado ao funcionamento discursivo dos gêneros, mais precisamente aos propósitos que esses pretendem atingir nas situações de interação. Defendemos que os usos que os sujeitos fazem dos gêneros definem-se, prioritariamente, por suas funções sociais, isto é, a opção por um outro gênero na leitura e na escrita é feita em conformidade com as ações que por meio dele podem ser executadas. Nessa ótica, o leitor que deseja saber sobre a vitória de seu time no campeonato
Utilizar a linguagem na escuta e produção de textos orais e na leitura e
produção de textos escritos de modo a atender a múltiplas demandas
sociais, responder a diferentes propósitos comunicativos e expressivos, e considerar as diferentes condições de produção do discurso (BRASIL,
brasileiro, por exemplo, precisa saber que não vai encontrar essa informação num editorial, mas que poderá encontrá-la numa notícia esportiva. Desse modo, entendemos que para ser capaz de selecionar textos conforme interesses e necessidades o leitor precisa, necessariamente, saber quais os objetivos daquele texto que ele procura.
Das cinco coleções analisadas, duas delas ocupam-se em abordar os objetivos perseguidos pela notícia: Trabalhando com a Linguagem e Projeto Araribá: Português. Como dito anteriormente, a compreensão de tais objetivos permite aos leitores selecionarem esse gênero quando for de seu interesse ou conforme suas necessidades, corroborando a importância de se tratar de objetivos no estudo de qualquer gênero. Ademais, o entendimento da função social da notícia é essencialmente prejudicado se os leitores desconhecem os objetivos desse gênero. Em virtude disso, podemos dizer que Trabalhando com a Linguagem e Projeto Araribá: Português são as duas coleções que se aproximam do primeiro objetivo específico postulado pelos PCNLP.
Em Construindo Consciências: Português, verificamos apenas indícios desses objetivos na definição de notícia como “informação sobre um fato curioso ou de utilidade pública” (CC, 5ª série, p. 127). De modo semelhante, em Tudo é Linguagem, diz-se que a função da notícia é informar sobre fatos reais, e, em Português: Linguagens, a notícia é definida como relato de fatos recentes que despertam o interesse dos leitores, noções não problematizadas pelos autores dessas obras. Nessa perspectiva, constatamos pouco empenho dos autores desses livros didáticos em auxiliar os alunos no entendimento dos objetivos da notícia, o que significa dizer que esses se distanciam do objetivo específico postulado pelos PCNLP.
O segundo objetivo específico – ler, “de maneira autônoma, textos de gêneros e temas com os quais tenha construído familiaridade” (BRASIL, 2001, p. 50-51) diz respeito à leitura autônoma de textos, a qual requer, conforme atestado nos Parâmetros Curriculares, a seleção de procedimentos de leitura adequados ao gênero lido e aos objetivos do leitor, a construção de expectativas sobre forma e função do texto com base em conhecimentos prévios sobre o gênero, a produção de inferências, a confirmação ou não das hipóteses formuladas, a articulação dos índices textuais e contextuais na construção de sentidos do texto.
Nossa análise revelou que, em maior ou menor medida, todas as cinco coleções didáticas analisadas demonstraram a presença de esforços para o alcance desse segundo objetivo, ou seja, todas elas apresentaram atividades mais ou menos orientadas para a leitura autônoma da notícia.
Na coleção Construindo Consciências: Português, a leitura autônoma da notícia é alvo de atividades que tratam, por exemplo, da função da manchete, já que o leitor pode recorrer à manchete para saber se a notícia atende ou não aos seus interesses (procedimento de leitura). A construção de expectativas sobre a forma do texto, a produção de inferências e a confirmação de hipóteses são focalizadas nas atividades em que a estrutura da notícia é explorada. A articulação de índices textuais e contextuais é abordada, de forma mais direta, na pergunta que trata da função dos depoimentos na notícia.
A proposta de leitura da notícia apresentada nessa coleção, na tarefa de contribuir para que os alunos se tornem capazes de fazer uso competente da linguagem nas práticas de leitura com as quais se depararem fora da escola, pouco avança no alcance do objetivo geral preconizado pelos PCNLP. Isso porque a estrutura formal da notícia é privilegiada nas atividades apresentadas nesse livro didático e não se consegue apresentá-la aos alunos como forma linguística que funciona, que atende a propósitos definidos, que organiza, certamente com inúmeros outros gêneros, a sociedade na qual é veiculada.
Os autores de Trabalhando com a Linguagem dedicam-se à leitura autônoma da notícia nas atividades em que solicitam, por exemplo, que os alunos identifiquem o gênero notícia em meio a outros três gêneros apresentados, haja vista que eles terão que se utilizar de alguma ou de muitas estratégias para reconhecê-lo. A construção de expectativas sobre forma e função do texto, a produção de inferências, a confirmação ou não das hipóteses formuladas são foco das atividades centradas no objetivo da notícia e nos seus destinatários. As atividades que se voltam para a linguagem da notícia tocam a articulação dos índices textuais e contextuais na construção de sentidos do texto.
Verificamos, nessa obra, uma proposta de leitura da notícia que se aproxima do objetivo geral preconizado pelos PCNLP, segundo o qual cabe à escola possibilitar aos alunos tornarem-se aptos a utilizar a linguagem com propriedade nas múltiplas situações de leitura em que irão se engajar fora do contexto escolar. A abordagem dada ao referido gênero, nessa obra, não perde de vista a noção de gênero como formas de agir discursivamente.
Na coleção Tudo é Linguagem, procedimentos necessários à leitura autônoma da notícia são trabalhados em atividades que deixam entrever a possibilidade de se recorrer ao lead para saber as principais informações veiculadas na notícia. Nessas atividades, a construção de expectativas sobre a forma do texto é também abordada. As perguntas direcionadas para o estudo da notícia nesse livro didático, de certa forma, ensejam a produção de inferências, a confirmação ou não das hipóteses formuladas e a articulação dos índices textuais e contextuais na construção de sentidos do texto.
Constatamos que a proposta de leitura da notícia apresentada nessa coleção pouco se aproxima do objetivo geral previsto nos PCNLP, já que, nas atividades contidas nesse livro didático, não se consegue romper os limites linguísticos e estruturais do próprio gênero nem os da escola. Desse modo, fica comprometida a tarefa desse livro didático de contribuir para que os alunos sejam usuários competentes da língua(gem) na leitura de textos escritos, visto que o domínio de formas linguísticas não é o bastante para garantir a eficiência na interação.
Na obra Projeto Araribá: Português, procedimentos de leitura adequados ao gênero lido são focalizados nas atividades direcionadas, por exemplo, para a organização das informações na notícia, sinalizando-se que as informações principais encontram-se no primeiro parágrafo do texto. A construção de expectativas sobre forma e função do texto, a produção de inferências e a confirmação ou não das hipóteses formuladas são exploradas nas perguntas voltadas para a função da manchete e para o objetivo da notícia. A articulação dos índices textuais e contextuais na construção de sentidos do texto é enfocada na pergunta que trata, por exemplo, do uso de aspas para marcar os depoimentos incluídos na notícia.
Nessa coleção didática, o tratamento dispensado à notícia, mais precisamente à leitura desse gênero, consegue, ainda que de modo bastante tímido, avançar em direção à consecução do objetivo geral preconizado pelos PCNLP. Verificamos que as atividades propostas demonstram o empenho das autoras dessa coleção em contribuir para que os alunos tornem-se capazes de utilizar a linguagem com competência nas práticas de leitura de que participarem para além do contexto educacional.
Em Português: Linguagens, procedimentos de leitura e construção de expectativas sobre a forma do texto são explorados nas atividades que se voltam para as informações mais importantes da notícia presentes no lead e na identificação do suporte em que ela foi publicada. A produção de inferências, a confirmação ou não das hipóteses formuladas e a articulação dos índices textuais e contextuais na construção de sentidos do texto são alvo de atividades que exploram a função da manchete e a variedade linguística empregada na notícia. As atividades de estudo e exploração da notícia apresentadas nessa coleção, na seção dedicada à produção textual, revelam que a proposta desse livro didático afasta-se do objetivo geral previsto nos PCNLP, tanto no que diz respeito ao uso competente da linguagem nas práticas de leitura quanto no que se refere à produção textual da notícia. Tal afirmação sustenta-se no fato de que, nessa obra, não é apresentado um trabalho destinado ao ensino da leitura da notícia, e, na produção, são exploradas apenas a linguagem e a forma desse gênero, desconsiderando que foram as ações executadas por meio dos gêneros que ocasionaram a cristalização das formas linguísticas.
Diante das constatações, aqui, apontadas, consideramos relevante explicitar, na próxima seção, quais as contribuições pedagógicas trazidas por cada uma das cinco obras analisadas.